A ciência pela história, episódio 21 – Mesmer: ciência e pseudociência

Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

 08/01/2026 - Publicado há 6 meses

Há uma receita infalível para definir aquilo que pode ser caracterizado como ciência?

Um tema possível para discorrer sobre essa questão é a do chamado “magnetismo animal”, que se refere a atividades magnéticas relacionadas com o corpo de animais, inclusive o humano.

Um dos proponentes do “magnetismo animal” foi o prolífico cientista sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772), que, após abandonar suas atividades científicas e práticas de engenharia, granjeou na Europa uma grande fama de místico – acreditavam inclusive que tinha a capacidade de se comunicar com os mortos. Devido ao renome e à qualidade literária de seus escritos, Swedenborg foi, com efeito, bastante lido no século 19 e mesmo depois, tendo influenciado reconhecidamente escritores tão diversos quanto William Blake, Honoré de Balzac, August Strindberg e Jorge Luís Borges.

Foi, porém, o médico alemão, formado em Viena, Franz Anton Mesmer (1734-1815), que impulsionou mais fortemente a ideia de “magnetismo animal”, especialmente depois de sua mudança para Paris em 1778, alardeando sua suposta descoberta, segundo a qual existiria um fluido muito fino, uma espécie de éter, cercando o corpo humano e suscetível de atração magnética. Para ele, as doenças resultavam de obstáculos ao livre fluxo desse fluido através do corpo.

Segundo Mesmer, sobrevindo uma doença, essa substância etérea poderia ser convenientemente concentrada massageando-se certos “polos” do magnetismo corporal para superar o obstáculo e assim induzir uma “crise” (por vezes na forma de espasmos), restaurando-se a saúde do enfermo. Utilizando algumas aparelhagens acessórias e colocando os pacientes em cubas fechadas cheias de água e com limalha de ferro no fundo, Mesmer e seus seguidores induziam tal comportamento de crise nos doentes e voluntários, incluindo transes de sonambulismo, ou ainda de hipnotismo. O espetáculo arrastava verdadeiras multidões populares, mas fazia igualmente sucesso junto a círculos mais cultos, inclusive de cientistas. O verbo “mesmerizar” retém, ainda hoje, além da referência ao nome de Mesmer, o significado de fascinar irresistivelmente ou hipnotizar.

Do ponto de vista biológico, a proposta de Mesmer tinha certas afinidades com algumas das doutrinas vitalistas (segundo as quais a vida não se reduz a fenômenos físicos ou químicos), que tinham se multiplicado desde a época do médico alemão conhecido como Paracelso (1493-1541). No final do século 18 a interpretação vitalista de fenômenos biológicos tinha se intensificado, e nessa perspectiva faziam-se muitas experiências com a eletricidade animal, como aquelas de Luigi Galvani (1737-1798), na Itália, que conseguiu mexer pernas de rãs aplicando-lhes um potencial elétrico ou com descargas produzidas por peixes elétricos.

Nessa época, os choques elétricos eram usados em abundância na medicina para diversos efeitos, a partir de descargas em condensadores elétricos poderosos, como as “garrafas de Leyden”, e foi logo a seguir, nas primeiras décadas do século 19, que se descobriu uma conexão entre dois fenômenos que eram considerados completamente distintos, a eletricidade e o magnetismo. A ciência parecia abrir possibilidades ilimitadas para o progresso humano, e inúmeros cientistas amadores faziam demonstrações públicas de experiências científicas, com destaque para a eletricidade e o magnetismo, que se tornaram moda nos salões e residências, uma espécie de diversão popular, atraindo os curiosos pela exibição do maravilhoso. Essa espécie de divulgação, que atiçava o imaginário popular, acabava por fortalecer a imagem pública da ciência.

Como ficou estabelecido que eletricidade e magnetismo eram fenômenos complementares, a prática de Mesmer não parecia tão absurda, mesmo para os adeptos da racionalidade científica nos primeiros decênios do século 19. Antes disso, porém, o mesmerismo já tinha adquirido uma outra dimensão, pois foi também associado a ideias políticas mais radicais da época, no bojo da Revolução Francesa, como as do republicanismo. Isso talvez se devesse em parte pelos ataques que Mesmer fazia ao mundo das academias literárias e científicas. Uma das pregações em prol de uma nova sociedade incluía exatamente derrubar os médicos de seu pedestal, acusados de um tradicional despotismo como detentores do saber, bem como seus aliados acadêmicos e conservadores.

