O ano de 2026 começou agitado para os latino-americanos, e fomos arrastados para o centro de uma disputa geopolítica marcada pelo imperialismo, a partir do sequestro de Nicolás Maduro. Há poucos anos, levantar o debate sobre a atualidade do imperialismo poderia render o rótulo de ultrapassado, mas o episódio do dia 3 de janeiro tornou difícil, senão impossível, negar essa questão. E, para além das disputas jurídicas baseadas no direito internacional ou das narrativas oficiais, a atuação dos Estados Unidos na Venezuela representa, de fato, um risco político para a América Latina, e nós conhecemos bem essa história: a invasão do Panamá, em 1989, seguiu um roteiro similar.
Seguindo a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos e defendendo sua versão da verdade de forma bastante direta, algo que muitos já não estão acostumados, Donald Trump, durante sua coletiva de imprensa, mencionou 27 vezes o petróleo da Venezuela, deixando pouco espaço para quem insistia no debate sobre a democracia em abstrato. Não por acaso, muitos analistas voltaram a afirmar que o petróleo teria “retornado” ao centro das relações de poder, como se em algum momento tivesse realmente saído do horizonte. Para quem acompanha há anos, como é o meu caso, os impactos da exploração petrolífera na Amazônia equatoriana ou em outros territórios periféricos, essa afirmação soa como negação da realidade.
Aqui entra a dimensão teórica que pode nos ajudar a compreender essas articulações: como dizia Dotti, a totalidade de um fenômeno social é composta por momentos precisos que definem sua estrutura, as chamadas determinações, e são as conexões entre essas determinações – as mediações – que formam a totalidade. Alguém poderia perguntar: ok, mas onde todo esse raciocínio entra na questão energética? Em tudo. Se não entendermos dessa forma, ficará muito difícil compreender como os elos e articulações (determinações) de uma fonte energética, como o petróleo, comandam boa parte dos rumos mundiais.
O relatório Oil Market Report da Agência Internacional de Energia reforça essa leitura ao indicar que a produção mundial de petróleo continuará a crescer em 2026, mesmo diante de interrupções temporárias e instabilidades políticas. Ou seja, a retórica da transição convive, na prática, com a persistência das velhas bases materiais.
Se tudo parece girar em torno dos recursos, segurança, industrialização e declínio imperial, vale observar com atenção algumas análises recentes. O professor sino-canadiano Xueqin Jiang, conhecido por suas previsões políticas, foi categórico ao afirmar em uma entrevista recente que, ao sequestrar Maduro dessa maneira, humilha-se não apenas o presidente, mas todo o povo venezuelano e, por extensão, os povos latino-americanos. Segundo Jiang, se algo semelhante fosse feito com Trump, mesmo seus adversários internos tenderiam a interpretar o gesto como um ataque direto aos Estados Unidos enquanto nação.
Jiang também chama atenção para a contradição central do discurso ocidental sobre reindustrialização. Trump fala em trazer a manufatura de volta, mas, segundo ele, não é nada óbvio que os jovens estejam dispostos a trabalhar em fábricas por 40 ou 50 anos. Jiang provoca ao afirmar que os jovens de hoje preferem assistir Netflix, jogar videogames e ver vídeos nas redes sociais, e não demonstram interesse em investir tempo e energia na construção de uma “grande sociedade”. Para além do tom provocativo, sua leitura aponta para um esgotamento mais profundo: o Ocidente enfrenta um declínio energético, industrial e simbólico perceptível em diversos sinais históricos.
Dias depois, Trump voltou a mencionar seus interesses na Groenlândia, e a Casa Branca informou que, junto com o presidente, discutia opções para adquirir o território, incluindo o uso potencial das Forças Armadas dos EUA. Uma movimentação esperada, considerando que não é a primeira vez que Trump explicita as políticas imperiais dos Estados Unidos, voltadas ao controle de recursos estratégicos necessários à reindustrialização e à segurança nacional.
E é justamente nesse ponto que o debate se abre além do petróleo e nos remete à teoria de Dotti: o petróleo funciona como uma mediação, conectando estruturas, mas o que sustenta o mundo material como conhecemos não se limita a um único recurso. São diversos minerais estratégicos, discretos, quase invisíveis, mas decisivos, que tornam possível a construção material do planeta contemporâneo. Eu poderia aqui falar de vários minerais, como já tenho feito em outras ocasiões, mas desta vez vou me deter em apenas um: um metal antigo, que atravessou milênios e retornou à cena contemporânea, a prata.
A prata está entre os primeiros metais manipulados e utilizados pelo ser humano, justamente por poder ser encontrada na natureza como elemento puro. Gustavo Duarte de Souza e outros autores lembram que a mineração da prata na Ática, por volta de 1000 a.C., foi responsável pela riqueza ateniense. Com a descoberta do Novo Mundo em 1492, grandes minas de prata abriram-se no México, Bolívia e Peru, levando a um rápido aumento da produção mundial. A grandiosa mina de Potosí, na Bolívia, explorada entre os séculos 16 e 18, tornou-se a cidade mais populosa do Novo Mundo e gerou imensa riqueza para os colonizadores. Entre 1500 e 1800, México, Peru e Bolívia responderam por mais de 85% da produção mundial de prata.
Atualmente, os maiores produtores são México, Peru, China, Austrália, Chile, Bolívia e Estados Unidos. Segundo o Mercado de Metais de Xangai, a prata passa por uma transformação fundamental, impulsionada pelo aumento das aplicações industriais e pela persistência de restrições de oferta.
A transição global para energia renovável e eletrificação posicionou a prata como material estratégico: segundo dados do The Silver Institute, o setor solar fotovoltaico tornou-se um dos principais vetores de consumo do metal, respondendo por uma parcela crescente da demanda industrial global. Veículos elétricos utilizam entre 25 e 50 gramas de prata por unidade, além do consumo associado às infraestruturas de carregamento, redes elétricas e sistemas de indução. A isso somam-se aplicações em redes 5G, data centers e tecnologias médicas, que dependem da elevada condutividade elétrica e das propriedades antimicrobianas do metal.
Ainda que a quantidade de prata por aplicação individual seja relativamente pequena, a escala da eletrificação e da digitalização torna o material difícil de substituir. Em 2025, o Departamento do Interior dos Estados Unidos passou a incluí-la oficialmente em sua lista de critical minerals, reconhecendo sua relevância para a economia e para a segurança nacional.
Portanto, acompanhar essas movimentações pode nos oferecer indícios importantes sobre a forma como as mudanças globais tendem a ocorrer. Outra coisa que tenho reparado, e deixo aqui como provocação, é que, ao ler com atenção tudo o que tem sido publicado nos últimos meses, notei que o vocabulário da “transição energética” vem perdendo espaço nos pronunciamentos oficiais, sendo gradualmente substituído pela linguagem da segurança. Se o interesse no petróleo voltou a ser nomeado sem constrangimentos, mesmo em tempos de mudanças climáticas, os minerais passam a integrar esse mesmo campo semântico, agora associados à segurança industrial, tecnológica e militar.
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