Lista tríplice para quê?

Por Renato Janine Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 16/10/2025 - Publicado há 5 meses
Renato Janine Ribeiro – Foto: Léo Ramos Chaves/Revista Pesquisa Fapesp
A USP, nossa querida USP, em várias áreas, sobretudo nas que dizem respeito à sua governança, demora muito a dar certos passos que seriam fundamentais do ponto de vista democrático. Não estou falando apenas da política de cotas, que ela demorou demais a instituir, mas penso na forma de escolha dos seus dirigentes.

Por três décadas, a partir do estatuto atual, ela adotou um sistema complexo de escolha do reitor que passava por duas etapas. Na primeira etapa, um grande número de professores, na sua maior parte titulares, votava em até três nomes cada um, para gerar uma lista de oito. Dentre estes, os colegiados centrais escolhiam os nomes que iriam para o governador. A ideia era interessante: fazer que nomes aparecessem espontaneamente na lista de oito e que, mesmo sem serem candidatos declarados, acabassem eventualmente eleitos para a Reitoria. Mas nunca foi assim. Sempre, desde o começo, houve vários candidatos e, justamente porque havia oito vagas, consolidou-se em torno de oito o número de postulantes ao cargo máximo de reitor.

A isso, somavam-se outros fatores: não havia desincompatibilização para o cargo, nem necessidade de que os postulantes se afastassem de cargos administrativos. Assim, os pró-reitores viravam candidatos natos, bem como os diretores das grandes unidades, utilizando, por vezes, o carro oficial para irem às suas agendas de campanha. Isso foi mudado há pouco tempo. Eu mesmo, como membro do Conselho Universitário representando os professores titulares em 2010-11, batalhei pela mudança e somente deixei o conselho quando notei que o então reitor não pretendia priorizar essa mudança – coisa que ele acabou fazendo no momento final de sua gestão, quando eu já não estava mais no conselho.

É bom lembrar que na gestão do professor Zago foi eliminada a lista tríplice para diretor, ou seja, a escolha dos diretores das faculdades hoje se esgota na própria unidade. Não há mais necessidade de convencer o reitor, eventualmente até de bajulá-lo, para conseguir o cargo, o que, a meu ver, é um avanço, uma vez que a lista tríplice colocava problemas sérios, de que tratarei adiante.

Bom lembrar também que já tivemos coisa pior que a lista tríplice. Antes desse sistema de votação complicado que eu expus acima, era o Conselho Universitário que elaborava a lista tríplice para o governador. No final da ditadura, o conselho decidiu fechar em três nomes – um dos quais o professor José Goldemberg, que foi o mais votado –, que seriam enviados ao governador Maluf. Este, porém, queria nomear outra pessoa e conseguiu do ditador Ernesto Geisel a edição de um decreto que substituía a lista tríplice por uma lista sêxtupla. Maluf nomeou então o quinto nome da lista. Pior até que a lista tríplice.

Mas qual o problema da lista tríplice? Comecemos pela sua lógica. Ela tem uma qualidade: pertencendo a Universidade ao Estado, sendo mantida pelos cidadãos do Estado, não faz sentido que esses cidadãos, pelo seu representante máximo escolhido em eleições limpas, não tenham uma palavra a dizer na escolha do reitor. Na prática, porém, isso não acontece. Formalmente, sim, mas na prática o governador não coloca o critério dos cidadãos para essa sua decisão; ele faz isso em função da política dele. Isso é muito preocupante, porque a Universidade é uma instituição comprometida com a ciência, e são seus membros quem melhor conhecem o que ela necessita e deve fazer.

Ainda mais, deve-se levar em conta que, nos 40 anos de democracia que temos, nas três universidades paulistas foi escolhido um total de 30 reitores, dez em cada. Dessas 30 escolhas, houve um único caso em que o governador não respeitou a ordem de votação da respectiva comunidade: foi na USP, no ano de 2010, quando o governador Serra preteriu o mais votado. Isso não chegou a causar um estresse na comunidade, porque a comunidade da USP não reagiu.

Lembro que no governo federal, durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, foi nomeado para a UFRJ um nome que não era o mais votado. Isso causou quatro anos de turbulências, a tal ponto que o reitor assim nomeado veio a andar com seguranças terceirizados, com receio de alguma agressão – que não aconteceu, que eu saiba, mas deixou um clima péssimo. Mais tarde, o reitor que tinha sido eleito pela comunidade seria nomeado, já no governo Lula (assim como Goldemberg o foi na USP, já na democracia).

Aqui tenho um depoimento pessoal a fazer: eu era diretor da Capes e, como tal, participava às vezes das reuniões dos secretários do Ministério da Educação. Em 2004, quando o secretário executivo era o nosso colega da USP, Fernando Haddad (que depois seria ministro), ele nos disse que estava na intenção do governo nomear sistematicamente o mais votado. Assim foi feito, o que gerou grande satisfação na comunidade acadêmica. Essa praxe seria rompida pelo governo Bolsonaro, que adotou como critério evitar o mais votado, nomeando muitas vezes o segundo ou mesmo o terceiro, às vezes apenas por birra contra o universo do conhecimento, pelo qual não tinha nenhum respeito.

Então, vale a pena manter um sistema em que há hoje três candidatos e se dá ao governador o poder de simplesmente dizer “não” a todo o processo de escolha? Esse processo de escolha interna da Universidade é complexo, cada vez mais aprimorado, que passa por debates, visitas, comunicações, diálogo com a comunidade. Faz-se todo esse trabalho para que o governador possa zerá-lo e escolher quem ele quiser. Vale a pena manter a lista tríplice? Eu penso que não.

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