Por que e como podemos reorganizar a universidade para impactar políticas públicas

Por Marcos Buckeridge e Arlindo Philippi Jr., professores do Instituto de Estudos Avançados da USP

 Publicado: 06/05/2026 às 17:44
Marcos Buckeridge – Foto: Maria Leonor de Calasans/IEA
Arlindo Philippi Jr. – Foto: Arquivo pessoal
Há um desconforto crescente no modo como produzimos e utilizamos conhecimento. Nunca tivemos tanta informação, tantos especialistas, tantos dados — e, ainda assim, enfrentamos uma sensação persistente de inadequação diante dos grandes problemas contemporâneos. Mudanças climáticas, desigualdade urbana, crises ambientais e sociais não apenas persistem, mas frequentemente se intensificam. Isso não ocorre por falta de conhecimento, mas, paradoxalmente, apesar disso.

Esse paradoxo sugere que o problema não está no volume de conhecimento produzido, mas na forma como ele é organizado e mobilizado. Ao longo do século 20, a especialização foi a principal estratégia para avançar na ciência. Funcionou extraordinariamente bem. No entanto, ao fragmentar o conhecimento em disciplinas cada vez mais específicas, perdemos algo que agora se torna evidente: a capacidade de recompor o todo.

Problemas reais não respeitam fronteiras disciplinares. Eles se apresentam como sistemas complexos, em que causas e efeitos se entrelaçam. Ainda assim, insistimos em abordá-los com ferramentas concebidas para operar em contextos mais simples. O resultado é um padrão recorrente: soluções tecnicamente corretas, mas estruturalmente insuficientes.

Essa limitação torna-se ainda mais evidente ao se observar a relação entre a universidade e as políticas públicas. A expectativa de que a ciência oriente decisões coletivas é legítima, mas frequentemente frustrada. A dificuldade não está apenas na tradução do conhecimento, mas também na própria estrutura de produção desse conhecimento, que raramente é orientada por problemas concretos.

Foi nesse contexto que uma experiência específica revelou algo importante. Durante o processo eleitoral de 2020, a elaboração do Guia para Cidades Sustentáveis, no Instituto de Estudos Avançados da USP, buscou oferecer subsídios qualificados a gestores públicos. A proposta era, em princípio, simples: organizar o conhecimento disponível sobre temas urbanos de forma útil à tomada de decisão.

No entanto, o que parecia uma tarefa de síntese revelou-se algo mais profundo. Ao tentar estruturar o guia, tornou-se evidente que o problema não era apenas reunir informações, mas também organizá-las de forma coerente. As cidades não são compostas de setores isolados — água, energia, mobilidade, saúde — mas de sistemas interdependentes. Qualquer tentativa de tratar esses temas de forma separada inevitavelmente produzia lacunas.

O esforço de integração levou a uma mudança de perspectiva. Em vez de partir das disciplinas, passou-se a partir dos problemas. Essa inversão, aparentemente simples, tem implicações profundas. Ela exige que o conhecimento seja reorganizado não pelo que sabemos, mas pelo que precisamos compreender para agir.

Ao mesmo tempo, outra dimensão emergiu com clareza. Não bastava que as propostas fossem tecnicamente consistentes. Era necessário que dialogassem com o que as pessoas consideram desejável. Políticas públicas não se sustentam apenas pela racionalidade técnica; dependem da aderência social. Essa aderência não se reduz à opinião momentânea, mas envolve valores, expectativas e visões de futuro — o que podemos chamar de aspirações.

Nesse ponto, torna-se evidente que a formulação de políticas públicas eficazes depende de uma articulação delicada entre três dimensões: o conhecimento científico, as aspirações da sociedade e a ação política. A ausência de qualquer uma delas compromete o conjunto. Conhecimento sem aderência social não se implementa; aspirações sem base científica produzem instabilidade; ação política, sem ambos, tende a ser errática.

