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Quando acumular é uma virtude: arquivo pessoal ajuda a conhecer o cotidiano de mulheres negras do século 20
Coleção em processo de catalogação no Museu do Ipiranga traz pistas sobre o cotidiano da classe trabalhadora e a cena cultural negra de São Paulo nos anos 1950
Texto: Silvana Salles
Arte: Gustavo Radaelli*
Quando acumular é uma virtude: arquivo pessoal ajuda a conhecer o cotidiano de mulheres negras do século 20
Coleção em processo de catalogação no Museu do Ipiranga traz pistas sobre o cotidiano da classe trabalhadora e a cena cultural negra de São Paulo dos anos 1950
Arquivo pessoal reúne fotografias, álbuns, diários, cadernos de receitas, contas de consumo, materiais impressos e objetos – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Nery Rezende foi uma mulher negra, trabalhadora urbana, que teve uma breve carreira artística e viveu a transformação da cidade de São Paulo em metrópole durante o século 20. Nery era também uma acumuladora, que guardou diários, cadernos, correspondências, fotografias e papéis de todos os tipos ao longo de sua vida. Muitos talvez considerem essa característica de Nery como um defeito. Para o Museu do Ipiranga, porém, é uma virtude. Os documentos que Nery guardou formam um arquivo pessoal de mais de 9 mil itens, sendo o primeiro deste porte oriundo de uma mulher negra a integrar o acervo do museu ligado à USP.
Nascida em 1930 em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Nery Rezende se mudou bem jovem para a capital paulista. Seu arquivo traz informações variadas sobre o cotidiano de Nery, de sua irmã, Alice Rezende, e de sua mãe, Maria Helena Rezende da Silva. Maria Helena foi trabalhadora doméstica e lavadeira. Procurou apoiar suas filhas nos estudos e nas buscas profissionais, para que pudessem ter destinos diferentes. Nery trabalhou como balconista no mercado do Sesi e foi fotógrafa amadora. Alice se profissionalizou como artista, foi atriz de destaque do Teatro Experimental do Negro e chegou a trabalhar com cinema.
Partes das trajetórias dessas três mulheres podem ser reconstituídas a partir do que Nery guardou desde 1948. “É uma coleção muito variada. Nós temos documentação fotográfica, impressos de toda sorte, propaganda de ofertas de lojas de departamentos, documentação textual, muita correspondência. Temos objetos, enfeites de Natal, material do espaço doméstico, objetos de decoração, bijuterias. Então, é uma coleção que expressa muito bem o que era o cotidiano de uma mulher que vivia em São Paulo, de um estrato médio da sociedade, trabalhadora”, conta a professora Solange Ferraz de Lima, que faz parte do corpo docente do museu.
Nery Rezende faleceu em 2012. Seu arquivo pessoal chegou ao Museu do Ipiranga oito anos depois, em 2020, por meio da doação de sua filha, Greissy Rezende. O processo foi intermediado pelo antropólogo Alexandre Araujo Bispo, que trabalhou no doutorado com esse conjunto de documentos. A convite de Greissy, ele teve o primeiro contato com o material quando ainda estava guardado no apartamento onde Nery viveu seus últimos anos, um apartamento alugado nos Campos Elíseos, região central de São Paulo.
“Quando cheguei no apartamento, eu vi que a mãe dela deixou muita coisa. Cadernos, diários, livros, contas de consumo muito variadas. Deixou muito papel, muito papel manuscrito, muito papel impresso e alguns objetos”, lembra o antropólogo.
Segundo a professora Solange Lima, a acolhida do arquivo pessoal de Nery Rezende é fruto de um longo processo de reestruturação do Museu do Ipiranga, iniciado ainda nos anos 1990 pela gestão do professor Ulpiano Bezerra de Meneses – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Alexandre defendeu a tese no programa de Antropologia Social da USP em 2019 e, agora, está prestes a publicar os resultados de sua pesquisa como livro. Intitulado A paixão por guardar, o livro está em campanha de financiamento coletivo no Catarse. O prazo para apoiar o projeto vai até o dia 30 de março.
Tanto Solange quanto Alexandre observam que o fato de Nery ter guardado uma documentação tão variada permite investigar aspectos pouco contados da história do cotidiano da classe trabalhadora e, especificamente, da população negra em um lugar tão urbanizado quanto São Paulo. “A gente pouco sabe, na verdade, o que as pessoas pobres consumiam, o que a classe trabalhadora consumia”, reflete Alexandre. Uma possibilidade de pesquisa, por exemplo, investigar quais eram os preços de certos produtos nos anos 1950. Relacionando esses preços com os dados da época sobre o salário mínimo, um historiador poderia fazer inferências sobre quem tinha acesso a determinado produto de consumo. “Não é uma tarefa fácil para o historiador”, comenta a professora Solange.
Mas a chegada do arquivo ao museu não é o fim de sua história. Atualmente, o material está em processo de tratamento e catalogação. Quem está à frente dessa tarefa é Liliane Braga, pesquisadora de pós-doutorado do museu. “A Nery guardou tudo. Sendo uma acumuladora, ela tem um arquivo muito precioso, porque ele permite que a gente conheça aspectos da vida cotidiana dessas mulheres, mulheres negras da década de 1950”, afirma a pós-doutoranda, que está trabalhando no ciclo curatorial do arquivo. Esse ciclo envolve atividades de pesquisa, catalogação, conservação e difusão do arquivo.
