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Pesquisa e inovação para ampliar o impacto social da Universidade
Nova pró-reitora de Pesquisa e Inovação defende a multidisciplinaridade, a ciência aberta, o diálogo ativo com a sociedade e a inovação para melhorar a qualidade de vida da população
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Desde 2022, quando a inovação passou a fazer parte da nomenclatura da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI), antes chamada apenas de Pró-Reitoria de Pesquisa, o tema passou a ser considerado uma das prioridades da estrutura de gestão da USP, que vem ampliando seus instrumentos institucionais para transformar conhecimento científico em valor social e econômico. Para a nova pró-reitora, Maria Helena Palucci Marziale, “produtos tecnológicos, processos, aplicações sociais sempre fizeram parte da pesquisa na USP. O que inexistia era um sistema integrado, um conjunto organizado de informações e estruturas que permitisse identificar, fortalecer e ampliar esse grande potencial de inovação”, afirma.
Segundo ela, “a consolidação desse ecossistema está em curso. Embora a pesquisa da USP seja amplamente reconhecida, inclusive por rankings internacionais, a inovação exige um esforço adicional de articulação e há espaço para expansão, pois hoje nós temos os instrumentos para isso”.
Nesse sentido, a inovação não se restringe à tecnologia de ponta. “Muita gente associa inovação apenas à tecnologia hard. Mas inovação também é impacto social, é resultado aplicado, é política pública, é melhoria concreta na vida das pessoas.” A pró-reitora destaca que a missão institucional da USP busca justamente a conversão do conhecimento científico de fronteira em valor social e econômico.
A visão da nova gestão parte de uma pergunta central: por que a Universidade faz pesquisa? “Para impulsionar o avanço científico e tecnológico do País, formar profissionais críticos, promover a inovação, solucionar problemas da sociedade melhorar a qualidade de vida das pessoas”, responde, ressaltando que “essa qualidade de vida deve ser entendida de forma ampla: moradia, saúde, educação, alimentação, trabalho e bem-estar social”.
Comunicação da ciência
Um dos pilares dessa consolidação passa pela comunicação científica, entendida não apenas como divulgação, mas como processo ativo de diálogo. Para a pró-reitora, houve uma mudança de paradigma nos últimos anos, intensificada durante a pandemia. “Antes, havia a ideia de que a USP produzia conhecimento para o nicho específico de cientistas e estudantes. Hoje isso não existe mais.”
Segundo Maria Helena, comunicar ciência implica decodificar a linguagem acadêmica e qualificar a informação para públicos diversos. “Não basta divulgar. É preciso traduzir o conhecimento científico para quem não fala a linguagem da ciência.” Essa perspectiva está diretamente relacionada à agenda da ciência aberta e à democratização do acesso à informação científica.
“Se a gente pode informar, por que permitir a circulação de desinformação e fake news?”, questiona. Para ela, tornar os resultados das pesquisas mais acessíveis é também uma forma de fortalecer o papel social da Universidade e de ampliar o impacto das inovações geradas.
A comunicação, para a PRPI, opera em dois níveis complementares. O primeiro é interno: melhorar a interação entre a Pró-Reitoria, pesquisadores, gestores, presidentes de colegiados e diretores de unidades. O segundo é externo: dialogar com a sociedade e com formuladores de políticas públicas de forma ativa.
“Não se trata apenas de divulgar o que já fazemos, mas de ouvir”, explica. Para Marziale, a Universidade precisa conhecer melhor as demandas sociais para orientar suas agendas de pesquisa. “Não adianta produzir conhecimento que não seja utilizado ou transladado, no caso da pesquisa aplicada”.
Essa aproximação envolve diferentes atores: lideranças comunitárias, setor produtivo, entidades da sociedade civil e atores políticos. “Trazer essas pessoas para dentro da Universidade e também estar presente nos espaços onde elas discutem políticas públicas é fundamental.”
Outro eixo central da gestão é o estímulo à pesquisa multidisciplinar. Para a professora, a complexidade dos problemas contemporâneos exige a integração de diferentes áreas do conhecimento. “Essa é uma bandeira para nós.”
A USP já avançou com a criação de grandes centros de pesquisa interdisciplinares, ligados à Reitoria, iniciativa iniciada na gestão anterior e que terá continuidade. À PRPI cabe o papel de articulação, acompanhamento e apoio. “Nosso trabalho é fazer o meio de campo, acompanhar resultados e ajudar esses centros a buscarem financiamento e impacto.”
A ampliação desse modelo, segundo a pró-reitora, fortalece a capacidade da Universidade de responder a demandas sociais complexas e de produzir resultados mais abrangentes.
