Um cientista por excelência: livro retrata trajetória do bioquímico Hernan Chaimovich

O bioquímico e professor da USP revisita sua trajetória de cerca de seis décadas na autobiografia “Um Sonho”, que será lançada no dia 8 de maio, a partir das 18h30, na Livraria da Vila, no bairro de Pinheiros, em São Paulo

 29/04/2025 - Publicado há 11 meses
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A trajetória de vida e acadêmica do bioquímico e professor da USP Hernan Chaimovich é contada em livro – Foto: Divulgação/IEA USP


Na autobiografia Um Sonho: ciência e tecnologia como fontes de desenvolvimento, Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química (IQ) da USP, revisita sua jornada como cientista que nunca se afastou da urgência de transformar realidades. Nascido no Chile e radicado no Brasil, o autor compartilha memórias pessoais e profissionais que se entrelaçam com os rumos da ciência na América Latina, em um percurso que vai da juventude inquieta até os bastidores do poder acadêmico e político. O livro da Editora Labrador (192 páginas, R$ 54,00) será lançado no dia 8 de maio, das 18h30 às 21h30, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros). Está disponível para compra neste link.

“Parte da história de minha vida e de quem sou, através de uma reflexão baseada em artigos que escrevi sobre universidade, ciência, tecnologia e divulgação” está no livro, como afirma o professor. Segundo seu filho, Felipe Chaimovich, com mestrado e doutorado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e que assina uma das apresentações da obra, ele narra a construção do próprio sonho de juventude como estudante que pretendia mudar a condição de subdesenvolvimento da América Latina por meio da ciência e tecnologia. “Ao aproximar-se gradativamente de posições de poder no sistema acadêmico nacional e internacional, desde a chefia do Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP) até a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele se depara com a realidade que se impõe, entre vitórias e derrotas”, lembra Felipe.

O livro narra a trajetória dos avós e dos pais, imigrantes judeus chegados da Ucrânia à América do Sul, sua experiência como primeira geração nascida no Chile, a descoberta apaixonada da bioquímica, ao mesmo tempo que reflete sobre os dilemas vividos na universidade pública brasileira e na política de desenvolvimento científico e tecnológico do País nos últimos 50 anos. O pano de fundo de seu pensamento, como continua Felipe, são as mudanças nas fronteiras do conhecimento e nas relações geopolíticas, com resultados concretos, como ter fundado a Rede Interamericana de Academias de Ciências. “A cada passo, o sonho convive com a vigília, num testemunho de integridade entre o desejar e o agir.”

Hernan Chaimovich recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Chile, em 2015, entregue pelo reitor da Universidade, Ennio Vivaldi Véjar – Foto: Divulgação/CNPq

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Sua trajetória

A trajetória acadêmica começa com o ingresso em um curso de Farmácia, que desistiu de concluir depois de descobrir o então recém-criado curso de Bioquímica, conta Glenda Mezarobba, mestre e doutora em Ciência Política pela USP, na outra apresentação do livro, intitulada “Um Cientista por Excelência”. Graduado em 1962, aos 22 anos, pela Universidade do Chile, Chaimovich logo se mudou para os Estados Unidos, onde fez estágios na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e em Harvard. 

“Algum tempo depois, casado com uma brasileira e decidido a viver no País, Chaimovich aceitou a oferta de uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), para trabalhar no Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Não demorou para se tornar uma liderança do Programa Bioq-Fapesp e transferir-se para o Instituto de Química da USP, onde, além de contribuir para fundar a pós-graduação, obteve os títulos de doutor e livre-docente”, informa a pesquisadora. 

Segundo Glenda, Um Sonho é mais do que o relato autobiográfico de um autodenominado servidor público. “Trata-se do testemunho da capacidade e da determinação de um cientista brasileiro que não vê possibilidade de construção de ‘uma sociedade mais justa e socialmente desenvolvida’ que não passe pela ‘ciência fundamental autóctone, educação científica e desenvolvimento tecnológico em empresas nacionais’”, diz a pesquisadora citando palavras do próprio Chaimovich, que ainda afirma: “Só o que sabemos é que, para mitigar o dano já feito em nosso planeta, para criar melhores condições de vida, para diminuir a fome, a sede e a iniquidade que nos rodeiam, só temos a ciência já feita, e muita ciência a fazer”. 

Hernan Chaimovih em reunião com o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, quando era presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2016 – Foto: CNA/ Flickr

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A obra 

O livro está dividido em duas partes. Como diz Glenda, a jornada principia na infância em Santiago, entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, inclui lembranças paulistanas de uma sessão de psicodrama que evidencia sua crença na educação, ciência e tecnologia como pilares para o desenvolvimento da América Latina e culmina com sua atuação em diferentes instituições de ensino e pesquisa, no Brasil e no exterior. Para ela, em certa medida, a obra acompanha o desenvolvimento da ciência no País e dialoga com grandes questões postas à comunidade científica internacional, como o debate em torno do movimento anticiência.

Aos 8 anos, Chaimovich ganhou seu primeiro microscópio, lembra a pesquisadora na apresentação, e, embora não compreendesse a língua, foram livros de ciência para crianças, publicados em alemão, que o conduziram aos experimentos iniciais, em biologia e química. “As possibilidades vislumbradas no laboratório farmacêutico do pai, sobras de alimentos fermentados e insetos de jardim fizeram sua parte e em pouco tempo o menino já estava produzindo… explosivos!”, escreve.

A segunda parte trata de seu compromisso político, que ele chama de “fazer político” e que o acompanha desde sempre: “Desde a minha participação no centro acadêmico da faculdade no Chile, e me levou a retomar essa atividade ainda durante a ditadura no Brasil, participando da diretoria da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp).” Também fala da chefia de Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP, que assumiu entre 1984 e 1988, e da sua participação na criação e implantação do curso de Ciências Moleculares na USP, do qual foi seu primeiro coordenador, e de seu cargo na Pró-Reitoria de Pesquisa (1997-2001). “Foram anos intensos, em que as responsabilidades como cientista, orientador e executivo se somavam”, diz Chaimovich.

Foto: Divulgação Editora Labrador

Também foi diretor da Academia Brasileira de Ciências, “função que me permitiu, além de conhecer e trabalhar com um conjunto notável de pessoas, estabelecer contato com outras organizações internacionais de ciência”. Ele conta ainda que “num desses encontros, fortuitos e inesperados, o cientista que deveria representar o Brasil no International Council for Science (ICSU) 25 ficou doente e eu fui eleito para a diretoria do ICSU”. Também relata sobre a criação da Inter-American Network of Academies of Science (Ianas), organização que presidiu até 2010.

No livro, o autor ainda passa pelas agências de fomento de pesquisa CNPq, Capes, Finep, FAPs, FS, dentre outras que, como ele mesmo diz, uma sopa de letrinhas dentro de um conto perverso: “Apesar dos muitos lobos e da infinidade de ogros, que tudo fizeram para diminuir a importância da ciência e da tecnologia nesse país, há de se reconhecer que a densidade de heróis e visionários é imensa. Pena que tenham menos peso político que os lobos e os ogros”.

Um Sonho: ciência e tecnologia como fontes de desenvolvimento, de Hernan Chaimovich
Lançamento no dia 8 de maio, das 18h30 às 21h30
Local: Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros)
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