Passeios em São Paulo

Por Fernando Viotti, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 06/03/2026 - Publicado há 2 meses
Fernando Viotti – Arquivo pessoal

 

Para o Juca Kfouri

Em Reflexões sobre o exílio, Edward Said nos fala das vantagens do “olhar estrangeiro” para captar no espaço de uma cidade aquelas idiossincrasias que os locais já assimilaram e que por isso passam despercebidas. Adepto da ideia, acordei no último domingo determinado a cumprir mais uma etapa das minhas peregrinações por São Paulo; é verdade que não sou um estrangeiro no Brasil, mas como um brasileiro morador da cidade que, no entanto, chegou aqui há apenas três anos, acho que ainda dá para captar, antes que seja tarde, aquilo que o paulistano nato já naturalizou.

Quando disse a uma amiga que estava indo ao estádio do Juventus na Rua Javari ela se escandalizou, dizendo que a Mooca era “praticamente fora de São Paulo”. A despeito das dimensões mastodônticas da cidade, são em geral os paulistanos, sobretudo os paulistanos mesmo, de nascença e convicção, que aqui nasceram e sempre moraram (e deveriam, portanto, ter se acostumado aos longos deslocamentos), que soltam um “lá é muito looonge” quando conto estar indo a lugares como Santana, Belenzinho ou Jardim da Saúde.

Cheguei 20 minutos antes do início de Juventus versus XV de Novembro de Piracicaba ao lendário estádio onde, de acordo com as criteriosas bases de dados do folclore futebolístico, o Rei Pelé teria anotado o gol mais bonito de sua carreira, do qual, evidentemente, inexistem registros fotográficos ou audiovisuais (a não ser os criados artificialmente, modalidade que não conta no universo deste relato; nosso negócio aqui é celebrar o passado). Uma carência de provas, aliás, irrelevante diante dos relatos de aficionados e especialistas que afirmam haver testemunhado o mitológico tento, em número suficiente para lotar não o Rodolfo Crespi, mas o Maracanã, antes da reforma pré-copa.

A fila era grande, mas qual não foi a minha alegria ao ver pregadas na parede do guichê duas folhas A4 onde se lia com clareza o “preço da cadeira coberta: R$ 90,00 inteira – R$ 45,00 meia” e “preço da arquibancada: R$ 60,00 inteira – R$ 30,00 meia”. Abaixo dos avisos, a tradicional janelinha de 40 x 30 cm, gradeada na cor grená, por onde deslizou o meu ingresso lindamente impresso, junto com o troco para a nota de R$ 100,00. Nada de setor A, J, Y, Z, vip, vip-plus ou immersive experience. Nada de logar no aplicativo, aumentar o brilho de tela do telefone ou pelejar para ler o QR Code. Impossível maior simplicidade, objetividade e elegância.

Uma vez no estádio, fui me inteirando das conquistas que fazem a glória do clube ítalo-brasileiro, “campeão da taça de prata de 1983”, “campeão da série A2 do paulista em 2005”, “acesso à série A do campeonato brasileiro de 1997”. Para não falar no título informal de melhor canoles do Brasil, vendido aos milhares em cada partida do Moleque Travesso.

O certame começa tenso. Ocupando a nona posição na tabela do A2, o esquadrão grená precisa vencer este que é um dos maiores clássicos mundiais do futebol raiz, para se garantir entre os oito melhores do campeonato e continuar almejando um lugar na elite do futebol paulista no ano que vem. Tanto o Juventus quanto o XV passam o primeiro tempo em brancas nuvens, levando pouco perigo à meta adversária. O melhor lance acontece quando o camisa 7 avança pela intermediária esquerda até próximo à grande área, onde toma um calor do beque piracicabano e acaba estendido no desagradável, mas muito bem cuidado piso sintético. Um revoltado torcedor ao meu lado dispara: “Chama o Var”! De dentro de uma pequeníssima janela na cabine lateral, Vardinei, o operador do placar, vaticina convicto: “Não foi nada, tropeçou na grama!”.

No segundo tempo o Juventus parece voltar renovado. O delicioso aroma de canoles toma a arquibancada e, atrás de cada trave, as organizadas “Moleque Travesso” e “Paixão Grená” empurram o time com entusiasmo, a despeito da fanfarra que teima em legitimar o epíteto “túmulo do samba”, tão injusto para com a cidade de São Paulo.

Logo aos 5 minutos da segunda etapa a torcida teria motivos para louvar uma das 17 regras do futebol, já que após falta do zagueirão do XV, um tiro direto livre de Marcelo alcançaria o gol. Explosão na arquibancanda juventina! Vardinei mal tem tempo para encaixar a placa com o número 1 e a catarse se repete, quando uma nova falta, dessa vez do lado direito, resulta em cobrança indefensável de Elkin Muñoz, levando profundo desânimo ao visitante e fazendo a tristeza do vice-presidente Geraldo Alckmin. O que seria do futebol sem a bola parada?

A partir daí a dupla de zaga do Juventus, orgulhosamente envergando os números 32 e 33, garantiria a manutenção da vantagem. Digo a você, leitor, não queira ser pego em contravenção penal pelos beques do Juventus. Nem Mbapppé nem Salah ousariam qualquer gracinha na frente daqueles dois. Olho neles, Ancelotti!

Por volta dos 30 minutos da etapa complementar entram em campo dois craques. O primeiro, o camisa 10, Edinho, que após um drible infernal no marcador piracicabano ainda no campo de defesa, avançaria pela esquerda dando uma bela assistência que quase resultou em gol. O segundo, que sacramentaria a vitória maiúscula com uma bomba de canhota nos minutos finais da partida, e atende pela alcunha de… Romário!

Ao final, saíram felizes da vida para as ruas da Mooca a maioria dos 3.659 pagantes, que garantiram uma renda de mais de 117 mil reais, para não falar nas vendas de camisas, bandeiras, chapéus grená e, sobretudo, canoles, cujas unidades comercializadas certamente passaram da casa do milhar. Dada a extensão da fila, acabei ficando sem o meu, além de não ter realizado o desejo de cumprimentar o professor Pasquale Cipro Neto, um dos mais ilustres e assíduos frequentadores da Rua Javari. Não tem problema. Dois motivos a mais para voltar a esse estádio, onde assistir a um jogo de futebol ainda é abrir uma janela para o sonho e a brincadeira, num desafio modesto mas autêntico contra a tecnocracia contemporânea e a ditadura da vida administrada.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.