Infraestrutura digital na América Latina e suas implicações na soberania nacional e no meio ambiente

Segundo Marcelo Knörich Zuffo, para a implementação das estruturas são necessárias políticas públicas bem elaboradas e cuidados na questão da privacidade de dados

 Publicado: 25/03/2026 às 11:23
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Foto: IA/Freepik

Recursos tecnológicos digitais são fundamentais para o mundo. Através deles, diferentes áreas da sociedade se desenvolvem e apoiam-se para seu funcionamento. Entre eles estão os data centers (Central de Processamento de Dados, em tradução livre para o português), a inteligência artificial, os IA Hubs e os cabos submarinos.

O professor Marcelo Knörich Zuffo, do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da USP, explica que a instalação de tecnologias desse tipo na América Latina e, em destaque no Brasil, requer cuidado com os danos à soberania nacional dos países receptores. A existência de políticas públicas que privilegiam a população, ao invés das big techs responsáveis por esses recursos, é fundamental para que o País possa “balancear o impacto positivo na economia da sociedade em relação aos eventuais prejuízos que essa tecnologia pode ter”.

O controle dos recursos pelos países do Norte Global ameaça o que Zuffo chama de soberania de dados, “que na essência é a perda da privacidade das nossas informações para nações estrangeiras e, no limite, situações até de espionagem que podem ocorrer em uma guerra não declarada e afetar nossa própria soberania física”.

Os data centers e outras tecnologias

Marcelo Knörich Zuffo – Foto: Sites USP

O surgimento dos data centers está associado à década de 1960 e, principalmente, à de 1970. A necessidade de o mundo empresarial em acelerado crescimento do período exigiu a criação de locais para gerenciar o funcionamento de seus recursos e o armazenamento dos dados gerados. “Um data center é um grande galpão em que você tem que ter acesso a muita energia. Na época em que surgiram, os data centers consumiam em um teto de 10 MW. Em comparação, 10 MW é da ordem de grandeza de toda energia consumida por esse campus, que tem entre 5 a 6 milhões de metros quadrados e onde habitam mais ou menos 100 mil pessoas”, explica o professor.

A linha evolutiva dos recursos tecnológicos é marcada, após a criação dos data centers, pelo surgimento da internet. O nascimento dela, segundo Zuffo, fez com que as centrais de processamento de dados se modificassem, tornando-as “centrais ou hubs de processamento e comunicação”. Nesse processo, surgiu a web com a abertura da internet para a população e depois o movimento da Nuvem, que “vem do conceito de poder virtualizar as informações e dados. Nesse caso, os data centers cresceram em termos de pertinência e relevância na sociedade por causa da computação em nuvem”.

O próximo passo da modernização tecnológica, que era aguardada pelos estudiosos, era a “internet cognitiva”, uma união entre a internet e a inteligência artificial. “Isso já está acontecendo agora na sociedade humana moderna, complexa como a sociedade brasileira, em que você tem a computação, você tem o armazenamento, você tem a comunicação, você tem o acesso universalizado pela internet e agora você tem também inteligência artificial de livre acesso”, afirma Zuffo.

O sistema de informação com a internet tornou-se cada vez mais complexo e interligado. Essa situação possui efeitos positivos, como a agilidade do movimento de dados e aumento da produtividade desses recursos, porém, torna esse sistema crítico. Um sistema crítico é um sistema que, caso tenha alguma falha, causa danos significativos para a sociedade, o mercado ou o meio ambiente.

Os cabos submarinos

Existem dois meios de comunicação da internet: sem ou com fio. A internet sem fio é feita através de satélites. Também chamada de internet satelital, ela é importante para regiões de difícil acesso ou para países de grandes dimensões, como o Brasil. Já a internet com fio é responsável por conectar o mundo por meio de vias terrestres e, em especial, pela via marinha.

Os cabos submarinos de fibra óptica atravessam os oceanos e levam de forma rápida informações entre os continentes e países. Zuffo explica que a fibra é da espessura de um fio de cabelo e que para trazer mais eficiência e segurança é usado um conjunto delas. “Esse chumaço, como fica no fundo do mar, o cabo de fibra óptica, ele tem envelope mecânico de plástico. É um cabo dessa espessura. Se alguém fosse lá e cortasse esse cabo com duas tesourinhas, você desligaria o Brasil.” O professor explica que o número de cabos aumentou nos últimos anos, o que impede que falhas neles causem danos aos países. Os cabos marinhos são outro tipo de infraestrutura crítica.

