Extensão leva antropologia e cinema da USP para diferentes regiões de São Paulo

Cinedebates em territórios diversos aproximaram a reflexão antropológica da vida social e reforçaram a colaboração entre Universidade e comunidade

 16/01/2026 - Publicado há 3 meses     Atualizado: 22/01/2026 às 10:21

Texto: Carlos Eduardo Conceição*

Arte: Daniela Gonçalves**

Pessoas assistem, em pé, a um filme que está sendo exibido em uma pequena área coberta por telhas de fibrocimento. A área coberta parece fazer parte de um quintal ou jardim. Ao fundo, há árvores altas e um poste de iluminação pública. Os fios da rede de transmissão elétrica estão cobertos por líquens e cipós.

Filmes foram exibidos em escolas, ocupações culturais e espaços comunitários – Foto: Lisa-USP

Como articular teoria, prática e compromisso público no ensino de antropologia? Na disciplina Práticas de Extensão em Antropologia das Formas Expressivas e Regimes de Conhecimento, ministrada no segundo semestre de 2025 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pela professora Rose Satiko Gitirana Hikiji, isso se deu por meio de cinedebates. As atividades foram realizadas em escolas, instituições culturais, coletivos artísticos, espaços comunitários e territórios periféricos da capital e região metropolitana de São Paulo, aproximando Universidade e sociedade por meio do cinema, da escuta, do fazer antropológico e da produção colaborativa de saberes.

Com base no acervo e na metodologia audiovisual do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), sediado na FFLCH, estudantes planejaram e realizaram, ao longo do semestre, atividades de extensão que envolveram debates, exibição de filmes etnográficos, encontros com realizadores e elaboração de materiais didáticos.

Mais do que exibir as obras, os estudantes se engajaram em processos de mediação cultural, aprendendo a construir pontes entre as pesquisas acadêmicas e os diversos públicos que encontram. Para cada atividade, os estudantes se envolveram em todas as etapas: contato com parceiros locais, escolha de filmes, criação de materiais de divulgação, mediação dos debates e posterior análise qualitativa e quantitativa das conversas realizadas.

“É muito interessante essa proposta de promover debate, e levar um pouco dos materiais que estão aqui no Lisa para a comunidade externa. Mas também é muito interessante para a gente ter um pouco mais de contato com o material que a própria Universidade produz, ano após ano”, resume o estudante Bruno Nunes Mendanha.

Cinema na batalha de MCs

Foram realizados mais de 15 cinedebates fora dos muros da Universidade, ampliando a circulação da produção antropológica. Os encontros aconteceram em diferentes regiões da capital paulista e até em Poá, na região metropolitana. Alcançaram públicos diversos, muitas vezes distantes do ambiente universitário e pouco familiarizados com o cinema etnográfico. As exibições foram acolhidas por espaços onde o diálogo entre imagem, música, memória e política se mostrou especialmente fértil.

Mapa de parte da Região Metropolitana de São Paulo indica locais onde atividades foram realizadas. Os locais com ícones azuis são espaços educacionais, aqueles com ícones marrons são espaços artísticos, os verdes são locais de comércio e lazer e os roxos, ONGs ou instituições de acolhimento. Os ícones estão distribuídos por diversas regiões do mapa, como Osasco, Butantã, Capão Redondo, Santo Amaro, Interlagos, Lapa, Vila Mariana, São Miguel Paulista e Poá. Há uma concentração maior de ícones sobre o centro de São Paulo.

Clique para acessar o Mapa dos Cinedebates e veja até onde a disciplina chegou – Foto: Lisa-USP

Filmes como São Palco – Cidade AfropolitanaAdó – Mestre dos SonsCinema de QuebradaFabrik FunkEm Noite de SerestaDois Irmãos e diversas outras produções contemporâneas compõem o núcleo das obras exibidas e discutidas pelos estudantes.

Um destaque da programação de atividades de extensão foi o cinedebate realizado na batalha de rap da comunidade São Remo, vizinha à Cidade Universitária da USP no Butantã, zona oeste de São Paulo. Para esse evento, os estudantes levaram a exibição do filme Fabrik Funk para o espaço da rua, em meio à dinâmica da batalha de MCs. O público discutiu as dificuldades do artista independente, as relações de gênero no funk e a perseguição institucional à cultura funk, reforçando o caráter aberto, participativo e territorial da ação.