“Acho que pensar a acumulação dessa outra perspectiva, que é a paixão por guardar, é a nossa chave principal. Porque quando a gente fala em acumulação, a gente geralmente vê isso como demérito nessa sociedade que é a sociedade do descarte, que é a sociedade que não tem memória, que é a sociedade do apagamento. Quando a gente guarda, a gente tem a possibilidade de deixar pistas da nossa vida de uma forma que outras pessoas possam reconstruir essas trajetórias”, acrescenta a pesquisadora.
Reproduções de fotos do período em que as irmãs Nery e Alice Rezende atuaram juntas como artistas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Uma história pouco contada dos artistas negros paulistas
Liliane está abrindo caixa por caixa da coleção para fazer o tratamento do arquivo, mas seu projeto de pesquisa traz um interesse particular pelo pedaço que diz respeito a Alice Rezende. Sabe-se, pelo pré-tratamento feito por Alexandre durante o doutorado, que uma parte do arquivo pessoal de Nery consiste no dossiê da irmã. O dossiê contém diários, recortes de jornais e revistas, roteiros anotados e outros documentos que foram de Alice e dão pistas sobre o universo do teatro negro na São Paulo de meados do século 20.
“A Nery colocava [itens] em envelopes e armazenava esses envelopes. Eu abri envelope por envelope de algumas caixas. Dentro de um desses envelopes, eu encontrei uma folha de um diário da Alice de 1954, com anotações feitas a lápis, sobre todas as produções de rádio do Teatro Experimental do Negro das quais ela teria participado naquele ano”, conta Liliane.
De acordo com a pesquisadora do museu, esse documento é de grande importância porque as produções das quais os artistas negros participavam naquele período foram pouco documentadas. “Era muito frequente que, quando esses artistas negros, que eram de agrupações negras, de um circuito cultural negro, participavam de produções para essa indústria do entretenimento que estava emergindo no processo de metropolização da cidade, houvesse uma invisibilização”, afirma Liliane.
Ela diz que a própria Alice Rezende teve seu trabalho invisibilizado dessa maneira. “Ela foi atriz atuante em produções da Companhia Cinematográfica Veracruz, que aqui em São Paulo representou o polo da indústria do cinema, foi de onde saíram as principais produções do cinema nacional na década de 1950. Ela escreve no diário os dias do teste, o dia da aprovação, os dias de gravações, e deixa o roteiro do filme no qual ela atuou impresso dentro de uma caixa”, conta a pesquisadora.
Pesquisadora de pós-doutorado do Museu do Ipiranga, Liliane está abrindo caixa por caixa, envelope por envelope para tratar o arquivo pessoal de Nery Rezende – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Ela completa: “O que acontece é que a gente sabe que ela atuou porque ela deixou esse arquivo e porque esse arquivo veio parar num lugar onde pesquisas são feitas. O Alexandre foi o primeiro pesquisador a identificar que esse filme do qual ela participou não trazia os créditos dela”. O filme em questão se chama Veneno, foi lançado em 1952 e teve em seu elenco outros atores que viriam a ficar muito famosos, como Anselmo Duarte e Paulo Autran.
Alice Rezende morreu jovem, aos 27 anos. Considerando as informações que o arquivo vêm lhe mostrando, Liliane crava que Alice foi uma atriz de algum sucesso e uma das estrelas do Teatro Experimental do Negro, cujo programa dominical na Rádio São Paulo foi líder de audiência na época. Segundo a pesquisadora, tudo leva a crer que Alice teria ido para a TV, assim como o fizeram Samuel dos Santos e Jacira Sampaio – talvez você se lembre deles como Tio Barnabé e Tia Nastácia, no Sítio do Pica-Pau Amarelo, exibido pela TV Globo entre 1977 e 1986.











Se hoje podemos conhecer essa história, é porque Nery Rezende compreendeu a importância de guardar o material, como ressalta Liliane. É também em parte porque, há cerca de 30 anos, o Museu do Ipiranga iniciou uma profunda reformulação que teve entre seus objetivos ser um museu de história e cultura material mais representativo da população brasileira. Um dos museus públicos mais antigos do Brasil, ele nasceu alinhado a um modelo de museu europeu que narrava a formação dos estados nacionais e privilegiava a história das elites, que têm mais possibilidades de acumular e uma preocupação maior em deixar seus legados.
“O acervo do museu não escapou dessa lógica. A gente tem uma quantidade muito grande de coleções que foram formadas pelos barões do café, pelas camadas mais privilegiadas da sociedade. Nesse processo de reestruturação do museu, o olhar para essa trajetória e para que museu nós queríamos abriu também essa perspectiva de que fazer história não se trata de fazer história das elites, mas que a gente pudesse ter representada no nosso acervo uma maior diversidade. Não só de classe social, mas também de gênero, de pessoas ligadas a distintas atividades na sociedade e também de estratos mais populares”, diz a professora Solange.
*Estagiário sob orientação de Simone Gomes
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.



