As soberanias nacionais da América Latina

A introdução dessas tecnologias impacta diretamente a sociedade dos países que as recebem. Os recursos são em sua maioria controlados por empresas – as big techs – de países desenvolvidos, como EUA e países da Europa. Segundo Zuffo, a relação entre essas tecnologias e o mercado é indispensável, o que dificulta não utilizá-las. “Essas infraestruturas, que a gente chama de infraestruturas críticas, estão intrinsecamente ligadas com a atividade econômica hoje. A gente não precisa de data centers e hubs de ar apenas para atividade científica. Mas isso permeia praticamente em todos os setores da sociedade.”

O professor alerta que a entrada dessas empresas na América Latina faz com que os dados dessas nações sejam controlados pelas big techs. Porém, com a necessidade delas para o mercado, Zuffo esclarece que é importante a existência de políticas públicas que visem a controlar o domínio das big techs sobre as informações nacionais dentro do território dos países. “Surge um conceito mais moderno de que a importância dos data centers no Brasil, desde que você tenha bom senso na implantação das políticas, por exemplo, na questão da energia, traz o benefício também, desde que seja acompanhado de outras leis em que haja uma exigência, como há em países como a França ou a Alemanha, em que os dados dos brasileiros sejam disponibilizados em data centers brasileiros. Então, a auditoria e o domínio do Estado de Direito, o pleno Estado Democrático de Direito, pode agir dentro do âmbito da lei da sua Constituição sobre esses dados.”

O professor complementa: “O que me garante, se eu botar os dados dos Estados Unidos na China, nações que têm regimes políticos e legislações totalmente diferentes que nós, ou eventualmente colocar data centers em paraísos fiscais – recentemente tem algumas ideias malucas de botar data centers em navios cargueiros ou colocar no espaço ou no fundo do mar -, quem vai arbitrar?”.

Dos dias 16 a 18 de março aconteceu o evento Capacity Latam, um evento focado para negociação entre os líderes de comunicatividade e infraestrutura de dados da América Latina. O evento recebe empresas de tecnologia de todo o mundo, mas grande parte dos investidores é de países desenvolvidos que buscam impulsionar-se no mercado latino. O evento contou com a presença de Gustavo Santana Borges, superintendente executivo da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Borges relembrou a importância da soberania de dados para o Brasil e de que é uma necessidade para o Estado.

“Quais são as necessidades do Estado para os próximos 30 anos? Todos nós estamos percebendo a corrida da inteligência artificial, a corrida pela atração de data centers, pela atração dos dados e a importância da soberania de dados. Nós temos visto a geopolítica transformando algumas questões em tensões. Mais do que essa expansão de conectividade, nós também precisamos pensar em resiliência”, enfatiza o superintendente.

O governo do Brasil fez observações no início do segundo dia do evento através do representante Hermano Barros Tercius, secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. Tercius afirma a necessidade de cooperação internacional para a construção de uma boa infraestrutura de dados. “Nós queremos consolidar o Brasil definitivamente como um ponto seguro e um hub central da economia digital global. Nenhum país tem estrutura no futuro sozinho. Essa transformação exige capital, exige tecnologia e exige visão de longo prazo.”

Marcelo Knörich Zuffo explica que, para o bom funcionamento dessa infraestrutura no Brasil, são necessárias políticas públicas elaboradas. Elas devem equilibrar os aspectos positivos e negativos dessas tecnologias para o mercado, a sociedade, a política e o meio ambiente. “Política elaborada em que você tem que balancear o impacto positivo na economia da sociedade em relação aos eventuais prejuízos que essa tecnologia possa ter.”

As consequências ambientais das infraestruturas digitais

Recursos como os data centers e as centrais de inteligência artificial, conhecidas como hubs de IA – que são uma espécie de data center específico para o gerenciamento da tecnologia – necessitam de uma alimentação de energia elétrica constante e intensa. A demanda exige que a localização tenha fácil acesso à energia elétrica.

A exigência acende uma dúvida: como escolher o melhor local? No caso do Brasil, Zuffo explica que as regiões Sul e Nordeste competem para a recepção de data centers. No caso sulista, a região apresenta uma grande oferta de energia devido à hidrelétrica de Itaipu, além de ser um local mais frio que facilita o resfriamento dos computadores dos centros e gasta menos energia. Já o Nordeste apresenta abundância de energia limpa, por conta das usinas eólicas. Porém, é uma região mais quente e demanda mais energia para a redução da temperatura dos sistemas dos data centers.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira


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