No empreendedorismo, podemos considerar diversos tipos de novos negócios. Estes apresentam características particulares, tais como diferentes graus de inovação e de riscos, níveis de intensidade tecnológica, taxas de crescimento e períodos de retorno do investimento no negócio, bem como propósitos dos empreendedores.
Nesse contexto, os diferentes tipos de novos negócios devem estar alinhados às vocações dos empreendedores. Aqui, considero a vocação do empreendedor como o conjunto de aptidões que conduz um indivíduo a escolher a carreira empreendedora e, no âmbito desta, o tipo específico de negócio empreendedor.
Neste artigo, considero seis tipos de novos negócios.
Negócios tradicionais
O primeiro tipo está associado ao empreendedorismo tradicional adotado na criação de pequenas e médias empresas (PMEs). Esse tipo se caracteriza pelo desenvolvimento de novos empreendimentos baseados em modelos de negócios, práticas e tecnologias já testadas e comprovadas ao longo do tempo. Geralmente, o crescimento desse negócio é gradual.
Os empreendedores de negócios tradicionais, em grande parte, são orientados pela obtenção de lucros e/ou pela busca da subsistência. Esses negócios incluem empreendimentos intensivos em ativos (ex.: fabricação de medicamentos genéricos, hospitais, hotéis), em pessoas (ex.: clínicas médicas, salões de beleza) e em conhecimento (ex.: consultoria tradicional). Basicamente, os negócios tradicionais adotam modelos de negócios consolidados. Assim, o risco é menor comparativamente aos modelos de negócios inovadores e que ainda necessitam de comprovação. Tipicamente, os estágios de evolução do negócio são: lançamento, receita estável e crescimento gradual.
Startups
O segundo tipo consiste no empreendedorismo inovador. Esse tipo busca a criação de negócios inovadores e escaláveis. Para tanto, adota-se a lógica da inovação de modelo de negócio, da experimentação e da validação. Tipicamente, os estágios de evolução das startups são: validação, operação, tração e escala (ou scale up, ou ainda alto crescimento).
Em geral, o financiamento das startups ocorre por meio do capital de risco (ou venture capital). Esse financiamento objetiva impulsionar o crescimento exponencial ao fornecer capital para iniciativas de alto risco e alto retorno, com a expectativa de que alguns investimentos extremamente bem-sucedidos gerem retornos excepcionais para compensar os investimentos em startups que não prosperam.
Os empreendedores fundadores de startups adotam, em grande parte, uma abordagem direcionada pelo mercado (ou market driven ou ainda demand pull). Assim, esses empreendedores identificam problemas relevantes no mercado e desenvolvem soluções inovadoras para aproveitar as oportunidades decorrentes da resolução desses problemas.
Deep techs
As deep techs podem ser consideradas uma categoria particular de startups. Deep techs são empresas nascentes inovadoras que objetivam desenvolver soluções tecnológicas avançadas baseadas em conhecimentos científicos. Essas soluções buscam resolver problemas complexos e de alto impacto. Exemplos de deep techs podem ser encontrados em biotecnologia, inteligência artificial aplicada a problemas complexos, materiais avançados e nanotecnologia.
As soluções das deep techs geralmente exigem um período relativamente longo de pesquisa e desenvolvimento (P&D). O tempo para atingir a etapa de comercialização pode ser ainda maior quando há a necessidade de adequação aos aspectos regulatórios (ex.: pesquisa clínica no desenvolvimento de medicamentos). Dessa forma, as deep techs podem demandar capital e tempo elevados até atingir a fase de comercialização. Nesse contexto, há desafios na atração do capital de risco privado, principalmente nos estágios iniciais. Por isso, geralmente esse tipo de startup busca investimentos públicos, tais como aqueles oferecidos pelas agências de fomento (por exemplo, o programa PIPE da Fapesp).
Tradicionalmente, as deep techs são fundadas por cientistas, ou seja, pessoas que realizam pesquisas científicas com o intuito de avançar o conhecimento em uma determinada área. Geralmente, eles adotam uma abordagem direcionada pela tecnologia (ou technology push) na qual os conhecimentos e tecnologias existentes conduzem a startup a encontrar um problema relevante no mercado que possa ser resolvido pela tecnologia.
Negócios do tipo lifestyle
Um negócio do tipo lifestyle (ou estilo de vida) é criado para o indivíduo empreender naquilo que ele ama. Assim, o empreendedor adota uma abordagem direcionada pela paixão na qual ele desenvolve um novo negócio em torno de seus interesses pessoais, hobbies e paixões, buscando atender principalmente a seu propósito, felicidade e realização pessoal. Esse tipo de negócio pode ser inovador, caracterizando uma startup do tipo lifestyle.
Nesse contexto, o negócio não apresenta necessariamente uma ambição de crescimento acelerado, mas sim de sustentar o estilo de vida de seus fundadores. Em outras palavras, prioriza-se a paixão, a qualidade de vida e a satisfação pessoal dos empreendedores. A paixão dos fundadores, por sua vez, deve estar alinhada ao time de colaboradores e investidores.
Negócios de impacto
O negócio de impacto apresenta uma intencionalidade de resolução de um problema social e/ou ambiental. Nesse sentido, o principal objetivo é a maximização do impacto social e ambiental, considerando que o negócio deve apresentar um resultado econômico positivo e sustentável.
Esse tipo de negócio pode ser inovador ao estar atrelado à inovação social, que implica em desenvolver soluções eficazes para resolver problemas sociais e ambientais complexos (e, muitas vezes, sistêmicos).
Os negócios de impacto podem estar associados à inclusão produtiva. Neste caso, esses negócios buscam a inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social no mercado de trabalho, contribuindo para a superação da exclusão social, bem como aumento da renda e do nível de emprego.
Empreendedorismo corporativo
O empreendedorismo corporativo, ou intraempreendedorismo, consiste em fomentar atividades empreendedoras como novos empreendimentos (ex.: startup interna), inovação de modelo de negócio e renovação estratégica dentro de uma empresa estabelecida. Esse formato possibilita à empresa desenvolver novas competências organizacionais, novos modelos de negócios e aproveitar oportunidades de negócios que extrapolam seu atual escopo de atuação.
Nesse sentido, a empresa estabelecida alavanca seus recursos existentes para empreender, realizar investimentos em startups ou se reinventar. Por exemplo, no primeiro caso, a empresa pode desenvolver um programa corporativo de criação de startups (ou corporate venture building). No segundo caso, ela pode lançar um programa corporativo de capital de risco (ou corporate venture capital). E, no terceiro caso, ela pode desenvolver iniciativas de inovação estratégica.
Vocação do empreendedor e os tipos de novos negócios
Esses seis tipos de novos negócios devem estar estão alinhados às vocações dos empreendedores. Assim, aqueles com menor propensão ao risco estão naturalmente alinhados aos negócios tradicionais. Empreendedores que fundam startups geralmente buscam aproveitar oportunidades de mercado e têm uma ambição de crescimento acelerado. Empreendedores de deep techs apresentam uma base tecnológica e científica como parte de suas competências. Empreendedores do tipo lyfestyle e de impacto criam negócios que estão alinhados aos seus propósitos. Estes podem estar relacionados, respectivamente, à paixão e à busca por resolver problemas socioambientais. Por fim, os intraempreendedores objetivam alinhar seus interesses em inovação e empreendedorismo aos programas de empreendedorismo corporativo de organizações estabelecidas.
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