
A apropriação de terras do território brasileiro ainda caracteriza-se como um assunto sensível e latente no campo acadêmico e ambiental, principalmente ao relacionar-se às regiões rurais, centro de plantações e polos de proteção à biodiversidade. A apropriação desses territórios e a troca da vegetação original são uma prática comum e, infelizmente, representam grandes consequências para a natureza da região, situação exposta pela pesquisa de Mariana Lopes da Silva, doutoranda e autora da tese na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

A pesquisadora concentrou seus estudos na região de Três Lagoas, no leste do Mato Grosso do Sul, uma das maiores regiões produtoras de celulose, e ela ressalta que, por isso, a região tornou-se um grande monocultivo de celulose, ou seja, de eucaliptos. A prática é comum em regiões próximas a indústrias e, assim como dito por ela, os eucaliptos não podem ser considerados uma cobertura vegetal positiva, pois não apresentam biodiversidade, além de afetarem negativamente o ecossistema ao redor. “É muito difícil conseguirmos chamar de floresta, porque não tem biodiversidade, não tem uma série de fatores que a gente utiliza para chamar uma região de floresta”, explica Mariana.
Essa técnica, conjuntamente à apropriação da terra, está sendo majoritariamente realizada através de investimentos estrangeiros, segundo a tese de Mariana. “Estão sendo feito investimentos financeiros, fundos de pensão, principalmente de outros países, como formas de aplicarem o valor que eles têm em investimentos e estão trazendo esse capital aqui para o Brasil e comprando ou arrendando terras.”
A empresa Timber Investment Management Organization (TIMO) é a responsável por gerir essa compra e estabelecer um controle sobre o território comprado. De acordo com Mariana, os compradores não costumam ter conhecimento sobre a região adquirida, principalmente por serem estrangeiros. “A TIMO é uma empresa que vai fazer um meio de campo entre esses investidores, que na maior parte das vezes estão afastados do Brasil e do setor florestal (…) Os fundos, muitas vezes de pensão, vêm como capital e a TIMO vai investir esse capital. Elas vão comprar as terras e gerenciar aquela produção florestal.”
Ativos reais
De acordo com a pesquisadora, essas florestas “plantadas” de monocultivo são ativos reais, ou seja, bens físicos que podem ser convertidos em dinheiro e, acima de tudo, são seguros, o que atrai interessados e as fazem tornar-se instrumentos de especulação no mercado de carbono, por exemplo.
“Pelo fato de estarmos falando de árvores, de eucaliptos, elas também estão começando a entrar no mercado de venda de crédito de carbono. Então, além de ser um monocultivo, além de vermos a exploração das nossas terras por estrangeiros, a apropriação das nossas terras por fundos e por pessoas que nunca estiveram conectadas com as terras brasileiras, vemos a natureza sendo vista como uma estratégia de acumulação mesmo, de especulação.”
Os maiores prejudicados de todo o processo são os habitantes das regiões onde essas florestas estão estabelecidas, pois, assim como ressaltado por Mariana, há diversos relatos de nascentes de rios secando, consequência decorrente da necessidade intensa por água dos eucaliptos, além do aparecimento de animais em busca de alimento e valorização dos terrenos ao redor, o que diminui o acesso à terra pela população.
E, gravemente, Mariana adverte sobre a dificuldade em rastrear as empresas envolvidas e a origem do dinheiro investido. “É muito difícil a gente entender de onde vem o dinheiro. Qual é a primeira empresa que está mobilizando esse dinheiro, porque elas vão se dividindo e multiplicando. E eu imagino que seja como estratégia para dificultar mesmo a gente conseguir rastrear essas empresas e rastrear esse dinheiro. (…) A legislação brasileira limita a compra de terras por estrangeiros. Mas, através desses novos mecanismos, a gente está vendo novas frentes e oportunidades de compra de terras por estrangeiros.”
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