

O que é o amor a não ser o gosto de ensinar jornalismo”, declamava o pesquisador e professor Enio Moraes Júnior (1968-2025) durante as longas conversas na cozinha de sua residência. Os encontros com os amigos eram decorados por sua sabedoria e, também, pelo velho conjunto esmaltado de cor azul que continha um bule e quatro xícaras.
O café era feito no coador de pano como um elixir para iniciarmos o debate sobre a pedagogia do jornalismo. Nossa discussão girava em torno da sala de aula que, para ele, era a simples reprodução das quase extintas “redações”. Sua metodologia era caracterizada pela descoberta do talento escondido, como se não existissem “bons ou ruins”. Era como se o Enio pegasse, sutilmente, nas mãos daqueles estudantes ensinando a arte do jornalismo. Ele tinha o dom e a certeza de que poderia transformá-los em repórteres.
Certa vez, revelou que a turma de um curso de pós-graduação ficava “olhando no celular” sem prestar atenção ao conteúdo da aula. Rapidamente, ele interagiu com o grupo que, em pouco tempo, começou a desenvolver técnicas de postagem sobre o uso do mobile em sala de aula. A partir dali, tornaram-se amigos dentro e fora das redes.
O amor pelo ensino do jornalismo começou a ganhar adeptos desde o início da sua jornada, passando pela defesa da tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, até a consolidação como professor de jornalismo. A Universidade Federal de Sergipe (UFS) assim resumiu sua passagem pela instituição entre 1995 e 2002: “Enio foi um dedicado professor, profissional competente, amável e muito estimado pelo corpo docente e discente, com atuação fundamental nos primeiros anos de estruturação e reconhecimento dos cursos do Departamento de Comunicação da UFS”.
Seu orientador no mestrado e no doutorado foi José Coelho Sobrinho, um dos pioneiros do curso de Jornalismo na USP, a quem Enio admirava por estimulá-lo a práticas como a que está descrita na tese de livre-docência Do que somos capazes!: relato de uma experiência pedagógica, defendida por Sobrinho em 2011, na Escola de Comunicações e Artes da USP.
Sua militância pela sala de aula foi muito além da técnica e da tecnologia, porque evidencia o compromisso com o interesse público e a cidadania, fundamentos basilares da chamada Escola Ecana de Jornalismo.
O resultado de suas pesquisas está no livro Formação de Jornalistas: elementos para uma pedagogia de ensino do interesse público. Logo após essa publicação, o autor concedeu uma entrevista que foi publicada na revista Comunicação, Cultura e Sociedade, em 2011. Em uma das perguntas, Enio foi questionado sobre o que procurava transmitir aos seus alunos. A resposta resume o pensamento de um dos últimos pesquisadores que viam a sala de aula não apenas como um laboratório, mas também como um espaço para o desenvolvimento da redação e do estilo sem a necessidade de manuais:
“Ser professor não é simplesmente estar com os alunos, todos os dias, em sala de aula. É ‘encontrar-se’ com cada um, um ‘encontro’ assim mesmo, entre aspas. Isso é que deveria ser a verdadeira educação. Vinicius de Moraes dizia que, ao longo da vida, a gente não faz amigos, mas a gente os reconhece. Parodiando-o, eu diria que o professor tem que aprender a reconhecer seu aluno, perceber que com o aluno a gente não está, a gente ‘se encontra’ em um espaço onde há quase que um acordo pressuposto, pré-estabelecido, de boa vontade. E esse acordo pressupõe que o trabalho do professor não é ensinar, mas oferecer ao aluno elementos para que ele seja capaz de aprender e de amadurecer para a vida. No meu caso, procuro transmitir aos meus alunos segurança para enfrentar os desafios da profissão e até mesmo da vida. Há algumas máximas que costumo usar em sala de aula. Uma delas, que costumo repetir nos primeiros encontros, é que não estou ali para dar respostas, mas para provocar perguntas que eles mesmos terão que responder e para as quais eu procurarei apenas mostrar caminhos. Acho que o professor tem que ser um mobilizador astucioso que ‘encontra-se’ com o aluno que está à sua frente e lhe fornece instrumentos para que ele, eventualmente, seja o melhor agente possível em favor dos seres humanos. Nesse sentido, o que eu mais procuro transmitir aos meus alunos é um sentimento de segurança e bem-estar diante de um mundo em que nada está pronto e em que tudo está e estará, sempre, por fazer, e que parte desse fazer está nas mãos deles”.
