Vacina contra o herpes-zóster é segura e eficaz em pacientes com doenças reumáticas autoimunes

Estudo padrão ouro avaliou mais de mil pacientes; resultados reforçam a importância de priorizar este grupo nas estratégias de vacinação contra o vírus

 Publicado: 23/03/2026 às 8:00     Atualizado: 24/03/2026 às 9:56

Texto: Fabiana Mariz
Arte: Thiago Quadros

A imagem mostra um close de um antebraço humano com várias bolhas na pele, com aspecto avermelhado ao redor e outras com superfície mais brilhante ou úmida, sugerindo presença de líquido. Elas estão concentradas em duas áreas próximas, formando agrupamentos irregulares ao longo do braço.

Por ser um grupo com risco maior de desenvolver a doença, pacientes com doenças reumáticas autoimunes devem ser priorizados nas estratégias de vacinação contra herpes-zóster  – Foto: WikiCommons

A vacina recombinante contra o herpes-zóster é segura e não aumenta o risco de agravamento da doença em pacientes com doenças reumáticas autoimunes (DRAI) em uso de imunossupressores. A conclusão vem de um estudo inédito, realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que avaliou a segurança e a capacidade do imunizante gerar resposta imune (imunogenicidade) em curto prazo. Os resultados reforçam a importância da vacinação de pacientes imunossuprimidos e trazem informações que podem contribuir para as diretrizes internacionais de vacinação.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica The Lancet Rheumatology em fevereiro.

Os dados revelam que a vacina não acentuou as doenças preexistentes. A taxa de piora nos indivíduos vacinados foi de 14%, valor bem próximo aos 15% observados no grupo que recebeu apenas placebo. Além disso, cerca de 90% dos pacientes desenvolveram uma resposta de anticorpos (anti-gE) adequada após as duas doses e um aumento significativo nas células T CD4+, importantes para proteção a longo prazo.

“Isso é extremamente relevante porque, na prática, existe o receio de que a vacinação possa ‘desencadear’ uma crise da doença — por exemplo, um paciente com lúpus apresentar reativação, ou um paciente com artrite reumatoide sofrer piora da inflamação articular após a vacina”, explica Nadia Emi Aikawa, da médica-assistente da Divisão de Reumatologia do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP e primeira autora do artigo. “Além disso, muitos médicos e pacientes evitam a vacinação por receio de piora da doença e falta de resposta imune.”

A imagem mostra um retrato de uma mulher adulta, enquadrada do peito para cima, olhando diretamente para a câmera. Ela tem pele clara, rosto oval e expressão tranquila, com um leve sorriso. Seus cabelos são lisos, de cor castanho médio, na altura dos ombros, repartidos levemente de lado. Ela usa óculos de armação clara e transparente, com lentes grandes.
Nadia Emi Aikawa – Foto: Lattes

As investigações identificaram também que o rituximabe e micofenolato de mofetila, medicamentos comumente utilizados no tratamento de pessoas com DRAI, podem reduzir a resposta à vacina mas, de acordo com Nadia Emi Awaka, ainda assim esses pacientes se beneficiam da vacinação. “Sempre que possível, ajustamos o momento da aplicação em relação ao tratamento para melhorar essa resposta, sem comprometer o controle da doença”, explica. “Por exemplo, no caso do rituximabe, idealmente a vacinação deve ser realizada próximo ao final do intervalo entre infusões, em torno de seis meses após a última dose. Já para o micofenolato de mofetila pode-se considerar uma suspensão temporária no momento da vacinação, desde que haja segurança clínica e a doença esteja estável.”

O estudo de fase 4 – de não inferioridade, duplo-cego, randomizado, controlado por placebo e de centro único – foi realizado entre maio de 2023 e novembro de 2024. Os pacientes elegíveis (1.192) tinham 18 anos ou mais e diagnóstico de doença reumática autoimune, incluindo artrite reumatoide e lúpus. Além disso, todos deveriam estar em tratamento com glicocorticóides, imunossupressores ou drogas antirreumáticas modificadoras da doença (DMARDs, em inglês) por pelo menos quatro a 12 semanas antes do início do estudo. 

Dos 590 pacientes do grupo da vacina recombinante, 559 (95%) receberam pelo menos uma dose; já no grupo placebo, 577 (96%) dos 602 tomaram o imunizante. Os pesquisadores adicionaram, ainda, 393 indivíduos saudáveis ao estudo; deste total, 380 receberam ambas as doses da vacina.

