Curiosamente, uma grande parcela dos brasileiros acredita conhecer suas prisões, não por meio de pesquisa científica, mas pela ficção. Séries, documentários e produtos culturais, em grande parte ambientados nos sistemas paulista e carioca, que criam uma imagem icônica do cárcere nacional. Essa iconografia molda as percepções públicas, influencia os debates políticos e alimenta as narrativas de segurança. Mas a ficção captura apenas a superfície, não evidenciando as micropolíticas cotidianas, as formas subterrâneas de participação, a participação social e as mediações institucionais frágeis ou resilientes.
É justamente nessas camadas invisíveis que minha pesquisa se insere. O cárcere, observado pelas lentes combinadas da USP e de Harvard, revela-se não como um cenário estático de violência ou punição, mas como uma engrenagem complexa que conecta o Judiciário, o Executivo e a sociedade civil. Nesse espaço, quase sempre ignorado pelo olhar público, os Conselhos da Comunidade ganham centralidade.
Embora tenham sido impulsionados nacionalmente apenas após a ADPF 347, em 2015, quando o STF reconheceu o “estado de coisas inconstitucional” do sistema prisional, sua origem remonta à experiência pioneira iniciada em 1970 na cidade de Porto Alegre. Porém, somente em 1984, com a promulgação da Lei de Execução Penal (LEP), essa forma de participação passou a integrar formalmente o desenho institucional brasileiro. Por outro lado, nos Estados Unidos, estruturas similares, os Inmate Councils, possuem registros oficiais desde a década de 1930, o que revela uma trajetória mais longa de institucionalização da participação intramuros.
Essa comparação histórica e institucional permite compreender por que mecanismos considerados periféricos na política penal brasileira, mas centrais e consolidados em outras tradições, produzem efeitos tão concretos no cotidiano prisional. É justamente nessas instâncias discretas, frequentemente negligenciadas pelo debate público, que emergem atores fundamentais para a mediação de conflitos, a estabilização das rotinas e a produção de soluções que o Estado, sozinho, não consegue formular. Trata-se de um universo de práticas silenciosas, porém decisivas, que sustentam o funcionamento diário das prisões e revelam a complexidade real desse sistema.
A ida para o exterior geralmente é associada ao prestígio, mas a realidade expõe um paradoxo: internacionalização e democratização seguem caminhando em direções opostas. Boston/Cambridge, sétima cidade mais cara do mundo, segundo a Numbeo, impõe custos que extrapolam qualquer margem de segurança financeira. A bolsa da Capes, fixada em US$1.700 por mês (US$1.300 – mensalidade + US$400 – cidades de alto custo), desempenha um papel indispensável, mas insuficiente para assegurar condições mínimas de moradia, alimentação e deslocamento. Essa desproporção material revela um problema estrutural: a internacionalização acadêmica, celebrada como eixo estratégico de formação, permanece distante da democratização e do acesso amplo.
Somam-se a isso o impacto emocional da mudança, a solidão, o esforço contínuo de produzir ciência em outro idioma e o peso simbólico de transitar entre realidades marcadas por desigualdades históricas e institucionais. Mas é justamente desse estranhamento, dessa fricção entre mundos, que emerge um olhar renovado. Seminários, leituras coletivas e diálogos com pesquisadores de diversas tradições teóricas ampliam horizontes, tensionam certezas e permitem reinterpretar o Brasil sem a névoa da familiaridade, que tantas vezes obscurece o essencial.
Cumpro, assim, a função pública da pesquisa: devolver à sociedade brasileira conhecimento crítico sobre um tema que atravessa a segurança, o orçamento e a própria cidadania. Popularizar ciência, iluminar o que permanece estruturalmente ocultado e qualificar o debate público sobre o sistema penal não são apenas tarefas acadêmicas; são compromissos éticos que acompanham o pertencimento à USP. E tais compromissos tornam-se ainda mais urgentes quando atravessados por experiências internacionais que expõem desigualdades, tensionam certezas e ampliam a compreensão das instituições.
No Brasil, a ficção produziu um imaginário poderoso sobre o cárcere. Mas enquanto as narrativas televisivas constroem um mundo de violência estilizada e dramatizações sazonais, o cotidiano das prisões invisíveis, aquelas que não aparecem nas séries, nos filmes ou nos debates televisivos, continua sendo pouco estudado, pouco compreendido e pouco reconhecido. É justamente esse Brasil subterrâneo que a pesquisa precisa revelar: não o cárcere dos famosos, o cárcere da performance, mas o cárcere das rotinas, das micropolíticas, das mediações silenciosas que sustentam ou corroem o sistema.
Por fim, o que se desvela é simples e profundo: o cárcere vai muito além da ficção. E somente a pesquisa comprometida com a realidade, aquela feita com rigor, mas também com os pés fincados no cotidiano, é capaz de revelar o que realmente estrutura, transforma ou fragiliza o sistema prisional brasileiro. É nesse encontro entre mundos, entre instituições e entre perspectivas que o Brasil pode finalmente enxergar suas prisões como são, e não como foram roteirizadas para parecerem.
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