Teatro da USP apresenta o olhar crítico das novas gerações de diretores e atores

A partir desta sexta-feira, dia 20, o Centro MariAntonia vai exibir peças criadas por estudantes da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e da Escola de Arte Dramática, ambas da USP

 Publicado: 17/03/2026 às 17:49

Texto: Clara Hanek*

Arte: Daniela Gonçalves**

Cena da peça Bartolomeu: Que Será Que Nele Deu? 2.0 – Foto: Divulgação/Mostra Prédio 7

No final da Rua da Reitoria, na Cidade Universitária, em São Paulo, encontra-se o edifício mais afastado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP: o Prédio 7. É ele que abriga o Departamento de Artes Cênicas (CAC) da ECA e a Escola de Arte Dramática (EAD) – uma instituição de nível técnico ligada à ECA. Para integrar os estudantes dessas duas escolas, foi criada a Mostra Prédio 7: CAC+EAD, que a partir desta sexta-feira, dia 20, vai apresentar oito peças de teatro produzidas por estudantes do CAC e da EAD.

As peças serão apresentadas no Teatro da USP (Tusp), no Centro MariAntonia da USP, sempre às sextas, sábados e domingos, até 19 de abril, com entrada grátis. A programação completa da mostra está disponível no site do Tusp.

A iniciativa surgiu a partir das aulas de Crítica Teatral do professor Luiz Fernando Ramos, da ECA, ex-diretor do Tusp. “Ele queria deixar a mostra como um legado e uma perspectiva de continuidade, de uma ação do Tusp em relação aos estudantes”, diz Danni Viana, estudante de Artes Cênicas da ECA e um dos organizadores do evento. A partir dessa ideia, Viana e outros dois alunos de Ramos – Lena Giuliano e Broto – organizaram a mostra, que, além dos espetáculos, inclui o lançamento do livro Críticas de Teatro em São Paulo 2025. O volume reúne textos produzidos naquela disciplina de Crítica Teatral. Antes e depois da apresentação de cada peça, haverá momentos de “mediação teatral”, para refletir sobre teatro, e ainda distribuição de impressos com críticas de teatro escritas pelos estudantes.

Danni Viana – Foto: Reprodução/Instagram

Entre a temática e a linguagem

Em cada fim de semana, serão exibidas duas peças. As obras foram selecionadas de acordo com a temática ou a linguagem. 

Por exemplo, Blackout: ou Cada Bala de Fuzil É Uma Lágrima de Oxalá e Bartolomeu: Que Será Que Nele Deu? 2.0 abordam temas bem diferentes – a primeira fala de violência policial e a segunda, do capitalismo –, mas ambas utilizam uma linguagem que mescla teatro e hip-hop. 

Grafia(s) de Contato e Para Fazer Tempestade trabalham com a noção de contato e de encontro. Portanto, como aponta Viana, há uma semelhança temática, embora a execução seja feita por linguagens diferentes, já que Grafia(s) é um espetáculo de dança-teatro com atores-bailarinos. 

Não Nem Nada e Borboletas tratam da influência da mídia sobre o indivíduo. De acordo com a sinopse de Borboletas, a peça “transforma a vivência dos transtornos alimentares e sua gênese patriarcal em matéria cênica, costurando fragmentos de diários, cenas ficcionais e ações performativas em um rito de exposição irônica”. Já Não Nem Nada expõe um mosaico de cenas típicas da contemporaneidade e convida o público a “perceber o absurdo do cotidiano”.

Escrevendo na Cova de Alguém e Territórios Criativos em Conflito se relacionam pela abordagem de “embaralhar a fronteira entre cena e plateia”. Nelas, o público participa e a noção clássica de espetáculo é quebrada. Em Escrevendo na Cova de Alguém, por exemplo, uma pessoa da plateia será convidada a se deitar em um caixão e ouvir as músicas escolhidas para o seu funeral. 