A defesa do mesmerismo em vista do seu alcance político iria ainda influenciar durane décadas os chamados socialistas utópicos, como Charles Fourier e o Conde de Saint-Simon, e se agudizar nos anos de agitação no continente europeu, entre 1846 e 1848, alcançando escritores do porte de Alphonse de Lamartine, Théophile Gautier, Honoré de Balzac e Victor Hugo.

O mesmerismo foi ainda visto como uma mensagem à moda do pensador do século 18, Jean-Jacques Rousseau, que acusava de decadência a sociedade contemporânea, cada vez mais envolvida pela industrialização e pelo progresso do conhecimento. A defesa da mesmerização foi juntada à pregação da necessidade de voltar à Natureza, deixando os corpos “livres” para a passagem do “fluxo magnético”.

Uma das vozes contrárias ao mesmerismo, ainda na época do Iluminismo francês, foi a do matemático e filósofo Marquês de Condorcet (1743-1794), que se mostrava cético com relação às suas virtudes medicinais. O apelo à racionalidade vinha sistematicamente expondo curandeiros e charlatães como fraudes e algumas ideias sem comprovação foram associadas por alguns ao mesmerismo, como a fisiognomia (interpretação do caráter e temperamento de uma pessoa pela sua aparência) e a frenologia (medições do crânio para prever características mentais).

Qual seria a eficácia das práticas de Mesmer? Para examinar a questão, em 1784 o rei Luís XVI nomeou uma comissão de cientistas notáveis, composta pelo astrônomo Jean-Sylvain Bailly, pelo médico Joseph Guillotin (depois associado à guilhotina), pelo químico Lavoisier e pelo cientista Benjamin Franklin, o “novo Prometeu” que domesticara o fogo na forma de relâmpago e era embaixador na França do novo país, os Estados Unidos.

A comissão concluiu que, apesar de muitos relatos atribuírem a cura de doenças diversas ao mesmerismo, o resultado seria fruto da autossugestão dos pacientes. A análise provavelmente estava correta, mas o bem-estar psicológico dos pacientes é reconhecido pela medicina como fundamental desde os tratados gregos hipocráticos dos séculos 5 e 4 a.C. Mesmo hoje, o efeito placebo de tratamentos por vezes surpreende exatamente pela ação psicológica nos que são testados, não sendo razoável desprezar a capacidade de autossugestão para aliviar o sofrimento do ser humano e lhe dar esperanças.

A polêmica não se encerrou com o relatório da comissão real, e o assunto continuou a ser discutido na França e em outros lugares, até evanescer gradualmente e ser pouco lembrado. No entanto, uma reviravolta surpreendente foi que, a partir das décadas de 1960 e 1970, o magnetismo animal se tornou cada vez mais objeto de estudos científicos, depois que o desenvolvimento de técnicas e aparelhos mais sensíveis permitiu detectar campos magnéticos produzidos pelo corpo humano. Outras espécies vivas também vêm sendo estudadas a partir desse enfoque de biomagnetismo, como por exemplo, o uso do campo magnético terrestre por aves migratórias para a navegação. Seriam essas descobertas vindicações tardias de fenômenos considerados duvidosos, como aqueles propalados por Mesmer?

Embora muitos manuais apresentem regras de “método científico” como algo capaz de dar uma resposta satisfatória para a separação entre ciência e a chamada pseudociência, uma grande parcela do atual conhecimento científico não foi conquistada com a mera aplicação de um receituário de quaisquer tipos de métodos científicos.

Não se trata de defender conhecimentos falsos, mas causa espanto a relutância dos círculos acadêmicos em discutir matérias controversas nas ciências. No caso da medicina, os exemplos são muitos, como é o caso da acupuntura, ainda que sabidamente uma parte dos médicos acredite que ela pode ter benefícios ainda inexplicados. Tampouco se deve perder de vista o quanto a química deve à alquimia, ou a astronomia à astrologia. A história ilustra que a ciência não tem a perder com as controvérsias, muito pelo contrário, elas podem ser fonte de avanço do conhecimento.

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