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Indicador de envelhecimento celular pode estar associado ao desenvolvimento de apneia grave
Pesquisadores detectam aumento nos depósitos de lipofuscina ao comparar tecidos de pacientes com ronco primário ou apneia obstrutiva do sono leve aos de casos graves
A apneia, disturbio respiratório comum, é associada a riscos cardiovasculares, como acidente vascular cerebral – Foto: Freepik
A apneia obstrutiva do sono (AOS) é um distúrbio em que a respiração para repetidamente por tempo suficiente para interromper o sono. Sonolência diurna e riscos de doenças cardiovasculares são alguns dos quadros associados à doença. Ocasionada pela incapacidade dos músculos das vias aéreas superiores de protegerem a abertura da faringe durante o adormecimento, ela é frequentemente associada ao ganho de peso, mas ainda é pouco estudada em níveis fisiológicos. Devido a essa lacuna, pesquisadores do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) investigaram se o mau funcionamento dos músculos das vias aéreas superiores também pode estar associado ao estresse oxidativo no organismo — ou seja, ao desequilíbrio entre a produção de radicais livres, prejudiciais às células, e de antioxidantes, que as protegem destes danos.
As análises indicaram um maior acúmulo de lipofuscina — pigmento associado ao envelhecimento que acumula dentro da célula após danos estruturais, como, por exemplo, no material genético — nos músculos das vias aéreas superiores de pacientes com AOS grave. Esse achado ajuda a explicar por que a doença pode se agravar mesmo na ausência de ganho de peso ou envelhecimento avançado, e gera pistas sobre as causas da doença. “A lipoproteína não é só uma marquinha que aquela célula está ficando velha. Quanto mais acumula, pior aquela célula performa”, explica, em entrevista ao Jornal da USP, Kristine Fahl Cahali, pesquisadora da FMUSP e coautora do artigo.
“A apneia é [causada e] piorada pela lipofuscina, que afeta a função muscular, ou é a própria apneia que causa isso [acúmulo de lipofuscina]?” – Kristine Fahl
Kristine Fahl Cahali – Foto: Arquivo pessoal
Nos casos graves de AOS, os depósitos da lipoproteína eram maiores e mais concentrados, especialmente nas bordas dos feixes musculares da faringe, região essencial para manter a passagem de ar aberta durante o sono. Como a lipofuscina se acumula de forma irreversível em células musculares, os achados sugerem que o estresse oxidativo provocado pela apneia contribui para um ciclo de enfraquecimento muscular e piora do distúrbio respiratório. “Salientamos essa sinalização como uma possível disfunção mitocondrial”, continua Kristine Cahali ao destacar que as moléculas são produtos da degradação incompleta de mitocôndrias.
Para se chegar a esses resultados, foram comparadas amostras do tecido muscular faríngeo profundo de 13 pacientes não obesos e jovens com ronco primário ou apneia leve (sete casos) e com quadros graves da doença (seis casos). Os tecidos foram avaliados por meio de técnicas histológicas com duas colorações para a análise inicial da estrutura, e uma terceira para evidenciar depósitos lipídicos compatíveis com a lipofuscina. Também foi empregada a microscopia de fluorescência, que explora a autofluorescência característica da lipofuscina. Esses múltiplos métodos garantem uma identificação e quantificação precisa do pigmento.
Avanços no tratamento
O estudo só foi possível graças a um modelo cirúrgico desenvolvido pelo otorrinolaringologista Michel Burihan Cahali, professor e pesquisador do HC. Sua técnica, chamada faringoplastia lateral, permitiu a retirada segura de amostras profundas dos músculos das vias aéreas superiores durante cirurgias para tratamento da apneia. Diferente de abordagens convencionais, essa técnica consiste em reforçar a sustentação das estruturas musculares e possibilita a retirada de material adequado para análises laboratoriais. ”Não coletamos apenas porque estávamos operando. Quando esses pacientes são operados, têm removidas as amígdalas e um fragmento de músculo”, esclarece a médica.