O Guia para Cidades Sustentáveis funcionou, assim, como um experimento. Foi possível desenvolver um método inovador para reunir especialistas para trabalhar de forma interdisciplinar usando temas e não disciplinas. Não apenas pelo conteúdo que produziu, mas também pelo processo que revelou. Ele mostrou que é possível integrar conhecimentos, mas também expôs as dificuldades dessa integração. A coordenação entre áreas, a tradução para uma linguagem acessível e a adaptação às condições reais de decisão política mostraram-se desafios não triviais.

Mais importante ainda, revelou um limite das iniciativas pontuais. Mesmo quando bem-sucedidas, elas não se sustentam no tempo sem uma estrutura que as sustente. A produção de conhecimento orientado por problemas não pode depender de esforços episódicos; ela exige um arranjo institucional capaz de operar de forma contínua.

É nesse ponto que surge a ideia da universidade trabalhar com o conceito de eixos temáticos. Não como uma extensão direta do guia, mas como uma resposta à pergunta que ele deixou em aberto: como transformar uma experiência bem-sucedida em um modo de operação permanente?

Este conceito de eixos temáticos propõe uma reorganização do conhecimento universitário a partir de grandes temas estruturantes, definidos pela complexidade dos problemas que representam. Em complemento aos departamentos e às disciplinas, o foco passa a ser o problema em si. Essa mudança desloca o centro de gravidade da universidade: do saber acumulado ao saber em ação.

Essa reorganização não implica abandonar as disciplinas. Pelo contrário, depende delas. Mas altera a forma como elas se conectam. A integração deixa de ser um esforço individual e passa a ser uma propriedade do sistema. O conhecimento permanece especializado, mas sua articulação torna-se estruturada.

Ao mesmo tempo, a estruturação dos problemas em eixos temáticos incorpora explicitamente as dimensões de aspirações e de política. Eles não se limitam à produção de conhecimento, mas buscam estabelecer pontes com a sociedade e com os processos decisórios. Funcionam, assim, como interfaces, mais do que como estruturas.

Essa característica é central. Um dos problemas recorrentes das universidades é a dificuldade de tornar visível seu impacto. Produz-se conhecimento de alta qualidade, mas sua aplicação é difusa. Ao organizar esse conhecimento em torno de temas e conectá-lo a demandas concretas, o conceito de eixos temáticos torna essa relação mais explícita.

No entanto, essa proposta não elimina as tensões existentes. A universidade continua sendo um sistema complexo, com múltiplos interesses, tempos e lógicas de funcionamento. A introdução de estruturas transversais desafia práticas estabelecidas e exige novas formas de governança. Além disso, há barreiras culturais associadas à valorização da especialização e à competição por recursos.

Esses desafios são reais, mas não são argumentos contra a mudança. São, na verdade, parte do processo. A reorganização do conhecimento não ocorre sem fricção. Ela exige experimentação, ajustes e, sobretudo, disposição para rever pressupostos.

Talvez o ponto mais importante seja reconhecer que a questão central não é institucional, e sim epistemológica. Estamos diante de um problema que não pode ser resolvido apenas com mais conhecimento, mas sim com uma forma diferente de organizá-lo. A integração deixa de ser uma opção e passa a ser uma condição.

Nesse sentido, a adoção do conceito de eixos temáticos pode ser compreendida como um passo rumo a uma necessária abordagem mais ampla. Eles não representam uma solução definitiva, mas sim um movimento de adaptação a um mundo em que a complexidade se tornou a regra, e não a exceção.

Se esse movimento será suficiente, ainda não sabemos. Mas uma coisa parece clara: se continuarmos fazendo o que fazemos da mesma forma, dificilmente obteremos resultados diferentes. O desafio não é apenas produzir conhecimento, mas também aprender a organizá-lo de modo que possa, de fato, transformar a realidade.

E esse talvez seja o papel adicional da universidade no século 21.

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