Projeto reaproveita insumos de laboratório e leva aprendizado a escolas de todo o Brasil

Iniciativa liderada por professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP distribui gratuitamente materiais para laboratórios de escolas públicas e promove projetos de ciência cidadã

 07/10/2025 - Publicado há 5 meses

Texto: Diogo Silva e Beatriz Haddad

Escola recebe materiais de laboratório da iniciativa SociaLab - Foto: Divulgação/SociaLab ICB USP

Muitos reagentes e materiais de laboratório, como plásticos e vidrarias, têm data de validade que impede seu uso em pesquisas e na indústria, embora ainda estejam em perfeitas condições para o ensino. No entanto, a legislação brasileira impõe impostos sobre a doação desses itens e, junto aos custos logísticos, isso leva muitas empresas a optarem pelo descarte e incineração.

Pensando em reverter esse desperdício e transformar um problema em oportunidade, o professor Lucio Holanda Gondim de Freitas Junior, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, teve uma ideia: oferecer o material excedente para escolas públicas. Assim nasceu o SociaLab, uma iniciativa que reúne projetos de ciência cidadã e atividades educacionais com o objetivo de aproximar a USP das escolas de todo o Brasil. As atividades do projeto são divulgadas pelo Instagram, neste link.

Atualmente, o projeto distribui gratuitamente materiais de laboratório para mais de mil escolas, a maioria públicas, nos 27 Estados brasileiros, beneficiando cerca de 15 mil alunos. Além da distribuição, o SociaLab promove aulas abertas e cursos, em parceria com estudantes da USP, para capacitar professores de todo o País no desenvolvimento de experimentos e projetos de ciência cidadã.

Sob coordenação do professor e com o apoio de alunos de graduação, o projeto surgiu para atender à crescente demanda de professores de escolas públicas, que solicitavam doações pelas redes sociais da plataforma para estruturar laboratórios de ciências, muitas vezes inexistentes nas instituições. O professor conta que, durante a pandemia de covid-19, recebeu uma grande doação de materiais de laboratório e, com a intenção de dar um destino ao excedente, fez uma postagem no Instagram oferecendo os itens às escolas.

“Eu comecei a receber mensagens do Brasil inteiro. Era cada relato emocionante […]: ‘Professor, a gente tem um copo de geleia que os meninos têm que trazer para fazer experimentos’”, relata o professor, que coordena o projeto com alunos de graduação. O episódio revelou a enorme demanda e a falta de recursos básicos para o ensino de ciências nas escolas brasileiras. A partir disso, ele passou a recolher materiais de laboratório que seriam descartados ou incinerados e a montar kits de ciência para enviar às instituições.

Homem branco careca com jaleco branco segurando um recipiente de laboratório

Lucio Holanda Gondim de Freitas Junior, professor do ICB e coordenador do projeto - Foto: Divulgação/SociaLab ICB USP

Segundo ele, um levantamento realizado com as mais de mil escolas cadastradas revelou que 53% não possuem laboratórios e que, entre os existentes, 70% não recebem financiamento regular. Além disso, 27% dependem de verbas pessoais dos próprios professores e diretores para viabilizar atividades práticas no ensino de ciências. Diante desse cenário, o professor passou a distribuir materiais em perfeito estado, doados por empresas, mas que não poderiam mais ser comercializados por estarem próximos ao vencimento ou já vencidos.

“Isso só foi possível graças à legislação brasileira, que permite que materiais não perecíveis, originalmente destinados à pesquisa e fora do prazo de validade, sejam utilizados para fins de ensino. Assim, conseguimos reaproveitar itens como plásticos de laboratório, ainda em perfeitas condições”, comenta o professor, informando que as doações foram iniciadas em outubro de 2023. Ele ainda destaca que a iniciativa contribui para solucionar um problema ambiental. “Quando o prazo de validade expira, muitos fornecedores precisam descartar materiais não vendidos, frequentemente recorrendo à incineração, que, além de custosa, é prejudicial ao meio ambiente. Com nossas doações, conseguimos aliar utilidade e sustentabilidade”, complementa.

Professor e estudantes de escolas públicas beneficiadas com os materiais para laboratórios de ciências - Foto: Divulgação/SociaLab ICB USP

Para ampliar o impacto nas escolas, foram promovidos workshops com experimentos científicos que evoluíram para projetos de ciência cidadã. Essas iniciativas permitiram que professores e estudantes colaborassem diretamente com pesquisadores na coleta e análise de dados, promovendo uma interação prática. Todas as atividades incluíram a emissão de certificados chancelados pela USP, agregando valor à experiência educacional. “Recebemos inscrições de mais de 300 escolas para essas aulas e workshops. O sucesso foi tão grande que muitas instituições incorporaram os projetos aos seus calendários letivos”, conta.

Projeto promove mapeamento de mosquitos vetores de doenças - Foto: Divulgação/SociaLab ICB USP

Projeto Vigia

Um dos projetos de maior destaque é voltado para a captura do mosquito Aedes aegypti, com o objetivo de monitorar arboviroses como dengue, chikungunya, zika e febre amarela. Nesse projeto, estudantes constroem armadilhas chamadas “mosquitoeiras”, utilizando materiais recicláveis, como garrafas PET, fitas isolantes e lixas, para capturar mosquitos e suas larvas. O Projeto Vigia envolve centenas de escolas na coleta de dados sobre a densidade de mosquitos transmissores de doenças em todo o território nacional. O professor conta que se inspirou na feira de ciências de sua filha, onde viu uma armadilha feita com uma garrafa PET e percebeu o potencial de replicar a ideia em escala nacional.