Estruturas de pesquisa multidisciplinar
Ao mesmo tempo, estruturas institucionais já existentes, como o Centro de Inovação (InovaUSP) e a Agência USP de Inovação (Auspin), são consideradas elementos centrais no desenvolvimento da inovação e da pesquisa de ponta em diálogo com a sociedade. A elas deve-se somar o Instituto Internacional de Inovação (I3), que está sendo criado para articular excelência acadêmica, conhecimento multidisciplinar e capacidade de execução tecnológica em um único espaço institucional voltado à inovação de alto impacto. Mais do que um espaço físico de colaboração, o local terá um modelo de governança voltado à interdisciplinaridade, congregando empresas, startups, agências de fomento, centros de pesquisa e unidades da USP, no desenvolvimento de soluções tecnológicas. “Cada uma atua em uma dimensão específica, da proteção intelectual à articulação com parceiros externos”, explica.
Um destaque especial entre os projetos da nova gestão da PRPI é um programa de residência em inovação que buscará promover de forma mais intensa a convivência entre pesquisadores, estudantes e atores externos. “O empreendedorismo se constrói nesse ambiente de troca. Não é apenas contrato ou patente, é convivência, é criação conjunta.”
Para a pró-reitora, a marca da inovação da USP está presente em inúmeras iniciativas que impactam o cotidiano da população, muitas vezes sem que a sociedade reconheça sua origem. “Há produtos, serviços e empresas que fazem parte do dia a dia das pessoas e têm DNA USP. Precisamos mostrar isso e ao mesmo tempo estimular o surgimento de muitos outros.”
A pró-reitora destacou o papel do InovaUSP, da Auspin e do I3 no desenvolvimento da pesquisa multidisciplinar e da inovação na Universidade
Essa perspectiva se conecta à experiência de Maria Helena Marziale à frente do Alumni USP, iniciativa voltada aos egressos da Universidade que ela coordenou nos últimos quatro anos. Segundo ela, o contato com ex-alunos permitiu visualizar de forma concreta como a pesquisa e a formação oferecidas pela instituição se desdobram em impacto social. “Ali a gente consegue enxergar onde o conhecimento produzido aqui chega, como ele se transforma em soluções, políticas públicas, inovação e melhoria da qualidade de vida das pessoas”, afirma. Para a pró-reitora, essa vivência reforçou a importância de mensurar melhor os resultados da pesquisa e de tornar mais visível para a sociedade o papel da USP na formação de profissionais que atuam em diferentes áreas estratégicas.
A nova gestão aposta fortemente em metas e indicadores para direcionar o crescimento da área na Universidade. “Precisamos saber onde queremos chegar e como avaliar se estamos avançando.”
Nesse contexto, ganha destaque o desafio de mensurar o impacto social das pesquisas. “Sabemos que existem resultados maravilhosos, mas ainda conhecemos pouco do impacto real das pesquisas da USP na vida das pessoas. A própria avaliação da pós-graduação, conduzida por agências como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tem incorporado essa dimensão.”
A PRPI pretende avançar na identificação e sistematização desses impactos, tanto científicos quanto sociais, para orientar políticas institucionais e ampliar a transparência.
A formação de novos pesquisadores também ocupa lugar central. Programas de iniciação científica, pós-doutorado e apoio a jovens docentes são vistos como estratégicos. A pró-reitora destaca, por exemplo, a ampliação de bolsas de iniciação científica por meio de parcerias externas e fundos patrimoniais.
“Quando o aluno entra em contato com a pesquisa desde cedo, isso transforma sua trajetória.” Para ela, essas experiências fortalecem o sentimento de pertencimento, inclusão e identidade com a Universidade.
Durante a gestão, Maria Helena Palucci Marziale contará com Carlos Eduardo Pellegrino Cerri como pró-reitor adjunto de Pesquisa. Engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), é mestre em Solos e Nutrição de Plantas pela mesma unidade, doutor em Ciências Ambientais pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e realizou pós-doutorado em biogeoquímica na Colorado State University. É professor titular da Esalq e coordenador do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon).
Na área de inovação, o pró-reitor adjunto será Norberto Peporine Lopes. Farmacêutico, com mestrado em Insumos Farmacêuticos e doutorado em Química pela USP, realizou pós-doutorado em Espectrometria de Massas na Universidade de Cambridge. É professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP), coordenador do INCTNature – Soluções e Inovações Baseadas em Produtos Naturais e fundador do Nidus, a primeira residência em inovação do País.
Quem é
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Maria Helena Palucci Marziale é bacharel em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP), onde é hoje professora titular. É especialista em administração hospitalar, mestre em Psicobiologia, doutora em Enfermagem e com aperfeiçoamento em Ergonomia.
Sua atuação acadêmica concentra-se nas áreas de saúde do trabalhador, ergonomia e gestão em editoração científica. Na gestão universitária, foi diretora da EERP, coordenadora do Escritório Alumni USP, membro da Comissão de Avaliação Docente e chefe de Departamento, além de atuar na gestão da Comissão de Cultura e Extensão Universitária e em Programa de Pós-Graduação da EERP.
*Estagiário sob orientação de Simone Gomes
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