
O verde e amarelo ganhou as ruas de capitais europeias, estampou editoriais de moda e passou a ocupar vitrines internacionais. O que, para muitos brasileiros, é parte do cotidiano — da camiseta da seleção aos chinelos e às referências tropicais — reaparece no exterior como estética desejada e conceito fashion sob o rótulo de Brazil Core. A tendência, que transforma signos culturais em linguagem global, reacende discussões sobre identidade, mercado e as fronteiras entre valorização e apropriação cultural.
Elementos associados à cultura popular e periférica passam a circular em novos contextos, muitas vezes desconectados de suas origens sociais. Para o professor Marco Antônio de Almeida, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, esse tipo de deslocamento faz parte de dinâmicas históricas de trocas culturais. “Desde sempre, se pegarmos o exemplo da música, o rap, ele se alimenta justamente de uma cultura negra periférica norte-americana, depois ela é incorporada globalmente.”
Segundo o professor, quando esses símbolos atravessam fronteiras, seus significados se ampliam e se transformam, impactando a cultura mais ampla.
Estética, mercado e validação externa
A circulação internacional desses elementos também envolve disputas simbólicas e interesses econômicos. “De um lado, nós temos elementos que efetivamente promovem uma mudança cultural, mas também existem questões que são puramente estéticas, atendendo a modismos, a uma dinâmica de mercado, em que esses conteúdos são consumidos apenas de uma forma puramente comercial e estética”, afirma o professor.

Para Almeida, nesse cenário em que os símbolos brasileiros passam a ser desejados globalmente, muitas vezes podem ser impulsionados por uma lógica de validação externa. “É uma revitalização do próprio país e da América Latina nesse mesmo bojo. Vemos fenômenos que deixam isso muito claro, esse aspecto do Brasil com o uso da camiseta da seleção e chinelo Havaianas, valores vivenciados no nosso país que passam a ser demandados.”
O professor explica que essa validação pode alterar a forma como os próprios brasileiros percebem determinados produtos e referências culturais. “No caso do Brasil e dessa tendência, uma outra questão que se coloca é um pouco também a ideia de uma validação externa, por exemplo, as Havaianas, que ninguém dava muita bola antigamente, era uma coisa meio esportiva e casual. Quando lá no Fashion Week de Copenhague aparece o pessoal calçando o chinelo no desfile, na alfaiataria, você tem uma validação externa que faz com que o público do Brasil passe a encarar esses chinelos como um símbolo de estilo, legitimado internacionalmente”, evidencia Almeida.
Moda como narrativa e consumo simbólico
Se, por um lado, a circulação envolve mercado e validação, por outro ela também opera no plano dos significados. Para a professora Maria Clotilde Perez, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, é no reconhecimento imediato que está o poder do símbolo. “Eu bato o olho e sei o que significa. O símbolo tem essa capacidade de síntese, de aglutinar significados muito potentes e que são partilhados.”

De acordo com a professora, o fenômeno apresenta como a moda constrói narrativas sobre países e identidades. “Uma das características da tendência são as estampas, com frutas, plantas e flores, estilos muito próprios do verão, mas também aspectos relacionados às cores da bandeira, ou seja, os signos institucionais. Com isso, elementos da cultura material de consumo e até marcas brasileiras entram dentro desse grande conjunto expressivo da tendência.”
A pesquisadora destaca que o consumo não se restringe à aparência. “Consumir a estética pode ser apenas um comportamento ligado à moda, à febre das redes sociais ou as trends. No entanto, ao consumir, algo do fenômeno expressivo do plano sensível, as cores, formas e significados também ficam. Não dá para nós dizermos que não há através da estética uma ampliação de conhecimento acerca do que se passa no nosso país.”
Maria Clotilde observa ainda que determinados itens carregam vínculos históricos e afetivos: quando é consumida, por exemplo, uma camiseta, como a da seleção brasileira, está incluída uma relação que o brasileiro tem com o futebol e com o esporte.
“Mesmo essa estética mais relacionada à moda diz também sobre aspectos da nossa identidade. Com as redes sociais, os fenômenos estão cada vez mais autênticos, com uma atuação expressiva das grandes marcas que têm uma perspectiva internacional, como a própria Havaianas, que se beneficia disso, mas há espaço também para as manifestações realmente populares que podem ganhar visibilidade por conta dessa redução de intermediações com o crescimento das redes sociais”, explica a professora.
Entre valorização e apropriação
O debate sobre apropriação cultural aparece como um dos principais pontos de tensão. A visibilidade internacional pode ampliar o alcance da cultura brasileira, mas também pode reforçar estereótipos.
Almeida afirma que, na perspectiva das ciências sociais, é uma dinâmica que envolve atritos e trocas culturais desde sempre. “Esse olhar do colonizador tende a exotizar a imagem do outro. Dentro do próprio Brasil, temos uma estereotipação entre regiões; por exemplo, as pessoas do Sudeste têm uma visão estereotipada das pessoas do Nordeste e vice-versa.” Para o professor, o problema surge quando o olhar permanece superficial e não reconhece a complexidade social envolvida.
Além das disputas simbólicas, Almeida destaca que há desigualdades concretas na cadeia produtiva da moda. “Quem ganha sempre é a indústria cultural, é o mercado, porque de alguma maneira eles vão estar se apropriando, vendendo e lucrando com isso. No caso dos grupos, especificamente, vinculados àquela cultura ou produção, a questão pode assumir diversas situações. Você pode ter grupos que possuem uma capacidade interna de organização maior que lhes permite reivindicar ou discutir em fóruns a questão da legitimidade, da propriedade intelectual, e grupos que já não possuem essa mesma organização, que tendem muitas vezes a ter ganhos marginais ou então às vezes não ter ganho nenhum, serem efetivamente explorados.”
Para o especialista, a questão do reconhecimento vai da articulação dos grupos e das culturas envolvidas no processo. “No caso da moda, sabemos que existe uma divisão social da produção que é bastante marcada, com os circuitos, em que você tem os estilistas, produtores e as indústrias, mas você também tem ali na ponta os trabalhadores. Esses funcionários, sendo altamente explorados, como no Brasil, com muitos imigrantes ilegais, eles trabalham justamente na indústria têxtil, produzindo a matéria-prima desta indústria da moda. Eles são, digamos, a ponta fraca do processo, tanto em termos da divisão social do trabalho, como também desse reconhecimento cultural, que acaba sendo muitas vezes marginal.”
*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


























