Na Rádio USP, Luiz Tatit investiga a canção e a própria carreira

Em quatro episódios do programa “Sonoridade das Palavras”, o compositor e professor da USP vai falar sobre sua trajetória e suas pesquisas na área da linguagem musical

 Publicado: 30/04/2026 às 16:44
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O professor da USP, compositor, músico, letrista e cantor Luiz Tatit – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, cantor, músico, letrista e compositor, Luiz Tatit é o convidado da terceira temporada de Sonoridade das Palavras. O programa da Rádio USP produzido e apresentado pela jornalista Magaly Prado transmite no mês de maio quatro episódios contando sua trajetória e tratando de suas pesquisas acadêmicas sobre a canção brasileira. Eles vão ao ar sempre às terças-feiras (dias 5, 12, 19 e 26), às 17 horas, com reapresentação aos domingos (dias 10, 17, 24 e 31), às 18 horas. A Rádio USP (93,7 MHz, em São Paulo, e 107,9 MHz, em Ribeirão Preto) pode ser ouvida pela internet (neste link).

Nascido em São Paulo em 1951, Tatit tirou as primeiras notas no violão aos 12 anos. Entrou no curso de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em 1971. Dois anos depois, começou a estudar também na FFLCH, onde se formou em Linguística. Foi durante esse período de graduações que fundou o grupo Rumo, em 1974, ao lado de colegas de diferentes unidades da USP, incluindo a ECA e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU).

Referência da vanguarda paulista, o Rumo reuniu entre seus integrantes nomes como seu irmão Paulo Tatit, Hélio Ziskind, Gal Oppido e, posteriormente, Ná Ozzetti. O interesse do grupo estava em buscar formas inovadoras na composição e nos arranjos, priorizando uma instrumentação que valorizasse a linha principal do canto, com destaque para a fala corriqueira. Além das atividades com o Rumo, a carreira musical de Tatit também inclui trabalhos solos e parcerias com nomes como José Miguel Wisnik e Arrigo Barnabé.

“Queríamos evitar fazer músicas que eram feitas na época. Aquilo que a gente até gostava, mas não queria repetir o formato”, lembra Tatit a respeito das origens do Rumo. Buscavam, como norte, influências da vanguarda na música erudita, a música dodecafônica e a música atonal. “A gente queria saber qual seria a característica da canção que, se a gente mexesse, faria a mesma transformação que houve na música erudita. Só que na canção, mexendo com a relação melodia e letra. E foi assim que a gente chegou na questão da entonação, da fala. Aí caracterizou o Rumo como projeto.”

Como professor e pesquisador, sua trajetória é marcada pela busca da linguagem da canção, entendida como algo que não é nem música e nem literatura. Trata-se, para Tatit, de algo com características próprias, que resulta da integração entre letra e melodia. Apoiando-se na semiótica, suas investigações fazem da canção objeto de estudo científico, sendo Tatit autor de uma série de trabalhos sobre a relação entre fala, melodia e sentido na canção brasileira. “Eu queria lidar com isso e comecei a pensar: já que a questão é a linguagem musical, deve ter uma linguagem da canção”, conta Tatit, na entrevista no programa Sonoridade das Palavras. “É aí que comecei a montar uma hipótese de que existiria uma linguagem de canção que tem a ver com a música, assim como tem a ver com a literatura, mas não é nenhuma das duas. Canção, desde então, nunca foi nem música nem literatura.”

Para Tatit, fazer a letra para uma música, para uma melodia, ou vice-versa, cria uma outra linguagem. “A poesia deixava de ser poesia e passava a ser letra. O que é letra? É algo adequado à melodia. E a melodia? É algo adequado àquela letra. Deve haver uma interrelação, e daí deve surgir a linguagem da canção”, explica o professor. “Você pensa numa letra e já está com a melodia no ouvido. Se a pessoa cantarola alguma coisa, você já sabe qual é a letra. O que é essa integração absoluta que a gente vê nas canções? Daí me surgiu uma hipótese para tentar demonstrar quais são os elementos que fazem essa compatibilidade.”

A canção como objeto de estudo científico

Ao longo dos quatro episódios do programa, Tatit vai conversar com Magaly Prado a respeito de sua formação musical e acadêmica, a criação do grupo Rumo, a vanguarda paulista, sua carreira solo e as parcerias. Discute também o desenvolvimento do método semiótico para pensar a canção. Músicas que marcaram a infância, vivências na USP e seus estudos sobre fala, melodia e sentido são discutidos em meio a uma série de referências musicais que embalam o programa.

“A série Sonoridade das Palavras com Luiz Tatit equilibra perfeitamente a importância acadêmica do autor com a leveza de sua música”, comenta Magaly. Para a jornalista, o grande destaque é poder observar como Tatit transforma a canção em um objeto de estudo científico, sem tirar dela a poesia. “Tatit analisa o sentimento com uma sobriedade quase cômica, transformando conceitos teóricos duros da semiótica em algo palpável e audível”, explica Magaly. Segundo a jornalista, foi justamente dessa investigação que surgiu o interesse do programa. “Entender que a música brasileira não é apenas melodia e letra separadas, mas sim o encontro exato entre a nossa dicção e a flexão melódica.”

Como indica na entrevista, Tatit considera que fazer canção no Brasil é uma espécie de privilégio. Isso porque no País a canção carrega uma importância que não se vê em outras partes do mundo. “Desde o começo do século 20, a canção foi nossa grande arte, nós aprendemos a fazer isso de uma forma muito específica e muito forte”, comenta em entrevista ao Jornal da USP. De acordo com Tatit, em outros países existem diferentes frentes de linguagem com grande repercussão e a música popular não desfruta do mesmo prestígio que aqui. Por isso, o rendimento do trabalho no Brasil acaba ganhando mais visibilidade. Mesmo nos Estados Unidos, outro país com uma forte música popular, a canção e o instrumental – como o jazz, por exemplo – dividem um reconhecimento que no Brasil é muito mais da primeira. “A questão da canção é uma coisa muito brasileira”, afirma.

O programa Sonoridade das Palavras, com Luiz Tatit, vai ao ar às terças-feiras deste mês (dias 5, 12, 19 e 26), sempre às 17 horas, com reapresentação nos domingos (dias 10, 17, 24 e 31), às 18 horas. A produção, o roteiro e a apresentação são de Magaly Prado, e a captação de som e edição são de Julio Cesar Bazanini. Após as exibições, cada episódio estará também disponível em formato de podcast na área de podcasts do Jornal da USP


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