O jogo da memória

Por Alecsandra Matias de Oliveira, doutora em Artes Visuais pela ECA/USP e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)

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Alecsandra M. de Oliveira – Foto: Arquivo pessoal
Rosana Paulino (São Paulo, 1967) opta por tratar de temas sensíveis, tais como, questões sociais, de gênero e raciais, jogando com diversas imagens e diferentes técnicas – das mais simples (vindas do mundo doméstico) às mais sofisticadas (que exigem tecnologia e experimentação). Como expor as cicatrizes da escravidão, por exemplo, de modo delicado e poético? Há muitas soluções, porém a artista escolhe o caminho dos afetos, memórias e histórias que emergem da bricolagem.

Ao empregar o desenho, a gravura, a tecelagem e a fotografia, coloca o passado colonial e, acima de tudo, a escravidão, no debate de nossos dias, porém, sem aparente agressividade, valorizando o lúdico. A cada trabalho existe uma brincadeira de cortar e colar – assim como se fossem memórias fragmentadas e remontadas que despertam a sensibilidade e dão novos sentidos às suas obras. Essas imagens trazem a “fotografia antropológica”, o registro da fauna e da flora da “nova terra”, suturas grosseiras e colagens desconcertantes – todos esses elementos juntos narram memórias silenciadas pela história oficial. De modo especial, evocam-se duas obras plenas de joguetes: Atlântico vermelho e ¿História natural?

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Uma das imagens da série Atlântico vermelho, de 2016, com impressão sobre tecido, linóleo e costura

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Atlântico vermelho presta referência à obra de Paul Gilroy, Atlântico negro: modernidade e consciência dupla (Harvard University Press, 1993). No livro, Gilroy aborda uma cultura negra do Atlântico com raízes africanas, americanas, britânicas e caribenhas. O trabalho de Rosana está para além da assimilação cultural; ele converge para uma das metáforas mais sensíveis aos afrodescendentes: a travessia (a diáspora). Mar e caravelas assinalam esse imaginário, contudo, a viagem de navio tumbeiro pelo desconhecido marca definitivamente a privação dos escravizados. O Atlântico dela é vermelho, tingido pelo sangue que jorra entre África e Brasil. Os escritos são rubros, assim como as marcas sobre os lindos azulejos portugueses. Por três séculos, a captura e a venda de homens e mulheres os destituíram de humanidade, lançando-os à condição de “coisas naturais”.

Na composição das imagens, esses homens e mulheres surgem sem rosto, com os olhos encobertos ou ainda sobrepostos por ícones que transitam entre o lembrar e o esquecer o que há de humano. Compartilham a superfície do trabalho com flores e animais exóticos, coloridos e exuberantes, quebrando a aspereza das gravuras e das fotos em preto e branco.

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Página do livro ¿História natural?, com técnica mista sobre imagens transferidas sobre papel e tecido, linoleogravura, ponta seca e costura, 2016

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¿História natural? (deste jeito mesmo, como dúvida) é um livro de artista com 12 pranchas que remetem aos volumes enciclopédicos – reconhecidos pela tentativa de ordenação dos reinos animal e vegetal. Motivada por entender a lógica colonialista, Rosana dedica-se à pesquisa das teorias da classificação das raças; subverte e sutura imagens e argumentos, mostrando o avesso desse discurso – tudo isso por uma ótica suave. Através da gravura e das colagens, a artista oferece imagens borradas, sujas e costuradas como se nos mostrasse que aquela história, legitimada pelo discurso moral, religioso e pseudocientífico, é falsa; tornou-se grande trapaça.

Em resumo, esses trabalhos, a partir da recombinação de imagens, palavras e suturas, questionam, de modo afetivo e lírico, a história instituída pela sociedade patriarcal brasileira. Através do jogo de memórias, suas obras denunciam que o preconceito é resultante de uma construção e como tal pode ser desconstruído. Foram séculos aprendendo sob a cartilha do racismo e, agora, chega a vez da inevitável revisão da história e dos papéis sociais.

 

 

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