

Um levantamento publicado pela Confederação Nacional dos Municípios em maio de 2024 aponta que 5.233 municípios foram afetados por desastres entre janeiro de 2013 e dezembro de 2023, com 64.742 decretos de calamidade pública formalizados no período. Segundo o Cemaden, são 1.942 os municípios classificados como mais suscetíveis a desastres geológicos e hidrológicos, sendo que a maior parte da população exposta a essas ocorrências está concentrada na região Sudeste.
De acordo com o painel Recursos para Gestão de Riscos e Desastres, mantido pelo Tribunal de Contas da União, de 2012 a 2024, a União Federal disponibilizou R$ 40,74 bilhões para a gestão de risco de desastres no país. Entretanto, do total de recursos disponibilizados, somente R$26,53 bilhões foram efetivamente gastos. A maior parte dos recursos empenhados, R$ 22,14 bilhões, foram direcionados a ações de resposta e de recuperação, enquanto que apenas R$ 8,87 bilhões foram destinados a ações de prevenção. Somente para enfrentamento da tragédia climática no Rio Grande do Sul, a União destinou R$ 1,70 bilhões em 2024, sendo R$ 1,64 bilhões transferidos para os municípios gaúchos e R$ 53,10 milhões para o Estado do Rio Grande do Sul.
Diante desse cenário, a necessidade de fortalecer a resiliência urbana — a capacidade das cidades de resistir, absorver, adaptar-se e se recuperar dos impactos de desastres — nunca foi tão evidente. Trata-se de um esforço estratégico e contínuo que vai além da resposta emergencial: envolve planejamento urbano integrado, fortalecimento institucional, educação para redução de riscos e envolvimento das comunidades locais.
Nesse contexto, surge o RUA – Resiliência Urbana em Ação, uma iniciativa coletiva organizada pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, o Programa Eixos Temáticos da USP, a Universidade Nove de Julho – Uninove e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT, que vêm reunindo representantes de universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos, organizações da sociedade civil e setor privado com o objetivo de fomentar uma cultura de prevenção, resposta articulada e reconstrução resiliente. O movimento nasceu em junho de 2024, a partir de rodadas de conversa realizadas no Instituto de Estudos Avançados da USP, diante da percepção de que a falta de articulação entre as instituições que atuam na gestão de riscos era um obstáculo importante para a construção de soluções eficazes.
Inspirado pelo Marco de Sendai para Redução do Risco de Desastres (2015-2030), o RUA estrutura suas ações em cinco fases: resposta, recuperação, reabilitação, reconstrução e prevenção. Esse referencial internacional é também base para a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC – Lei 12.608/2012), que define diretrizes para a gestão de riscos e desastres no Brasil. A PNPDEC prioriza a atuação integrada da União, estados, municípios e sociedade civil em um Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SNPDEC), com a estruturação de Defesas Civis estaduais e municipais e elaboração de planos de defesa civil, em âmbito nacional e estadual, e planos de contingência e de redução de risco de desastres em âmbito municipal. O estímulo ao desenvolvimento de cidades resilientes e a processos sustentáveis de urbanização é um dos objetivos centrais da PNPDEC, em perfeita consonância com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 da Agenda 2030 da ONU.
As atividades do RUA foram colocadas em prática por meio de cinco encontros técnicos presenciais, entre setembro de 2024 e março de 2025, cada um dedicado a uma das etapas do ciclo. Participaram representantes da Defesa Civil estadual e municipal, Corpo de Bombeiros, Cemaden Educação, IPT, universidades como Uninove, Unifesp, Instituto Federal de SP, ESPM e São Judas, além de secretarias municipais, Cruz Vermelha, Instituto de Conservação Costeira (ICC), Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e diversos outros atores relevantes.
As metodologias adotadas envolvem dinâmicas colaborativas, como Design Thinking, cartografia participativa e votação interativa, que permitiram mapear boas práticas, fluxos institucionais, conexões entre órgãos e desafios de implementação. Como resultados, foram identificadas mais de 150 boas práticas em diversas fases da gestão de desastres, com destaque para a sistematização de experiências em situações reais, como a tragédia de São Sebastião (SP), em fevereiro de 2023.
Trabalhar em rede é essencial para lidar com a complexidade dos desastres contemporâneos. Redes bem articuladas permitem a troca de conhecimento, promovem inovação e ampliam o alcance de ações eficazes. A articulação entre academia, poder público e sociedade civil potencializa a implementação de políticas urbanas sustentáveis, equitativas e com maior poder de transformação territorial.
O maior desafio agora é transformar esse conhecimento gerado em ação permanente, incorporando as propostas nas rotinas institucionais e sensibilizando decisores sobre a importância da prevenção. O RUA segue articulando novos núcleos, ampliando a rede e disponibilizando os materiais gerados à gestão pública em todo o país.
Convidamos todas e todos a conhecerem o movimento e se somarem a essa construção coletiva. Porque cidades mais resilientes não são apenas necessárias — elas são possíveis, e urgentes.
________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)
























