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“Qual é o dia D para o lançamento do plano?”, perguntou, em 30 de março de 1993, o recém-nomeado ministro da Fazenda, o embaixador Rubens Ricupero, à equipe econômica que acabara de herdar do senador Fernando Henrique Cardoso, pois seu antecessor se candidataria à presidência da República nas eleições daquele ano. Não havia nenhuma data firmada, pois a equipe do Ministério ainda estudava as medidas econômicas que poderiam livrar o País da inflação de mais de 80% ao mês que infelicitava o bolso dos brasileiros.
Diante da magnitude e urgência do desafio que Ricupero herdara, ele e a equipe desenharam um cronograma: em 90 dias, na data de 1 de julho, deveria ser lançada a nova moeda, o Real, que nasceria a partir da URV – a Unidade Real de Valor – moeda escritural fictícia, criada em 1/3/1994, que acompanhava diariamente a desvalorização do cruzeiro, que padecia de perdas crônicas diante da inflação desembestada. Real, que é a moeda oficial do Brasil até hoje, mais de 30 anos após seu lançamento, a mais longeva da história desde a proclamação da República.
Esse delicado momento do combate à inflação brasileira foi relembrado pelo embaixador Rubens Ricupero, no último 27 de março, no lançamento do livro Os Homens da Moeda, da Editora Unesp, organizado pelo professor Ivan Colangelo Salomão, do grupo Hermes & Clio, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, voltado para o estudo e pesquisa da história econômica do Brasil. Participaram do lançamento dois outros ex-ministros da Fazenda, Maílson da Nóbrega e Luiz Carlos Bresser Pereira, que também lançaram planos de combate à hiperinflação, o Verão e o Bresser, no governo do presidente José Sarney, o primeiro a suceder os 20 anos de governos militares instalados em Brasília desde 1964. Os dois planos, Verão e Bresser, não foram bem sucedidos, mas mostraram caminhos e acumularam experiências que foram de grande utilidade para o desenho do Plano Real.
“Os planos de combate à inflação foram uma corrida de obstáculos, com correções de rumos, elaborados por regimes civis que herdaram-na dos governos militares”, lembrou Maílson da Nóbrega. Só para relembrar a gravidade do problema, na época eu era editor de economia da revista Veja, na época a mais importante do País, e a questão da inflação foi capa da publicação por cerca de dez edições seguidas.
“O plano Cruzado fora um sucesso, foi uma festa, mas de repente…”, lembrou Bresser Pereira, que sucedera ao lançador do cruzado, o ex-ministro Dilson Funaro, com o objetivo de criar um sucedâneo para os Cruzados I e II, que não haviam sido bem sucedidos. No seu mandato à frente do Ministério da Fazenda, lançou o plano que levou seu nome, Bresser, que também naufragou.
O livro Os Homens da Moeda traça os perfis e a atuação dos 15 primeiros ministros da Fazenda da Nova República, o regime civil que sucedeu ao dos militares*. Mostra que, apenas no governo seguinte ao de José Sarney, o de Itamar Franco, o vice-presidente que sucedeu o impeachmado Fernando Collor de Mello, o bem sucedido Real foi lançado. O então ministro da Fazenda de Itamar Franco, senador Fernando Henrique Cardoso, começou a implantar as bases do Plano Real, que foi lançado oficialmente pelo seu sucessor, Rubens Ricupero, como acima relatado. Nesse momento, então, o problema crônico da inflação brasileira é equacionado e seu nível permanece em valores aceitáveis até hoje.
“A passagem de Fernando Henrique Cardoso pelo Ministério da Fazenda ficaria incógnita se o critério utilizado fosse apenas temporal… Foi o suficiente para gestar um dos mais importantes programas econômicos da história contemporânea do País. Elaborado durante sua curta passagem pelo comando da economia, o Plano Real foi implementado durante o seu mandato como Presidente da República (1995-2002)”, dizem as considerações finais do artigo Fernando Henrique Cardoso: Da Dependência ao Real, escrito por Rafael Moraes e Ivan Colangelo Salomão.
Como se pode acompanhar pela lista de ministros da Fazenda ou Economia analisados pelo livro, relacionada abaixo, a publicação se detém sobre todos os que exerceram o cargo sob os governos do PT, os dois primeiros de Luís Inácio Lula da Silva e os dois de Dilma Rousseff e ainda alcança o de Michel Temer, analisando a formação de todos e a implementação de suas políticas econômicas.

Além de ter sua passagem pelo Ministério da Fazenda analisada no capítulo “As múltiplas faces de um gestor, policy maker e intelectual”, Bresser Pereira escreveu o Prefácio do livro que faz, à certa altura, a seguinte rigorosa avaliação: “Superados os problemas da dívida externa e da inflação, era legítimo esperar que o Brasil retomasse o crescimento e alcançasse os níveis de renda dos países desenvolvidos, mas não foi o que aconteceu. Em 1990, o Brasil sob pressão do Norte Global e de suas elites econômicas atrasadas, abandonou o desenvolvimentismo e se entregou ao neoliberalismo. As consequências foram desastrosas. A quase-estagnação passou a caracterizar a economia brasileira na medida em que seu crescimento se tornou inferior ao dos demais países, tanto os ricos quanto os em desenvolvimento”.
*A lista completa dos ministros: Francisco Dornelles, Dilson Funaro, Luiz Carlos Bresser Pereira, Maílson da Nóbrega, Zélia Cardoso de Mello, Marcílio Marques Moreira, Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero, Ciro Gomes, Pedro Malan, Antônio Palocci Filho, Guido Mantega, Joaquim Levy, Nelson Barbosa, Henrique Campos Meirelles.
O livro Os Homens da Moeda está disponível para venda na Editora Unesp neste link ou na Amazon clicando aqui.
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