De “Oscars” a “Copinha”: afetos, prestígio e escolhas linguísticas

Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP

 28/04/2025 - Publicado há 11 meses
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal
Henrique Braga – Foto: Arquivo pessoal
O aguardado Oscar de 2025 se foi, mas ainda está aqui uma velha dúvida dos bastidores linguísticos, como um clássico que se recusa a sair de cartaz: afinal, o plural consagrado da estatueta dourada é mesmo Oscars? Pode isso? Não seria um anglicismo preguiçoso ou um deslize de estilo? A verdade é que, por mais que soe estrangeiro, Oscars se encaixa perfeitamente em padrões silábicos do português e funciona como um exemplo curioso de como lidamos com palavras importadas – às vezes com mais glamour do que gramática, mas sempre com alguma lógica.

Embora muitos ainda prefiram contornar a forma polêmica dizendo “os prêmios da Academia” ou simplesmente “os Oscar” (sem flexionar), a forma Oscars já circula amplamente em reportagens, redes sociais e comentários culturais, com um pé firme na prática e outro na possibilidade gramatical. Parece exótico, mas é legítimo – e sua presença crescente nas mídias mostra que, quando o uso se firma, até o mais “gringo” dos plurais pode ganhar status de hábito.

Plural com sotaque: Oscars é português com feição gringa?

A forma Oscars, com “s” final à maneira do inglês, pode causar certo estranhamento à primeira vista, mas é compreensível à luz dos mecanismos de adaptação do português. Embora não se conforme às regras morfológicas da língua – que, para vocábulos terminados em -r, exigem a formação do plural com -es (como em atores, motores, professores) –, trata-se de um estrangeirismo cuja forma plural se consolida no uso, especialmente em registros jornalísticos e midiáticos. Não há impedimento fonológico, e é possível encontrar paralelos em outras palavras adaptadas ou mesmo já consagradas no uso cotidiano. Apesar de não se tratar de um nome comum como “bazar” ou “lugar”, Oscar entra no vocabulário como um nome próprio de origem estrangeira e, portanto, traz consigo essa certa liberdade de seguir ou não os padrões da língua que o acolhe.

Mais do que isso, é importante notar que a sequência final de Oscars – a saber, o agrupamento de consoantes “r” e “s” ao final de uma sílaba – se encaixa num padrão silábico perfeitamente possível no português brasileiro. Em termos técnicos, falamos aqui de uma sílaba do tipo CVCC, ou seja, composta por uma consoante (C), uma vogal (V) e duas consoantes no final, como ocorre em “PERSpectiva”, “SUBstituir”, “CONStante” e outras. Com palavras de origem inglesa, não é novidade adotar esse padrão na sílaba final, justamente na construção das formas plurais: “traiLERS”, “banNERS”, “folDERS” e “hambúrGUERS” são alguns exemplos – ainda que, como lembrarão os menos jovens, uma famosa rede de fast-food tenha martelado nos ouvidos do público, em jingle quase catequético, a receita com “dois hambúrgueRES, alface, queijo, molho especial (…)” para um dos seus mais famosos sanduíches.

A alternativa Oscares, embora usada, nunca caiu no gosto popular. Assim, Oscars ficou, e com razão. É simples, curto, direto – e não ofende as estruturas do português. Na prática, trata-se de uma escolha que respeita a sonoridade e o costume, mais do que uma fidelidade cega às regras tradicionais.

Por que a “Copa de juniores” virou “Copinha”?

O contraste entre o plural de “Oscar” e a “Copa de juniores” é revelador: mostra com clareza como os usos sociais e afetivos moldam as escolhas linguísticas no português brasileiro. No universo do futebol, por exemplo, a Taça São Paulo de Futebol Júnior – nome longo e institucional – era referida pelo jornalismo esportivo dos anos 80 e 90 como “Copa São Paulo de Juniors”. Os juniors eram os atletas, que, na competição, podem ter até 21 anos de idade.

Na primeira década dos anos 2000, em meio a uma sanha normativista, passou-se a advogar, com sucesso, o plural “juniores”, por vezes remetendo a origens latinas do termo – embora esse pareça ser um daqueles casos em que o latim nos chega pelo inglês, como é o caso do verbo “deletar” no português brasileiro. Diante do antipático “juniores”, imposto por uma correção mais rígida, encontrou-se uma solução bem brasileira: o campeonato dos juniores passou a ser chamado simplesmente de “Copinha”.

No português do Brasil, o diminutivo cumpre frequentemente funções de aproximação afetiva e leveza – qualidades que combinam bem com o espírito juvenil da competição e o tom entusiástico da torcida. “Copa de juniores”, embora correta, soa formal, burocrática, distante da vibração das arquibancadas. Daí a normalização e aceitação do substantivo “Copinha”.

The Oscars não se curvam

Com o “Oscar”, o percurso foi diferente. No português brasileiro, o nome da premiação já foi incorporado com sua forma original (nota-se que o próprio site da premiação contém o “-s” em oscars.org), curta e carregada de prestígio simbólico. Não houve necessidade, nem naturalidade, para a criação de apelidos ou formas carinhosas. A solenidade do evento, associada ao imaginário de glamour que o cerca, parece ter freado qualquer tentativa de abrasileiramento afetivo. Em vez disso, a adaptação foi mínima: adotou-se o plural com “s”, como no inglês, e Oscars passou a circular com fluência nos meios de comunicação.

Mais do que concessão ao estrangeirismo, esse uso reflete um traço recorrente no português brasileiro: a capacidade de absorver formas linguísticas quando estas cumprem bem sua função comunicativa – desde que os arautos da norma não inventem problemas onde não há. Como Oscars já é o nome oficial do evento e circula amplamente na mídia, sua incorporação ocorreu sem ruído e sem necessidade de reconfiguração morfológica. A língua, pragmática como sempre, apenas acolheu o que já funcionava.

E o prêmio vai para…

Por fim, a forma Oscars não só pode, como deve ser reconhecida como uma possibilidade legítima do português contemporâneo, apesar de não respaldada pela norma-padrão. Ela se encaixa num padrão silábico aceitável – na estrutura fonológica do tipo CVCC –, é compreendida sem dificuldade e vem sendo cada vez mais usada com naturalidade, especialmente na mídia e nas redes sociais. E se há algo que a gramática funcional nos ensina, é que o uso fala alto – às vezes com sotaque de gala, às vezes com sotaque de arquibancada, mas sempre com muito a dizer sobre quem fala e sobre o lugar que a língua ocupa na vida social.

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