Caetanistas Negros: USP resgata trajetórias de intelectuais negros em exposição e livro

Pesquisadora da USP, em parceria com Centro de Referência em Educação do Estado de São Paulo, promove livro e exposição que contam histórias de figuras negras invisibilizadas

 Publicado: 17/03/2026 às 17:37

Texto: Mariana Gaia Cazassa Festa*
Arte: Gustavo Radaelli**

Grupo de sete pessoas posa para foto, sendo três mulheres, uma delas negra, e quatro homens, todos brancos

Da esquerda para a direita: Clayton Policarpo Vicente, Ariadne Lopes Ecar, Maria Rejane Germano, Solange Maia Merlini, Sergio Luiz Mazetto, Diógenes Nicolau Lawand e Adriano José Neves, equipe da Divisão Centro de Referência em Educação Mario Covas (DCREMC) da SEDUC-SP – Foto: Arquivo pessoal/Clayton Policarpo

No próximo dia 19 de março, às 14 horas, o auditório Professora Doutora Lisete Arelaro, da Faculdade de Educação (FE) da USP, será palco de um evento que une rigor acadêmico e reparação histórica. O lançamento do livro e a abertura da exposição Caetanistas Negros: outros que honram a galeria dos pretos do Brasil, com transmissão on-line, trazem a público o resultado de uma pesquisa minuciosa que identifica e celebra o protagonismo negro em uma das instituições de ensino mais emblemáticas do País, a Escola Caetano de Campos, hoje divida em duas unidades: uma na Consolação e outra na Aclimação, bairros localizados no centro da cidade de São Paulo. 

Sob a organização da pesquisadora Ariadne Ecar, pós-doutora pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), em conjunto com o Núcleo de Memória e Acervo Histórico (NUMAH) do Centro de Referência em Educação Mario Covas, o projeto traz à luz as trajetórias de 11 personalidades negras que marcaram a história da instituição entre o início da República e a década de 1970. Entre os nomes resgatados, destacam-se figuras de relevância nacional como Eduardo de Oliveira, primeiro vereador negro da capital paulista, a bióloga Rosa Maria Tavares Andrade e Benedicto Galvão, primeiro presidente negro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, cujas vozes e legados foram historicamente silenciados.

Fundada em 1846, a Escola Caetano de Campos consolidou-se como um modelo pedagógico para o Brasil, frequentemente associada no imaginário paulista a uma elite branca e abastada. Contudo, as evidências históricas revelam uma realidade mais diversa. 

Mulher branca, usando óculos, com cabelos castanhos-claros até os ombros

Ariadne Lopes Ecar – Foto: Lattes

“Ficou no imaginário paulista que a Caetano de Campos só admitia pessoas da elite paulista, o que não tem comprovação nenhuma”, afirma a pesquisadora Ariadne Ecar. Ela destaca que, apesar da infraestrutura de ponta, com laboratórios e materiais didáticos avançados, a instituição era pública e aberta à diversidade social: “Não conseguimos encontrar nada que pudesse dizer que essa instituição não aceitava alunos pobres ou negros”.

A semente deste resgate histórico veio da percepção cotidiana de Maria Rejane Germano, idealizadora da exposição e funcionária pública que atuou no prédio da Praça da República por quase três décadas. “Trabalhei no prédio da Caetano de Campos quase 30 anos e não sabia da história dos afrodescendentes que tinham estudado lá”, relata Rejane, que buscou investigar a presença negra nesse espaço tido como elitizado.

Segundo Clayton Policarpo, membro da equipe de organização, a exposição não é apenas estática: “Além dos banners, teremos vídeos de entrevistas com dois caetanistas. Foram entrevistas que realizamos dentro do projeto de história oral, e eles relatam a vivência deles”. Diógenes Nicolau Lawand, do NUMAH, destaca a emoção desse contato: “Nós presenciamos muitos professores e professoras se emocionando, porque viam aquele relato daquele caetanista negro, eles se identificavam”.

Instituto de Educação Caetano de Campos (Escola da Praça). A partir de 1938 os cursos de Letras, Filosofia, Geografia, História, Ciências Sociais e Pedagogia da FFCL-USP passaram a ocupar o 3º andar deste instituto. Data: 1992 – Foto: USP Imagens

Um projeto de Educação Antirracista permanente

A iniciativa não é isolada, mas integra a proposta Todo Dia é Dia de Antirracismo, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. O objetivo central é combater o racismo estrutural através da memória cotidiana, e não apenas em datas comemorativas.

Diógenes Nicolau Lawand, do NUMAH, explica que a exposição e o livro são ações de um esforço contínuo: “Esse é o guarda-chuvão. A exposição é uma das ações; o livro digital é outra ação. Esperamos desenvolver outras ações vinculadas a essa questão da educação antirracista”.

Novidades na expografia e acesso ao livro

Diferente da primeira montagem realizada na Efape em 2024, a exposição na USP traz atualizações de dados e uma nova dinâmica. Devido à complexidade logística de transportar documentos originais, foram produzidos fac-símiles (cópias fiéis) de registros históricos que atestam a passagem desses intelectuais pela escola. 

O livro, que já está disponível para acesso gratuito, reúne capítulos escritos por diversos pesquisadores sobre os caetanistas identificados. Mesmo antes do lançamento formal, a obra já registrava um interesse significativo, com mais de 40 downloads logo nos primeiros dias de publicação.

Imagem: Divulgação

Serviço:

Lançamento do livro e exposição Caetanistas Negros

Data: 19 de março

Local: Biblioteca da Faculdade de Educação da USP 

Livro digital: Disponível no Portal de Livros Abertos da USP 

Entrada: Gratuita e aberta ao público geral

*Estagiária sob supervisão de Silvana Salles e Antonio Carlos Quinto

**Estagiário sob orientação de Simone Gomes


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