Outro momento marcante aconteceu na exibição do filme Em noite de seresta no Cedesc (Centro Educacional Desportivo Social e Cultural do Parque Fernanda), uma instituição que atende a população de terceira idade na zona sul de São Paulo. “Foi perceptível como a memória, para aquelas pessoas, ocupava um papel importante de se reafirmar em diferentes âmbitos. Todas as falas permeavam a memória, e surgiram debates sobre o bairro e como aconteciam as manifestações musicais, de forma muito próxima com a seresta”, relata a estudante Yasmin Dias.

Foto: Lisa-USP

Filmes chegaram a lugares inéditos

“O objetivo do curso foi experimentar as possibilidades de realizar atividades de extensão universitária com as produções audiovisuais de pesquisas realizadas junto ao Lisa”, diz Rose Satiko, que é coordenadora do laboratório. O Lisa funciona como centro de pesquisa, formação e experimentação audiovisual. Sua produção audiovisual resulta de pesquisas realizadas por antropólogos em diferentes níveis da carreira, de alunos de iniciação científica a pós-doutorandos e professores, em contextos e com populações muito diversas, que vão de comunidades indígenas a habitantes das metrópoles em suas mais diversas atividades.

Além dos cinedebates, uma das contribuições desta edição da disciplina de Práticas de Extensão em Antropologia foi a disponibilização do catálogo audiovisual do Lisa na plataforma Sommos Amazônia, iniciativa proposta por uma das estudantes, ampliando o alcance público dos filmes. O acervo do laboratório é um dos mais amplos da área, reunindo 1.970 filmes, principalmente documentários, além de mais de 24 mil imagens e registros sonoros (fitas cassete, discos, CDs e arquivos digitais).

“Os resultados alcançados pelas turmas do curso foram muito inspiradores. Nossos filmes foram levados a lugares inéditos, os alunos tiveram contato com os realizadores e com as comunidades nas quais os filmes foram exibidos, prepararam materiais de apoio às exibições, fizeram materiais de divulgação e puderam trocar ideias e experiências com os espectadores, que alcançaram não apenas sobre os filmes, mas sobre a própria Universidade”, completa a professora.

Retrato de mulher com traços orientais e cabelos castanhos, vestindo camiseta cinza. O fundo é liso e claro, sem objetos.

 Rose Satiko Gitirana Hikiji – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Grupo grande de jovens posa para uma foto em uma sala com cadeiras dispostas de frente para um telão. No telão, está projetado um logotipo com o nome "Cinema de Quebrada".

Foto: Lisa-USP

A importância da extensão universitária

A disciplina reforça que a extensão não é um complemento da formação universitária: ela é parte constitutiva do próprio processo de aprendizagem. Ao realizar as atividades, os estudantes vivenciam a integração entre ensino, pesquisa e extensão, desenvolvem habilidades de mediação, comunicação e escuta, e estabelecem diálogos que extrapolam os limites institucionais.

As ações seguiram os princípios que norteiam a extensão universitária, os chamados “5 Is” definidos pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (FORPROEX): interação dialógica, interdisciplinaridade, indissociabilidade ensino–pesquisa–extensão, impacto formativo e impacto e transformação social.

Os cinedebates transformaram a própria formação dos estudantes, que aprenderam a dialogar com diferentes públicos e a situar seu conhecimento em realidades plurais. A disciplina reafirmou, também, a potência da antropologia visual na construção de pontes entre mundos, fazendo da Universidade um espaço que se abre, escuta e se transforma junto da sociedade.

“Depois da apresentação, a gente continua conversando sobre os reflexos e as dimensões dessa atividade. Convoca a gente para pensar como transitar pelo conhecimento formal acadêmico e pelo conhecimento que não é formal acadêmico; o que a gente pode trocar, e oferecer, para a sociedade”, aponta a estudante Suzana Bertolaccini.

Para registrar os resultados da disciplina, o Instagram do Lisa (@lisausp_) veiculará pequenos vídeos dos alunos relatando sua experiência durante a produção dessas atividades.

*Bolsista de Divulgação Científica do Lisa. Com edição de Silvana Salles, do Jornal da USP

**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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