
De repente, em determinados meios e grupos, parece que não é mais possível dar sequência a uma conversa saudável sem fazer menção a um fato dos últimos dias: a estreia da série britânica Adolescência, já sucesso disparado de streaming, tomou mesmo conta do imaginário de alguns sujeitos, bem como de suas redes sociais e veículos informativos. Neste momento, dezenas de textos, em diversos periódicos, enchem as páginas de notícias e os aparelhos celulares de grande parte dos brasileiros, em uma tentativa quase desesperada de responder a um questionamento que, há anos, é objeto de grande interesse em conversas interessadas: afinal, que subjetividade tem se formado nos adolescentes, principalmente após a explosão das redes sociais e a difícil e forçada experiência de enclausuramento vivenciada junto a uma longa pandemia mundial?Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Clarice Lispector
A pergunta é urgente e não aparece sem certa margem de contradição: de um lado, há o confinamento e a tentativa púbere de produzir um universo próprio, quase autoral, que arbitrariamente se enclausura segundo o ritmo produtivo dos algoritmos e se tranca a chave e cadeado dentro dos próprios quartos, essa espécie de mundo privado que constrói no sujeito a experiência da possibilidade de algum recuo e individualidade dentro do ambiente familiar; de outro, a vastidão do mundo digital, cuja promessa de uma eterna companhia e vigilância, fomentada pela sensação de que algo pode ruir a todo instante, na rapidez de cada olhar, cancelando toda a experiência vivida, dá o tom da solidão e do desamparo contemporâneos. Ao que parece, nunca estivemos tão acompanhados e tão soltos à própria sorte. A exposição sem fim, que demarca o modo de ser de muitos sujeitos nas redes sociais, pode ser lida, na verdade, como um sintoma que busca esconder um difícil vazio abissal.
Talvez por isso um dos momentos mais comentados de toda a série, dirigida por Philip Barantini, com apenas quatro episódios inteiramente gravados em um inteligente e perspicaz plano-sequência, seja a pergunta do adolescente à psicóloga que lhe visita: “Do you like me?”.
Na tentativa de produzir para si um novo lugar diante do Outro, Jamie Miller, estudante de 13 anos preso sob a acusação de assassinar uma de suas colegas de classe, apela a um desesperado reconhecimento que não lhe vem e que também não é redimensionado para alguma elaboração – a não ser como expectativa de que o sujeito volte a realizar seu próprio processo de análise em outros serviços e programas de saúde mental –, confirmando o jovem menino em seu lugar de desamparo e abandono, de alguém que se vê e se diz como feio, alvo de ataques, ofensas e bullying, destinado a reproduzir e performar, como um modo ineficaz de esconder a própria fragilidade, um violento estereótipo de masculinidade que sequer se dá a ver como uma possibilidade de escolha, mas que se manifesta na exata sombra e esteira dos rompantes paternos de explosões e silenciamentos, quase como um invisível pacto geracional que, por mais que esteja de antemão fadado ao fracasso, ainda se estabelece e é transmitido de pai para filho, de homem a homem.
Aqui, neste mundo inteiramente masculino, de permissividade e autorização da violência, regulado pela constante publicação on-line de imagens de garotas, em que nenhuma conversa ou crítica a respeito dos padrões paternos é suportada sem alguma reclamação – ao mesmo tempo em que o desconforto em relação a abordar qualquer esfera do feminino, em seus múltiplos desdobramentos, mostra-se incessantemente –, também não existe culpa: “Eu não fiz nada de errado”, exclama diversas vezes o jovem sujeito fragmentado, que se julga melhor que os outros homens, cuja maldade teria produzido crimes também sexuais contra o corpo da vítima. À incapacidade de produzir uma inteligente imagem de si mesmo, que dê ritmo e substância às escolhas da própria vida, soma-se outra: a de se reconhecer na imagem e nas consequências de seu próprio ato, restando ao jovem apenas a sombra e os impactos das escolhas que faz, das que não faz e das que inconscientemente reproduz.
Neste terreno, para além dos psicólogos e familiares, tentando agir e encontrar alguma alternativa à altura do problema, por vezes sem nem mesmo saber direito por onde começar, ganham espaço também os professores, tristes figuras sempre relembradas e responsabilizadas nos debates sociais, aqui reavivados em seus comandos inúteis e pouco eficazes à frente de uma sala de aula.
Ao longo do segundo episódio, a existência parcialmente oculta de ameaças, mecanismos de controle e de alguns tradicionais métodos punitivos torna-se já sinal de riso e piada entre as turmas, uma vez que as prováveis consequências de cada situação encontram-se completamente distantes da raiz das questões que motivam os feitos originais; o jovem que ri dos professores é o mesmo que, inconscientemente, parece lhes suplicar pelo estabelecimento de contornos e limites que ele próprio não sabe sequer dimensionar, nessa experiência toda maluca chamada vida, em que lidar com a própria falta e o vazio do próprio existir tem se mostrado um ato cada vez mais insuportável – ainda mais em ritmo digitalmente neoliberal.
Observando o fazer dos professores, uma pergunta inevitavelmente aparece: quantas brigas são possíveis de se ganhar no grito, afinal? O descompasso entre a estrutura de ensino, o próprio formato institucional e a realidade das conversas e práticas discentes dá o tom desconfortável de um episódio no qual as principais instituições formadoras de uma possível subjetividade adolescente se mostram a partir de seu mais completo fracasso. Parafraseando um dos textos clássicos de Sándor Ferenczi, diante da confusão de língua entre adultos e crianças, quem falaria, afinal, a língua dos adolescentes, inteiramente abandonados no mundo sem lei das redes sociais?
