“Transar”: verbo transitivo

Por Henrique Braga, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP

 17/10/2025 - Publicado há 5 meses

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Henrique Braga – Foto: Arquivo pessoal
Marcelo Módolo – Foto: Arquivo pessoal
Eu não transo violência.” Com essa frase, o personagem César (Cauã Reymond), no badalado remake de Vale tudo, não se referia a suas preferências íntimas, nem a suas fantasias mais recônditas. Na regravação do sucesso televisivo oitentista, a roteirista optou pela manutenção de algumas frases que marcaram a exibição original da novela, o que, nesse caso, implicou resgatar uma variante linguística em desuso, mas comum naquele já distante ano de 1988.

Sobre tal uso, já houvéramos sido advertidos por um atento professor de Literatura (obrigado, Maurício Soares!), que, em suas horas vagas, diverte-se vendo folhetins antigos no Canal Viva (atual Globoplay Novelas). Esse hobby fizera nosso amigo se deparar com uma abundante ocorrência do verbo “transar”, a qual lhe chamou a atenção por causa, sobretudo, de o termo ser empregado com sentido distinto do que hoje é usual: “eu transo música americana”, “eu não transo droga” e enunciados semelhantes eram comuns à época. “Transar”, como se vê, era usado corriqueiramente como verbo transitivo.

A polissemia de “transa”

Em sua anotação etimológica, o Dicionário Houaiss registra que o substantivo “transa” está na origem da forma verbal “transar”. Em sua primeira acepção, o verbo corresponde a “negociar ou fazer operação comercial (com); transacionar”. Esse uso primeiro levou, por expansão semântica, a outros significados, todos registrados como informais pelo dicionarista. Em “Carlos transou um bom emprego”, por exemplo, o verbo é sinônimo de “conseguir”; já em “ela não transa filmes de terror”, o sentido passa a ser o de “gostar”, “deleitar-se”.

Em ambos os exemplos, extraídos do Houaiss, “transar” comporta-se como transitivo direto, ou seja, como um verbo que projeta um complemento não preposicionado. Segundo o mesmo dicionário, “transar” é usado como intransitivo apenas em uma das acepções, também apontada como informal: “fazer sexo”.

“Fuma, bebe e joga”

Compreender os motivos para a mudança na predicação e no significado de “transar” requer um estudo mais minucioso. Como primeira hipótese, porém, consideramos que o apagamento do objeto direto possa ter começado a ocorrer como um recurso voltado à polidez.

O fenômeno tem precedente em língua portuguesa: há casos nos quais, para evitar que um enunciado soe grosseiro, o enunciador deixa implícitas certas informações que, se verbalizadas, poderiam ofender interlocutores mais pudicos. É o que estudiosos da análise da conversação chamam de preservação da face, fenômeno que se observa, por exemplo, no uso do verbo “beber”, que passou a ocorrer de forma intransitiva com o sentido implícito de “beber algo alcoólico”. Acontece fenômeno semelhante com o verbo “cheirar”, que, usado como intransitivo, remete ao socialmente condenável consumo de cocaína. Já tratamos brevemente desse tema no trabalho intitulado A construção de propagandas com verbos transitivos sem complementos, em que resenhamos o estudo de Lucilene Hotz Bronzato, orientado por Margarida Salomão (Universidade Federal de Juiz de Fora) sobre casos de destransitivização – fenômeno segundo o qual verbos tradicionalmente transitivos passam a ocorrer sem objeto direto, adquirindo novos efeitos de sentido e maior naturalidade discursiva.

É possível que, com base na acepção de “gostar, deleitar-se”, o verbo “transar” tenha dado origem à acepção sexual do termo. Inicialmente, segundo essa hipótese, “João transa Maria” (no sentido de “João gosta de Maria”) pode ter sido um primeiro passo para algo mais sério ocorrer entre eles (desde que, claro, Maria também transasse João). O gosto pela precisão, contudo, pode ter motivado que tal complemento reaparecesse depois, preposicionado, indicando uma ação colaborativa – daí a estrutura em que uma pessoa transa com outra, em que o verbo se torna transitivo indireto.

Transar variação e mudança

A comprovação da hipótese sugerida depende de uma investigação mais ampla, com mais registros de usos do verbo “transar” – como é próprio do fazer científico. As próprias novelas disponíveis no repositório da Globoplay (como sugere nosso amigo literato que observou o fenômeno) podem ser um bom corpus de análise, para verificar como, de fins dos anos 80 para cá, houve variação e mudança na acepção desse vocábulo. Para quem transa questões de linguagem, a missão instiga mais do que descobrir quem matou Odete Roitman.

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