Enamed: o topo da formação médica realça a importância e o papel do ecossistema público de ensino no Brasil

Por Valdes Roberto Bollela, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP

 24/02/2026 - Publicado há 2 meses
Valdes Roberto Bollela – Foto: Arquivo pessoal
O Enamed (modalidade do Enade para Medicina) estreou como um termômetro nacional de desempenho e virou, rapidamente, peça de política pública: além de avaliar cursos, o resultado foi associado a medidas de supervisão e ao debate sobre qualidade na formação médica. Como todo instrumento novo, há risco de ser reduzido a “ranking de torcida”. Mas ele também abre uma janela rara para uma pergunta estrutural: onde está concentrada a excelência e quais instituições sustentam a infraestrutura acadêmica e assistencial que torna a formação médica e a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) possíveis?

Na planilha oficial do MEC/Inep para Medicina, o País teve 49 cursos com conceito 5 e 114 com conceito 4, num total de 352 cursos avaliados. O recorte mais informativo é a distribuição institucional no topo:

• Conceito 5: 40 de 49 cursos (≈82%) são de IES públicas;
• Conceito 4: 64 de 114 cursos (≈56%) são de IES públicas;
• Conceitos 4+5: 104 de 163 cursos (≈64%) são públicos.

O ponto crucial é que, no universo total avaliado, as IES públicas são minoria no País, após o crescimento desordenado das escolas médicas privadas, com fins lucrativos e de qualidade questionável. Ainda assim, as escolas públicas aparecem  sobrerrepresentadas entre os conceitos mais altos. Isso não prova causalidade, mas sustenta uma conclusão descritiva robusta: o ecossistema público segue sendo um eixo de qualidade na formação médica, mesmo num sistema em que a oferta é majoritariamente privada.

A leitura mais produtiva não é “público versus privado”. É interdependência. Formação médica de alta qualidade depende de campo de prática, preceptoria, cultura acadêmica, titulação docente, pesquisa e serviços capazes de absorver ensino. Aqui entra um dado particularmente relevante que precisa ser destacado, para além da clivagem institucional: quem coordena os cursos não públicos que performam bem — e onde essa liderança se formou.

• Conceito 5 (não públicas): 9 cursos não públicos; em 7/9 (≈77,8%), o(a) coordenador(a) tem graduação e/ou pós-graduação em universidade pública brasileira;
•  Conceito 4 (não públicas, com coordenação identificada): confessionais e sem fins lucrativos: 14/16 (87,5%) com coordenação formada (graduação e/ou pós) em universidade pública / com fins lucrativos: 22/24 (≈91,7%) com coordenação formada (graduação e/ou pós) em universidade pública.

Esses percentuais devem ser lidos com transparência metodológica: no conceito 4, eles se aplicam ao subconjunto em que a coordenação foi identificada e teve trajetória verificável. Mesmo assim, o padrão é forte e consistente com a hipótese: parte expressiva do desempenho do setor não público está ancorada em capital acadêmico produzido no sistema público (formação de lideranças, pesquisa e pós-graduação).

Essa discussão ganha densidade quando lembramos um fato frequentemente ausente do debate público: a universidade pública é a principal engrenagem da pesquisa no Brasil. Isso tem implicações diretas para a Medicina: pesquisa produz protocolos, métodos, inovação, formação de docentes e preceptores — e alimenta a circulação de quadros para o setor privado, para empresas, para serviços e para a gestão acadêmica.

Defender a universidade pública, portanto, não é “romantizar” o Estado: é reconhecer uma infraestrutura nacional que o País inteiro usa — inclusive quem escolhe estudar ou investir no ensino privado. Em saúde, isso aparece de forma concreta. No cuidado das pessoas vivendo com HIV/aids, por exemplo, instituições públicas como a Fiocruz (Farmanguinhos) são parte central da resposta brasileira, inclusive na produção e no acesso a antirretrovirais. Na oncologia, centros universitários públicos têm impulsionado a medicina de precisão e terapias avançadas: a USP, por exemplo, relatou a aplicação pioneira na América Latina de imunoterapia com células T modificadas (CAR-T) em casos onco-hematológicos. E, no campo de vacinas, institutos públicos ligados ao sistema universitário e ao SUS foram decisivos: o Instituto Butantan conduziu estudos clínicos e a produção nacional da CoronaVac e desenvolveu a Butantan-DV, vacina brasileira contra dengue; já a Fiocruz internalizou e produziu no País a vacina Oxford/AstraZeneca contra a covid-19, sem mencionar o que o SUS fez e continua fazendo para manter o Brasil como uma referência internacional no cuidado de pessoas vivendo com HIV/aids.

É por isso que chama a atenção — e merece resposta firme — o tipo de desqualificação genérica que apareceu em matéria do NaTelinha/UOL, ao relatar declaração do ex-jogador Túlio Maravilha e de sua esposa de que não permitem que a filha vá para uma universidade federal para “manter valores familiares”, sugerindo que a universidade privada estaria mais alinhada a “princípios da família” e com comentários depreciativos como: “A Federal aqui no Rio, infelizmente, está bem precária, tem greve, vários meses parada” e “Bem precária, tá caindo aos pedaços”.

Não há problema algum em escolher universidades privadas. Essa escolha é legítima por razões pedagógicas, logísticas, culturais ou econômicas. O problema é transformar a universidade pública em caricatura moral — como se fosse um ambiente intrinsecamente incompatível com valores ou indigno. Esse tipo de frase não é só deselegante: é desinformativa, porque apaga o papel histórico e atual da universidade pública gratuita como produtora de conhecimento, formadora de recursos humanos qualificados e base de sustentação do próprio sistema privado em áreas como saúde, ciência e tecnologia.

Os dados do Enamed/Conceito Enade em Medicina reforçam esta posição: no topo do desempenho, o público aparece de maneira dominante; e, dentro do não público, a liderança acadêmica frequentemente tem formação pública. Isso não exige idolatria — exige honestidade intelectual.

O Enamed não é uma avaliação que tem como propósito ranquear escolas médicas, mas sim avaliar, mesmo que de maneira ainda incompleta, a qualidade das escolas médicas do País. E para isso utiliza uma avaliação de conhecimento que é bem elaborada. O Enamed veio para ficar, e ele deveria servir menos para guerra cultural e mais para uma agenda objetiva de qualidade:

1. Transparência obrigatória: coordenação do curso, Projeto Pedagógico do curso alinhado às diretrizes curriculares nacionais, campos de prática adequados, rede conveniada e credenciais docentes acessíveis e verificáveis;
2. Expansão condicionada à capacidade real de formar em serviço: preceptoria qualificada, internato e serviços com densidade assistencial compatíveis com a necessidade da formação médica e governança acadêmica especializada;
3. Fortalecimento do ecossistema público (universidades, hospitais universitários, pós-graduação e residência) como infraestrutura nacional que eleva o padrão de todo o sistema — inclusive do setor privado.

Em um país desigual, desqualificar a universidade pública gratuita não é “opinião”: é descompromisso com evidência e com o interesse público. O debate maduro começa quando se troca preconceito por dados — e quando se reconhece que a universidade pública não é um “lugar”: é uma das principais formas de o Brasil produzir ciência, formar pessoas e sustentar seu desenvolvimento.

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