Cena da peça Blackout: ou Cada Bala de Fuzil É Uma Lágrima de Oxalá – Foto: Reprodução/Instagram

Cena da peça Não Nem Nada – Foto: Divulgação/Mostra Prédio 7

Mediação e crítica

Incluir críticas e mediações no programa tem o propósito de  “radicalizar a noção de que a mostra está focada em produzir reflexão e conhecimento, e não só em levar para mais pessoas a nossa produção universitária”, de acordo com Danni Viana. As mediações serão feitas por estudantes após os espetáculos e as críticas serão distribuídas antes das apresentações. Queremos propor um outro tipo de espectador, que esteja interessado em fazer e pensar essas relações.”

Além de pontes estabelecidas entre as duas escolas, também são estabelecidas pontes com o público, que fazem com que a peça não seja só um momento de espetáculo, mas sim de reflexão, como destaca Viana. As críticas também são relevantes pelo valor documental e histórico que carregam, acrescenta. “O teatro universitário é pouco documentado. Produzir textos críticos sobre ele também é uma forma de documentar para a eternidade essa forma de produção muito específica.”

A proposta de mediação é diferenciada. Normalmente, quando se fala em mediação teatral, espera-se um debate convencional após o espetáculo, em que os artistas vão ser os atores principais. “A nossa proposta é completamente contrária. Os artistas já falaram tudo o que tinham para falar na peça. O foco da mediação é o público.” Viana explica que a intenção é ver como o público recebe, interpreta e cria junto com a peça. Uma analogia é feita a partir da expressão “cozinhar a peça”, da professora Maria Lúcia Pupo, da ECA. “É como a experiência de cozinhar com muitas pessoas. Construímos juntos, cozinhamos as peças com o público.” 

Cena da peça Pra Fazer Tempestade – Foto: Divulgação/Mostra Prédio 7

O Prédio 7

A diferença mais fundamental entre o Departamento de Artes Cênicas e a Escola de Arte Dramática é que a EAD é um curso técnico profissionalizante de atores, enquanto o CAC oferece bacharelado e licenciatura em Artes Cênicas. Viana comenta que, embora existam conflitos concretos e uma sensação de separação, também existem diálogos entre as duas instituições. Um exemplo é que o diretor de Blackout, uma produção do CAC, é Pedro Máximo, que estuda na EAD. Também há alunos que integram as duas escolas simultaneamente, o que é possível porque as atividades da EAD se concentram no período noturno. 

“Talvez a principal diferença não seja curricular, porque a EAD é um curso técnico com uma extensão teórica e qualidade de reflexão muito grande. É mais uma lógica de relação com o espaço.” Viana explica que os estudantes do CAC desenvolvem atividades de pesquisa e extensão no Departamento de Artes Cênicas da ECA fora do horário de aula, inclusive à noite, período de aulas na EAD. “São dois modos de estar na Universidade”, define.

Também há diferenças em termos de direção. “Dificilmente os professores do CAC dirigem as produções, são direções dos estudantes. Na EAD, por outro lado, os estudantes atuam e fazem outras tarefas, mas não dirigem.” 

Fazer o evento no início do semestre tem como objetivo mostrar as produções para as turmas que estão entrando na Universidade e estabelecer diálogos, como um espaço de formação para as turmas ingressantes. “Muita gente nem sabe que dá para estudar artes cênicas e teatro na USP.” Embora tenha forte caráter estudantil, Viana afirma que a intenção é também ampliar o alcance para o público externo da cidade de São Paulo.

* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

Os espetáculos da mostra de teatro Prédio 7: CAC+EAD acontecem a partir desta sexta-feira, dia 20, até 19 de abril, sempre às sextas-feiras, sábados e domingos, no Teatro da USP, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Higienópolis-Mackenzie e Santa Cecília do metrô). A programação completa do evento está disponível no site do Tusp. Entrada grátis. Os ingressos serão distribuídos a partir de uma hora antes de cada sessão na bilheteria do Centro MariAntonia.


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