Desafios e aprendizados na direção de uma unidade de ensino da USP

Por Ricardo Ricci Uvinha, diretor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP de 30 de janeiro de 2022 a 29 de janeiro de 2026

 30/01/2026 - Publicado há 3 meses
Ricardo Ricci Uvinha – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Dirigir uma unidade de ensino da USP com o porte, a complexidade e a singularidade institucional da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) é uma experiência profundamente transformadora. Trata-se de um exercício permanente de escuta, diálogo, negociação, mediação de conflitos, planejamento estratégico e tomada de decisões responsáveis, sempre orientadas pelo compromisso com a universidade pública, gratuita, inclusiva e socialmente referenciada.

A EACH nasceu com uma proposta pedagógica e institucional inovadora, sem departamentos, organizada em torno da interdisciplinaridade, de um Ciclo Básico comum a todos os cursos e de uma forte articulação com o território da Zona Leste de São Paulo. Essa concepção, ao mesmo tempo em que representa uma enorme potência acadêmica, impõe desafios cotidianos à gestão, sobretudo quando consideramos a dimensão atual da unidade: são 11 cursos de graduação, 11 programas de pós-graduação, cerca de 3.800 estudantes de graduação, aproximadamente 700 pós-graduandos, 265 docentes e 179 funcionários técnico-administrativos.

Nesse contexto, a ausência de departamentos exige modelos de governança mais horizontais, processos decisórios altamente colegiados e uma intensa articulação entre áreas, cursos e setores administrativos. A gestão passa, necessariamente, por um trabalho contínuo de construção de consensos, respeito à diversidade de projetos acadêmicos e fortalecimento da identidade institucional comum. Trata-se de um equilíbrio delicado entre autonomia, integração e coesão, que demanda sensibilidade política, clareza institucional e profundo compromisso público.

Minha trajetória na EACH se confunde com a própria história da unidade. Ingressei em 2005, integrando a primeira equipe de docentes contratados, vivi o período inaugural, acompanhei a criação e consolidação dos cursos e programas, a expansão da pesquisa, o fortalecimento da extensão universitária e a crescente inserção social da escola. Ao longo desses mais de 20 anos como docente da USP, tive a honra de construir minha carreira acadêmica integralmente na EACH, defendendo aqui minha livre-docência em 2008 e tornando-me professor titular em 2019.

Nos últimos oito anos, atuei diretamente na gestão da unidade, primeiro como vice-diretor (2018–2022) e, posteriormente, como diretor (2022–2026). Neste segundo mandato, assumi também a Presidência do Conselho Gestor do Campus Área Capital Leste, uma função estratégica para o fortalecimento do diálogo permanente com a Prefeitura do Campus, com a comunidade universitária e, sobretudo, com a comunidade externa da Zona Leste de São Paulo. Essa atuação ampliou ainda mais a responsabilidade institucional da direção, exigindo articulação constante entre ensino, pesquisa, extensão, infraestrutura, segurança, mobilidade, cultura e políticas de inclusão.

Foram dois mandatos marcados por desafios institucionais complexos, atravessados por greves e paralisações, mudanças profundas em compras e licitações e, especialmente, pelo impacto da pandemia da covid-19, que exigiu respostas rápidas, solidárias e inovadoras.

Dirigir uma unidade de grande porte e sem departamentos exige, acima de tudo, capacidade de liderança compartilhada. Nenhuma gestão se sustenta sem equipes comprometidas, professores engajados e estudantes participativos. Ao longo desse período, investimos fortemente na valorização das pessoas, no fortalecimento dos serviços acadêmicos, na ampliação da permanência estudantil, no desenvolvimento da nossa internacionalização, na implementação de novos laboratórios, na modernização da infraestrutura e na consolidação de políticas institucionais voltadas à inclusão e diversidade.

Entre 2022 e 2026, realizamos 116 concursos docentes (incluindo concursos para professores efetivos, temporários, de livre-docência e titular), fortalecendo de forma expressiva o quadro acadêmico da unidade, além da contratação de novos funcionários, fundamentais para a qualificação dos serviços prestados à comunidade. Expandimos espaços físicos, inauguramos novos equipamentos e ampliamos serviços noturnos, respeitando o perfil trabalhador de boa parte dos nossos estudantes.

A EACH é hoje um polo estratégico de desenvolvimento humano, social e econômico da Zona Leste. Seus projetos de ensino, pesquisa e extensão impactam diretamente milhares de pessoas, promovendo cidadania, inclusão, sustentabilidade e inovação. Essa inserção territorial, entretanto, também impõe à gestão desafios adicionais: dialogar permanentemente com as demandas sociais, articular políticas públicas, estabelecer parcerias institucionais e fortalecer o papel da universidade como agente transformador da realidade.

Gerir uma unidade sem departamentos, nesse cenário, exige criatividade institucional, abertura permanente ao diálogo e disposição para a construção coletiva. Significa aprender continuamente, revisar processos, acolher críticas, enfrentar resistências e buscar soluções inovadoras para problemas estruturais. É, sobretudo, um exercício constante de responsabilidade pública.

Não poderia encerrar esse ciclo sem registrar meu profundo agradecimento às pessoas e aos entes institucionais que tornaram essa trajetória possível. Às minhas parceiras na direção da EACH, professora Mônica Yassuda (2018-2022) e professora Fabiana Evangelista (2022-2026), deixo meus agradecimentos pela competência, sensibilidade institucional e superação cotidiana dos inúmeros desafios enfrentados ao longo desse período.

Registro também meus sinceros agradecimentos ao professor Vahan Agopyan, reitor da USP entre 2018 e 2022, e ao professor Antônio Carlos Hernandes, vice-reitor no mesmo período, bem como ao professor Carlos Gilberto Carlotti Junior, reitor da USP entre 2022 e 2026, e à professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora nesse mandato, além de todos os membros dos órgãos centrais, pelo apoio permanente, pelo diálogo respeitoso e pelo compromisso institucional com a EACH ao longo desses oito anos de gestão.

Desejo pleno êxito à nova direção da EACH, composta pelos professores Marcelo Fantinato e Graziela Perosa, e à nova gestão reitoral da USP, formada pelos professores Aluisio Segurado e Liedi Bernucci, com votos de uma trajetória pautada pela sensibilidade social, pelo fortalecimento da universidade pública, pela valorização das pessoas e pelo compromisso permanente com a qualidade acadêmica.

Concluir esse ciclo de oito anos na gestão, após mais de duas décadas dedicadas à EACH, é um momento de profunda emoção, gratidão e reflexão. Levo comigo aprendizados valiosos, relações humanas construídas com afeto e respeito, e a convicção de que a EACH seguirá cumprindo, com excelência, sua missão institucional.

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