A imagem é um infográfico em português, com fundo branco e detalhes em verde, que informa que a vacina é segura, eficaz e bem tolerada em pacientes reumáticos, com alta resposta imunológica e sem aumento significativo de agravamento da doença. Título (no topo): “Vacina Recombinante contra Herpes-Zóster em Pacientes Reumáticos: Segurança e Eficácia no Maior Estudo do Mundo”.
Infográfico: Assessoria de Imprensa da FMUSP

Em relação à piora da atividade da doença (exacerbação), até o dia 84, em pacientes com doenças reumáticas autoimunes, 80 (14%) dos 559 pacientes no grupo da vacina apresentaram exacerbação em comparação com 84 (15%) dos 557 no grupo placebo. Os eventos adversos como dor no local da aplicação, vermelhidão, cefaléia, fadiga e mal-estar foram relatados com menos frequência após ambas as doses da vacina em comparação com o grupo controle saudável (após a primeira dose: 430 [77%] de 559 no grupo da vacina; 179 [31%] de 577 no grupo placebo; e 341 [90%] de 380 no grupo controle saudável). Após a segunda dose, 402 [72%], 148 [26%] e 307 [81%], respectivamente.

Os eventos adversos graves foram semelhantes entre os grupos após a primeira e a segunda dose do imunizante contra o herpes-zóster. Outro achado importante é que os pacientes reumáticos relataram menos eventos adversos do que o grupo controle formado por pessoas saudáveis.

O herpes-zóster é uma doença causada pelo vírus varicela-zóster (VVZ), o mesmo da catapora. Depois de transmitir a doença, o patógeno permanece latente (adormecido) no organismo durante toda a vida. O VVZ pode ser reativado na idade adulta ou em pessoas com baixas defesas no organismo. 

A vacina recombinante da herpes-zóster testada é uma vacina inativada, ou seja, utiliza um componente do vírus varicela-zóster (glicoproteína E) junto com um adjuvante para estimular o sistema imunológico. A outra vacina disponível no mercado, feita com vírus vivo atenuado, não foi utilizada no estudo.

Lacuna preenchida

Pacientes com doenças reumáticas autoimunes têm alto risco de desenvolver herpes-zóster devido ao tratamento com imunossupressores. Eloísa Bonfá, professora do Departamento de Clínica Médica da FMUSP, explica que esse risco acontece por dois motivos principais: “O primeiro é a própria doença, que já compromete o funcionamento do sistema de defesa contra infecções [sistema imunológico]. O segundo é o tratamento, frequentemente baseado em medicamentos que reduzem de forma importante a resposta de defesa às infecções”. E continua: “Como consequência, há maior chance de infecções, incluindo o herpes-zóster, que nesses casos pode se manifestar de forma mais grave”.

Antes deste estudo não havia dados suficientes para demonstrar a segurança e a imunogenicidade da vacina. De acordo com Nadia Emi Aikawa, o que existia eram estudos observacionais (sem grupo controle), análises retrospectivas, pequenos estudos em populações específicas (como artrite reumatoide ou lúpus). “Esses estudos sugeriam que a vacina poderia ser segura, mas tinham limitações importantes, pois apresentavam um tamanho de amostra limitado, não permitiam comparar com uma amostra de pacientes não vacinados, e muitas vezes não avaliavam de forma padronizada a atividade da doença”, explica a pesquisadora. “Dessa forma, um paciente poderia apresentar uma piora após a vacina, mas não era possível determinar com segurança a relação de causalidade.”

A imagem mostra uma mulher enquadrada do peito para cima olhando diretamente para a câmera. Ela tem pele clara, cabelos escuros, lisos e de comprimento médio, penteados para trás. Usa óculos de armação retangular e esboça um sorriso. Ela veste um jaleco branco, e, por baixo, há um lenço ou echarpe escuro com padrão claro, enrolado no pescoço. Ao fundo, o ambiente parece interno e bem iluminado, com uma parede clara e uma janela com persianas horizontais fechadas.
Eloisa Bonfá – Foto: Lattes

Eloísa Bonfá disse ao Jornal da USP que o trabalho traz uma mensagem clara: pacientes com doenças reumáticas autoimunes devem ser priorizados nas estratégias de vacinação contra herpes-zóster, por ser um grupo com risco maior de desenvolver a doença e, principalmente, suas formas mais graves e incapacitantes. “Na prática, isso pode significar menos casos, menos complicações e menor necessidade de internações, com impacto direto na qualidade de vida dos pacientes e também na redução de custos para o sistema de saúde. É um exemplo de como a pesquisa clínica pode se traduzir rapidamente em benefício concreto para a população.”

As pesquisadoras ressaltam que estudos futuros devem se concentrar na proteção em longo prazo, nas respostas imunes de reforço e no papel do monitoramento imunológico para orientar a vacinação em indivíduos imunossuprimidos.

O artigo Recombinant herpes zoster vaccine in patients with autoimmune rheumatic diseases in Brazil: a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 4, non-inferiority study pode ser lido neste link.

Mais informações:  e-mail imprensa@fm.usp.br, com a Assessoria da Imprensa da FMUSP


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