Sua última luta era contra o levante proclamado por políticas xenofóbicas. Em uma parceria com o Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC), ele reuniu jornalistas que abordaram a questão no livro Remolinos: histórias de migrantes latino-americanos na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. Uma dos autores do livro, Daniel Ladeira, assim resumiu a morte de Enio Moraes Júnior no último dia 27 de dezembro de 2025, em Berlim, na Alemanha:
“Hoje, para além de perder um amigo tão querido, eu escolho celebrar a vida dele. Enio foi vida pura. Um ser humano cheio de histórias, transbordando amor e afeto. Ele era verdadeiramente uma pessoa rara: dono de um olhar sensível e de uma capacidade única de encarar tudo com humor e leveza. Ele era o tipo de amigo que desafiava o tempo. Podiam se passar 5, 10, 15… 30 anos. Não importava a distância ou o tempo, a amizade continua exatamente a mesma, com a mesma intimidade e carinho. Meu amado amigo Enio, onde quer que você esteja agora, que seja leve e divertido, exatamente como você”.
Ser professor de Jornalismo
É impossível esquecer as palavras, o profissionalismo, a solidariedade, o amor pela vida e pela profissão que Enio assumiu com tanta dedicação e presteza. Deixa uma marca indelével como ser humano que tinha grandes preocupações com o mundo, com as pessoas e, sobretudo, acreditava que cada pequeno gesto podia transformar a realidade ao seu redor para que fosse mais justa e humana para todos. Essa preocupação se traduzia em gestos que iluminavam os caminhos daqueles que conviviam com ele, como a irmã Enny Vieira Moraes, docente na Universidade do Estado da Bahia (Uneb):
“Um homem incrível, um ser humano espetacular que, além de tudo, sempre buscou manter todos ao seu redor sempre com cuidado e atento às especificidades e necessidades de todos nós. Com tanta humanidade que lhe é peculiar, não é possível ignorar tantos amigos que você fez por diversas partes do mundo, e que procurou cuidar, regando e preservando essas amizades, como a cuidar de plantinhas sensíveis que foram se fortalecendo com o tempo, assim como fez com a nossa amizade que, posteriormente, se fortaleceu como uma árvore forte e robusta”.
E era assim também na docência, que abraçou de forma tão intensa, fazendo da sala de aula um espaço vivo de transformação, onde o conhecimento caminhava junto com a sensibilidade, o pensamento crítico e o cuidado com o indivíduo, formando não apenas jornalistas, mas pessoas mais conscientes do mundo que habitam. Quando lecionou no curso de Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), seu último trabalho como docente, logo superou as expectativas da coordenação. Foi um grande mestre que caminhou pela academia com generosidade e humildade entre seus pares e distante das disputas e das vaidades. Sempre foi fiel ao compromisso com o conhecimento e com a docência.
Sua relação com os estudantes era especialmente fraterna e se revelava nos pequenos gestos do cotidiano. Escutava com atenção, ensinava com paciência e acreditava profundamente no potencial de cada um. Mais do que transmitir conteúdos, dialogava, construía vínculos, despertava confiança e incentivava o pensamento crítico, criando um ambiente em que aprender era também um exercício de humanidade.
Os alunos reconheciam naquele mestre não apenas um professor, mas uma referência ética e afetiva. Sua presença inspirava, suas palavras encorajavam e seu compromisso com o outro deixava marcas duradouras. Assim, o aprendizado ultrapassava os limites da sala de aula e se transformava em experiência de vida, capaz de acompanhar cada estudante muito depois do tempo da escola.
Enio construía vínculos por onde passava e, por isso, essa relação que criou junto com as pessoas ao longo dos anos estará sempre presente. Difícil escrever sobre uma pessoa amada e admirada neste momento em que sua luz reflete em outro plano. O que nos consola é que Enio já brilhava aqui na Terra.
Logo, quando entrarmos em sala de aula para “ensinar “, tenha certeza que faremos de tudo para formar jornalistas, sem medo de abrir caminhos, assim como você fez na USP, na ESPM, na UFS e nos lugares por onde passou.
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