Aqui, uma lembrança se faz importante como resgate de uma triste memória. É que o feminicídio em uma cidadezinha no interior da Inglaterra, representado em Adolescência, já nos é conhecido com outra roupagem e formato há alguns anos – ou nossa memória já se esqueceu, por exemplo, da experiência dos massacres nas escolas estaduais brasileiras? As perguntas permanecem: o que leva um sujeito adolescente a exterminar o outro?
Em termos um tanto psicanalíticos, quão difícil pode ser a passagem de um provável princípio de prazer para um necessário princípio de realidade e a que custo o sujeito pode reivindicar para si uma imagem nos circuitos simbólicos de existência? Quão insustentável é o modelo de vida e trabalho atualmente em voga a ponto de toda a geração seguinte se dispor a recusá-lo e a não temer as consequências desta ruptura? Diante do estrago, em cena são quatorze as famílias que ligam para a escola perguntando se a instituição é mesmo um local seguro, sugerindo seguranças e um detector de metais nas portas de entrada – instrumentos que certamente não corrigem o erro, mas servem como desculpa para um falso imaginário de proteção.
Nada mais previsível: construir muros e vigiar entradas têm sido nossa política de convivência já há alguns anos. Justamente por isso, a melhor resposta dada pela equipe escolar é a de que o crime não aconteceu dentro de suas paredes. O que ela não diz é o outro lado da moeda, a exata complementaridade do discurso: que foi em cada uma de suas carteiras que teve início todo o planejamento; que foi, em cada uma daquelas páginas de caderno, que parte do crime foi originalmente ensaiada. O grito da mãe de Jamie nas cenas iniciais da série, implorando o reconhecimento de que dentro daquela casa existiam crianças, crianças!, ecoa um dado de realidade que potencializa todo o estrago: sim, trata-se, enfim, de crianças, mas que já se perderam em sua infância, destinadas à reprodução de uma violência inteiramente herdada das mazelas sociais não corrigidas por toda a geração anterior, e que agora se veem cotidianamente alimentadas por discursos de toda ordem nas redes sociais, guias principais para um sujeito perdido, dividido entre o ódio ao diferente e a busca por alguma aceitação entre aqueles junto a quem ele deseja se ver como igual, alimentando seu desejo intrínseco de pertencimento, dada a falta de orientação precisa no trato com as próprias frustrações.
Em outras palavras, sujeitos que vivem soltos como adultos, no mais puro acaso e na irresponsabilidade das redes, mas cuja percepção de mundo ainda não conheceu nem absorveu a cultura como um lugar de impedimento, de frustração e falta, sintagmas cruciais para o amadurecimento necessário a cada sujeito. A isso que não se sabe como dar nome, mas que ecoa um dado do Real, os adolescentes respondem em sala de aula, sem também saber como. Em seu rosto, o tédio, o cansaço e a desistência que alarme de incêndio nenhum parece conseguir reavivar. Estariam os docentes aptos a identificar esta manifestação e a respondê-la de modo eficiente e produtivo? Aliás, também a eles cabe este trabalho que se inaugura a despeito de qualquer preparo e recompensa salarial? Afinal de contas, quantas são as funções que a escola deve abraçar em seu processo pedagógico? Entretanto, se a ela não couber determinadas mudanças estruturais e certa revisão de perspectivas, a quem caberá?
“I should have done better” é a última fala de um pai que, simbolicamente, coloca o filho, já ausente, para dormir. O ursinho de pelúcia deitado na cama tenta dar conta de uma presença que já não está mais lá, mesmo se fazendo presente em todo canto, talvez ativando um grande senso de responsabilização que deveria mesmo existir de uma geração a outra. Contudo, é provável que o maior de todos os afetos gerados pela série não seja o cuidado repentino que surge diante de um estrago irreparável, mas o entendimento de que, já na largada, de imediato, não sabíamos mesmo o que fazer porque o quadro já não era favorável a nenhum de nós: adultos, jovens e crianças.
Provavelmente, este será o principal ganho de uma série como Adolescência: a representação estética de que, há muitos anos, grande parte de nós já não sabe mesmo o que fazer, por mais que ainda continue fazendo, na esteira dos traumas e vivências herdados de uma violenta geração anterior. A pergunta que fica com o último dos episódios já é conhecida: e de quem seria esta culpa? Sim, porque Jamie exige certa responsabilidade de todos nós. Ao relembrar as surras recebidas em sua infância, seu pai afirma: “Eu queria ser um pai melhor”. O problema é que não se é um pai apenas em contato com os fantasmas paternos estabelecidos na infância, mas principalmente a partir da relação com o próprio filho. Aqui falhamos: em olhar o sujeito que se mostra a nossa frente – e que, a seu modo, com os poucos recursos simbólicos que tem, pede socorro. Não, talvez não houvesse mesmo como adivinhar o que o menino faria. Talvez não houvesse também um modo já conhecido e seguramente eficaz de proteger este sujeito. É que nenhuma família pode resolver sozinha uma batalha que, antes de tudo, precisa ser coletiva. Enquanto isso, atualmente, em cada sala de aula, cerca de 40 Jamies esperam ansiosamente por alguma lição que venha a produzir algum sentido.
Nota do autor: Na primeira semana deste triste mês de abril, jovens de 13 a 15 anos resolveram esfaquear uma professora de Inglês, em Caxias do Sul, na Serra do RS. Sem sombra de dúvidas, estamos mais perto do que imaginamos de todo este enredo.
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