USP SUSTENTÁVEL

Construir cidades mais resilientes é urgente — e possível

Por Tatiana Tucunduva Philippi Cortese e Débora Sotto, pesquisadoras do Instituto de Estudos Avançados da USP

 05/06/2025 - Publicado há 11 meses
Tatiana Tucunduva P. Cortese – Foto: Reprodução/IEA-USP
Debora Sotto – Foto: Reprodução/IEA-USP

USP Sustentável

Nos últimos anos, a frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos vêm se tornando um dos principais desafios enfrentados por cidades brasileiras, especialmente nas regiões metropolitanas. Em São Paulo, episódios de chuvas torrenciais com inundações, deslizamentos de terra, ilhamento de bairros e perda de vidas humanas têm se tornado cada vez mais recorrentes. Em outras partes do Brasil, como no Rio Grande do Sul, Bahia e Acre, cheias e secas prolongadas impõem sérias consequências sociais, econômicas e ambientais.

Um levantamento publicado pela Confederação Nacional dos Municípios em maio de 2024 aponta que 5.233 municípios foram afetados por desastres entre janeiro de 2013 e dezembro de 2023, com 64.742 decretos de calamidade pública formalizados no período. Segundo o Cemaden, são 1.942 os municípios classificados como mais suscetíveis a desastres geológicos e hidrológicos, sendo que a maior parte da população exposta a essas ocorrências está concentrada na região Sudeste.

De acordo com o painel Recursos para Gestão de Riscos e Desastres, mantido pelo Tribunal de Contas da União, de 2012 a 2024, a União Federal disponibilizou R$ 40,74 bilhões para a gestão de risco de desastres no país. Entretanto, do total de recursos disponibilizados, somente R$26,53 bilhões foram efetivamente gastos. A maior parte dos recursos empenhados, R$ 22,14 bilhões, foram direcionados a ações de resposta e de recuperação, enquanto que apenas R$ 8,87 bilhões foram destinados a ações de prevenção. Somente para enfrentamento da tragédia climática no Rio Grande do Sul, a União destinou R$ 1,70 bilhões em 2024, sendo R$ 1,64 bilhões transferidos para os municípios gaúchos e R$ 53,10 milhões para o Estado do Rio Grande do Sul.

Diante desse cenário, a necessidade de fortalecer a resiliência urbana — a capacidade das cidades de resistir, absorver, adaptar-se e se recuperar dos impactos de desastres — nunca foi tão evidente. Trata-se de um esforço estratégico e contínuo que vai além da resposta emergencial: envolve planejamento urbano integrado, fortalecimento institucional, educação para redução de riscos e envolvimento das comunidades locais.

Nesse contexto, surge o RUA – Resiliência Urbana em Ação, uma iniciativa coletiva organizada pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, o Programa Eixos Temáticos da USP, a Universidade Nove de Julho – Uninove e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT, que vêm reunindo representantes de universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos, organizações da sociedade civil e setor privado com o objetivo de fomentar uma cultura de prevenção, resposta articulada e reconstrução resiliente. O movimento nasceu em junho de 2024, a partir de rodadas de conversa realizadas no Instituto de Estudos Avançados da USP, diante da percepção de que a falta de articulação entre as instituições que atuam na gestão de riscos era um obstáculo importante para a construção de soluções eficazes.

Inspirado pelo Marco de Sendai para Redução do Risco de Desastres (2015-2030), o RUA estrutura suas ações em cinco fases: resposta, recuperação, reabilitação, reconstrução e prevenção. Esse referencial internacional é também base para a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC – Lei 12.608/2012), que define diretrizes para a gestão de riscos e desastres no Brasil. A PNPDEC prioriza a atuação integrada da União, estados, municípios e sociedade civil em um Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SNPDEC), com a estruturação de Defesas Civis estaduais e municipais e elaboração de planos de defesa civil, em âmbito nacional e estadual, e planos de contingência e de redução de risco de desastres em âmbito municipal. O estímulo ao desenvolvimento de cidades resilientes e a processos sustentáveis de urbanização é um dos objetivos centrais da PNPDEC, em perfeita consonância com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 da Agenda 2030 da ONU.

As atividades do RUA foram colocadas em prática por meio de cinco encontros técnicos presenciais, entre setembro de 2024 e março de 2025, cada um dedicado a uma das etapas do ciclo. Participaram representantes da Defesa Civil estadual e municipal, Corpo de Bombeiros, Cemaden Educação, IPT, universidades como Uninove, Unifesp, Instituto Federal de SP, ESPM e São Judas, além de secretarias municipais, Cruz Vermelha, Instituto de Conservação Costeira (ICC), Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e diversos outros atores relevantes.

As metodologias adotadas envolvem dinâmicas colaborativas, como Design Thinking, cartografia participativa e votação interativa, que permitiram mapear boas práticas, fluxos institucionais, conexões entre órgãos e desafios de implementação. Como resultados, foram identificadas mais de 150 boas práticas em diversas fases da gestão de desastres, com destaque para a sistematização de experiências em situações reais, como a tragédia de São Sebastião (SP), em fevereiro de 2023.

Trabalhar em rede é essencial para lidar com a complexidade dos desastres contemporâneos. Redes bem articuladas permitem a troca de conhecimento, promovem inovação e ampliam o alcance de ações eficazes. A articulação entre academia, poder público e sociedade civil potencializa a implementação de políticas urbanas sustentáveis, equitativas e com maior poder de transformação territorial.

O maior desafio agora é transformar esse conhecimento gerado em ação permanente, incorporando as propostas nas rotinas institucionais e sensibilizando decisores sobre a importância da prevenção. O RUA segue articulando novos núcleos, ampliando a rede e disponibilizando os materiais gerados à gestão pública em todo o país.

Convidamos todas e todos a conhecerem o movimento e se somarem a essa construção coletiva. Porque cidades mais resilientes não são apenas necessárias — elas são possíveis, e urgentes.

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