Ação da USP em escola de jovens e adultos une letramento crítico a denúncia política por meio do jornalismo

Com foco no letramento crítico e na educomunicação, projeto de pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) transforma estudantes da periferia em repórteres

 Publicado: 13/03/2026 às 16:29     Atualizado: 16/03/2026 às 15:41

Texto: Mariana Gaia Cazassa Festa*
Arte: Gustavo Radaelli**

Sete estudantes do Cieja Butanã e Jade, educomunicadora, mostram livros em sala de aula.

Estudantes do Cieja Butantã em um dos encontros da oficina com Jade. Da esquerda para a direita: Iranisse, Joselita, Josefa, Josenildo, Jade, Camilly e Lucas – Foto: Arquivo Pessoal/Jade Castilho

A máxima de Paulo Freire de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” ganhou contornos práticos e tecnológicos no Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) do Butantã, na zona oeste da capital paulista. De março a dezembro de 2025, com três publicações, o projeto News Cieja foi o núcleo central da pesquisa de mestrado Ensinando em comunidade: intervenção educomunicativa no diálogo sobre gênero na educação de jovens, adultos e idosos, desenvolvida por Jade Castilho na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A proposta rompeu os muros da sala de aula tradicional para ajudar estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) a se encontrarem como sujeitos políticos ativos. Mais do que focar em habilidades técnicas, a iniciativa utiliza a educomunicação para converter histórias de vida em denúncias sobre o território.

A trajetória de Jade Castilho, jornalista graduada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, com licenciatura em Educomunicação pela ECA- USP, foi o ponto de partida para a práxis que hoje movimenta as noites de sexta-feira no Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) do Butantã. Ao articular sua experiência acadêmica com as pautas dos movimentos feministas, a pesquisadora propôs à coordenação do Cieja Butantã um espaço onde a escrita não fosse uma imposição, mas um direito de resposta à realidade.

“O projeto surgiu da vontade de aplicar a educomunicação em contextos de vulnerabilidade, transformando o ato de informar em uma ferramenta de cidadania”, explica Jade. O que começou como uma proposta de letramento midiático voltado a questões de gênero rapidamente se expandiu para uma redação comunitária, onde o News Cieja — nome escolhido pelos próprios estudantes — passou a pautar as angústias de quem vive e transita pelo bairro.

Jade Castilho – Foto: Reprodução/Linkedin

Práxis e resistência

O processo educativo adota uma metodologia de escrita colaborativa. Entre as 18h e 19h30, seis alunos fixos reuniam-se para pautar o que realmente importa. Em níveis distintos de domínio da linguagem, eles operam sob uma lógica de solidariedade intelectual: em duplas, os estudantes mais experientes auxiliam aqueles que estão iniciando sua jornada de apropriação da escrita.

A tecnologia serve como aliada à inclusão. Com o apoio de notebooks cedidos ao projeto, os estudantes aprenderam a diagramar o jornal no Word, desde a formatação de colunas até a inserção de fotos capturadas por eles mesmos. “É um processo de mão dupla. Eles ensinam sobre o território e eu facilito o acesso às ferramentas de comunicação”, pontua a pesquisadora.

O jornal como ferramenta política

As matérias publicadas são, além de exercícios literários, registros de denúncias. A principal pauta desta primeira etapa foi a (i)mobilidade urbana. O jornal expôs a insegurança crônica em pontos de ônibus da região — ambientes escuros e cercados por matagal — e o impacto dos atrasos sistemáticos no acesso ao direito fundamental de estudar. Além da crítica ao poder público, o News Cieja celebra o cotidiano escolar, divulgando desde a colação de grau até as histórias de vida de funcionários e alunos.

Para esses jovens e adultos, que muitas vezes tiveram o ciclo escolar interrompido pela necessidade do trabalho precoce, pela violência doméstica ou pela vulnerabilidade social, ver a própria voz estampada na parede do Cieja é uma vitória política. O projeto demonstra que o letramento, quando mediado pelo pensamento crítico, é o antídoto mais eficaz contra a invisibilidade social.

Em conversa com a aluna Josefa Lima, do Cieja Butantã e participante recorrente da oficina no ano passado, a escola é descrita como um ambiente “acolhedor e familiar”. “A gente chega lá e os professores são profissionais maravilhosos, não tem diferença de tratamento de um para o outro. A gente aprendeu a ‘dar pauta’ de jornais, fazer entrevista e trocar ‘umas ideias’ diferentes do nosso cotidiano, porque eu trabalho em casa de família e estou voltando agora para os estudos.”

Quatro estudantes e professora mostram edição do jornal em pátio externo do Cieja

Os estudantes eram responsáveis pela discussão de pauta, redação, revisão e diagramação das matérias – Foto: Arquivo Pessoal/Josefa Lima

“Foi bom! Ela [Jade] ensinou a gente a tirar fotos legais, a gente leu muitos livros sobre preconceito [de gênero]. A gente aprendeu a escrever melhor, mas a escola não tinha muito material, aí a gente improvisava. A Jade se entregou 100%”, diz Josefa. 

Futuro e continuidade

O sucesso da iniciativa no Cieja Butantã é apenas o embrião de um trabalho que Jade pretende aprofundar em seu mestrado na ECA-USP. A pesquisadora planeja consolidar o modelo de rodas de conversa educomunicativas, reafirmando o compromisso da universidade pública em atuar na ponta do sistema educacional.

Ao transformar a revolta em texto e a indignação em manchete, o News Cieja firma-se como um território de resistência, onde a conquista da escrita é, também, a conquista da cidadania. O projeto devolve aos seus repórteres a dignidade de quem compreende, finalmente, que a palavra é a ferramenta mais poderosa para exigir que a vida, nas periferias de São Paulo, seja tratada com o respeito que lhe é de direito.

Abaixo, algumas das edições do News Cieja. 

Imagem: Reprodução/News Cieja

*Estagiária sob supervisão de Antonio Carlos Quinto e Silvana Salles

**Estagiário sob supervisão de Simone Gomes


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