

Uma pista importante está na própria história da palavra. Embora a origem remota esteja no latim vulgar vivanda, “aquilo que serve para viver”, o termo evoluiu no francês antigo para viande, com o sentido geral de “comida”. A partir daí – ou paralelamente, por via direta do latim – chegou ao espanhol como vianda, significando alimento preparado. Tal palavra é usual também no espanhol falado na Argentina, Chile e Uruguai, segundo o Diccionario de hispanoamericanismos, coordenado por Renaud Richard – isso pode ser checado pelo curioso leitor que quiser procurar o vocábulo usando o buscador de periódicos como La Nación ou La Tercera. É bastante provável, inclusive, que tenha sido por meio do espanhol – e não do português padrão – que o termo entrou e se enraizou no vocabulário gaúcho. Afinal, o Rio Grande do Sul tem uma longa história de contato com línguas e culturas hispânicas da fronteira, especialmente com a presença platina e missioneira. Assim, “vianda” tornou-se, ao sul do País, uma palavra viva, prática e cheia de sabor local.
Do latim à marmita
No cotidiano gaúcho, “vianda” não é apenas uma palavra que resiste – é um termo ativo, incorporado ao dia a dia de quem prepara, leva e consome comida feita em casa. Refere-se à refeição completa, com sustança: arroz, feijão, carne, farofa, salada, ovo – o que couber na marmita. Não tem afetação nem verniz gourmet. Ao contrário: é palavra direta, popular, útil.
Esse uso está tão sedimentado que aparece até em recados de restaurante. Em uma visita a Gramado, um destes articulistas encontrou a seguinte mensagem colada à parede: “Viandas apenas com carne serão cobradas à parte”. A frase é simples, mas diz muito. Ali, “vianda” já não nomeava apenas o conteúdo alimentar, mas também o recipiente – a marmita – por um processo de metonímia, bastante comum nas línguas naturais, em que o conteúdo passa a ser representado pelo continente. Isso ajuda a entender a vitalidade do termo: se antes vianda era só o que se comia, agora é também – talvez, principalmente – o modo de transportar o alimento, o gesto de levar, de conservar, de cuidar da própria refeição. E naquele contexto específico, a distinção era clara: uma marmita contendo apenas carne, alimento de preço mais elevado, seria mais cara.
Esse tipo de transformação – quando uma palavra se desloca de um significado para outro sem perder sua base cultural – é um dos modos mais sutis e eficientes de uma língua seguir respirando.
Palavra que sustenta
Não deixa de ser simbólico que “vianda” venha, ainda que de longe, de vivĕre – o verbo latino para “viver”. É uma palavra que, desde a origem, está associada ao essencial – ao ato de manter-se vivo. E, ainda hoje, guarda esse núcleo de sentido. Quando alguém diz que vai levar a vianda, está dizendo que carrega o que lhe mantém em pé. Que prepara, com as próprias mãos ou com o cuidado de alguém próximo, o alimento que lhe acompanhará no meio do caminho. É linguagem do cotidiano, mas também linguagem da resistência.
Porque, no fim das contas, palavras como “vianda” nos lembram de que viver é verbo que se conjuga com boca cheia e panela no fogo. Que há cultura no tempero, memória na marmita, história na fala. E que, entre o latim e o feijão com arroz, a língua encontra jeitos deliciosos de seguir se dizendo.
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