Esses “resíduos” cirúrgicos, submetidos às análises, tiveram significativa diferença na quantificação de lipofuscina confirmada por modelos estatísticos. “Uma característica de células do músculo esquelético, células do coração e dos neurônios é que elas não se dividem no nosso corpo. Então, o que acumula dentro delas fica lá para sempre”, explica Kristine Cahali. Ou seja, não existe um tratamento que faça “diminuir” a lipofuscina. Como o dano é permanente e cumulativo, é importante tratar o quanto antes.
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O tratamento mais convencional da apneia é o uso, durante o sono, do aparelho de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP). O dispositivo cria um fluxo contínuo de ar por meio de uma máscara colocada no nariz (ou no nariz e boca) que mantém as vias aéreas superiores abertas. Outra alternativa não cirúrgica são aparelhos intraorais para dormir confeccionados por dentistas, semelhantes a placas dentárias, que atuam tracionando a mandíbula para frente, alongando a musculatura da garganta. “Eles ajudam a estabilizar a faringe e a evitar seu colapso”, conta o professor Michel Burihan Cahali sobre as opções terapêuticas disponíveis para quadros iniciais.
“Existe um terceiro tratamento diferente de cirurgia, que é para tentar treinar ou fortalecer esses músculos com fisioterapia, os chamados exercícios orofaríngeos para ronco e apneia. Em casos leves, há uma resposta satisfatória”, prossegue o coautor do estudo. Cirurgias só são recomendadas para formas graves da doença. A polissonografia é o exame que auxilia no diagnóstico e determina a gravidade da apneia do sono.
Riscos e objetivos
Os pesquisadores destacam que os distúrbios do sono, como a apneia obstrutiva do sono, vêm sendo cada vez mais associados a desequilíbrios metabólicos e hormonais influenciados por fatores ambientais e sociais. Além disso, o tratamento adequado dos distúrbios do sono é fundamental para reduzir o risco de doenças crônicas, como o diabetes mellitus, as doenças cardiovasculares — incluindo infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC) — além de hipertensão arterial, obesidade e alterações metabólicas. “Tudo o que é relacionado com a circulação do sangue no corpo acaba prejudicado”, pontua Michel Cahali.
“Na hora de dormir, essa pessoa, em vez de descansar, está sobrecarregando o sistema cardiovascular dela” – Michel Burihan Cahali
Michel Burihan Cahali – Foto: Arquivo pessoal
Estudos futuros podem ser realizados para compreender melhor o papel da lipofuscina na progressão da doença, questionando se o acúmulo do pigmento inicia a disfunção muscular ou se é consequência da apneia. Esse entendimento é essencial não apenas para desenvolver novas intervenções terapêuticas farmacológicas, mas também para oferecer estratégias que aumentem a qualidade de vida, melhorem a sobrevida e contribuam para a prevenção de doenças crônicas, conforme os pesquisadores. Para além do campo estritamente clínico, os cientistas destacam diálogo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), por evidenciar impactos do sono em condições de vida, saúde, trabalho e bem-estar.
Conduzido pelo grupo de pesquisa LIM/32 – Laboratório de Otorrinolaringologia Genética, Molecular, Celular e Translacional, do HCFMUSP, e liderado pelo professor Luiz Ubirajara Sennes, o trabalho é fruto da atuação multidisciplinar e colaborativa do grupo. As parcerias com pesquisadores de outros institutos da USP, como o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e o Instituto de Química (IQ), além de outras universidades, como a Universidade Estadual Paulista (Unesp), demonstram a importância da interdisciplinaridade na pesquisa, como ressaltam os pesquisadores.
O artigo intitulado Lipofuscin: The Missing Link in the Worsening of Obstructive Sleep Apnea foi publicado na revista The Laryngoscope e pode ser acessado neste link.
Mais informações: kfahl@usp.br, com Kristine Fahl Cahali
*Estagiário com orientação de Fabiana Mariz
**Estagiária sob orientação de Simone Gomes
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