A metodologia do projeto é dividida em três etapas. A primeira consiste em aulas teóricas para professores de ciências, realizadas aos sábados, nos períodos da manhã ou da tarde. Nessa fase inicial, é disponibilizado um curso na plataforma Apolo, da USP, com conteúdos sobre mosquitos, doenças e a construção de armadilhas caseiras.

Em seguida, os professores replicam o curso em sala de aula, ensinando os alunos a montar as armadilhas. Para essa etapa, o projeto oferece uma apresentação em PowerPoint, cartilhas e material reagente, que permite o envio dos mosquitos capturados pelos Correios à USP.

Na última fase, os dados coletados passam por análise laboratorial. Os mosquitos são examinados em laboratório, onde são realizados testes para detectar vírus como dengue, chikungunya e zika. Com base nesses resultados, é construído um mapa nacional que mostra a densidade desses vírus por região.

O projeto já alcançou cerca de 15 mil alunos e gerou um impacto significativo entre estudantes do ensino básico. Todos os participantes receberam certificado de participação emitido pela USP. Com o apoio das escolas, o professor conseguiu realizar um amplo levantamento de dados. “É o maior estudo de epidemiologia do Brasil. Nós temos dados que ninguém tem”, afirma.

Projeto Aqua-Cid

O projeto Aqua-Cid também recebe amostras enviadas por escolas de todo o Brasil. Com esses materiais, o laboratório da USP analisa e mapeia a qualidade das águas no País, verificando a presença de pesticidas, microplásticos, metais pesados, resíduos médicos e outros agentes contaminantes.

A iniciativa segue a mesma metodologia aplicada em outros projetos: os professores recebem formação e conduzem os experimentos com seus alunos. Para garantir a padronização das coletas, o laboratório envia um tubo específico para todas as escolas, além de equipamentos de proteção — como luvas de látex — e uma cartilha com orientações sobre o procedimento correto. Cada escola seleciona duas fontes de água para análise, que são enviadas pelos Correios à USP.

A USP recebe as amostras de água e, em parceria com a Universidade Federal do ABC (UFABC) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realiza todos os testes e análises necessários para identificar possíveis indicadores de contaminação. “Sempre esperamos que não seja algo grave, mas, quando é, tomamos muito cuidado com aquele resultado. Pedimos uma contraprova, e a nova coleta é feita por outra pessoa, que não tenha vínculo com a escola envolvida”, explica o professor.

A proposta é, ao longo do tempo, mapear a poluição de rios e identificar a qualidade da água consumida por crianças em diferentes regiões do País. “Com esses dados, podemos construir um mapa do Brasil relacionado à qualidade da água e à dispersão de vírus”, completa.

Experimento da Terra Plana

Um dos trabalhos mais recentes do projeto reuniu escolas de todo o Brasil em um experimento que demonstra e calcula a esfericidade da Terra. A atividade foi uma adaptação do experimento de Eratóstenes. No século III a.C., o matemático grego observou que, no solstício de verão, ao meio-dia, na cidade de Siena (atual Assuã, no Egito), o Sol iluminava o fundo de um poço de forma direta, sem projetar sombras. Ao mesmo tempo, em Alexandria, o Sol lançava a sombra de uma estaca. Ao medir o ângulo dessa sombra — cerca de 7,2° — e conhecendo a distância entre as duas cidades, Eratóstenes calculou a circunferência da Terra com notável precisão para a época.

 

Para este projeto, 300 escolas de todo o Brasil foram reunidas para realizar o experimento simultaneamente. Cada instituição mediu, ao vivo, a sombra projetada por cabos de vassoura e, em seguida, comparou seus dados, também em tempo real, com os de outra escola localizada em uma região diferente do País, a fim de calcular a circunferência da Terra. 

Durante a transmissão, o professor comentou alguns problemas técnicos: “A maioria das contas estava dando errado. Eles estavam errando na regra de três […]. Então você consegue ver a deficiência nessa área e observa que algumas escolas vão muito bem, enquanto outras têm muita dificuldade”. Apesar dos erros, o evento foi considerado um sucesso, e o professor já planeja uma segunda edição, desta vez com a participação de escolas de outros países lusófonos, como Portugal e Angola.

Expansão e futuro

Além dos estudos sobre mosquitos, da qualidade da água e do experimento da Terra, o projeto prevê atividades em outras áreas do conhecimento, como física, matemática e até cursos de inovação e economia financeira. O objetivo é capacitar os professores a abordar tópicos práticos com os alunos, como probabilidade, investimentos e o uso do dinheiro do programa federal Pé de Meia. “Essa é uma oportunidade única de levar o conhecimento acadêmico para além dos muros da universidade. Nosso objetivo é democratizar a ciência e inspirar jovens e professores a se engajarem, mostrando que todos podem contribuir para o progresso científico”, conclui o professor.

De colaboração de pesquisa a projeto educacional

Tudo começou como um projeto pessoal do professor, que percebeu que os laboratórios de pesquisa do Brasil enfrentavam um problema com reagentes. Caros e de validade curta, eles eram frequentemente descartados após o uso, gerando custos adicionais para as instituições de ensino. “Você compra um reagente caro, que demora meses para chegar, e não consegue usar mais do que 30% antes de vencer. Depois, o ônus fica para a universidade, que precisa dar uma destinação, enquanto seu colega do lado nem sabe que você tem”, explica o professor.

Pensando nisso, ele desenvolveu uma plataforma, semelhante a uma rede social, na qual os laboratórios poderiam compartilhar o excedente de reagentes. O projeto chegou a contar com 700 laboratórios cadastrados, mas acabou sendo encerrado devido a dificuldades financeiras para sua manutenção. Foi então que surgiu uma nova vertente: a educação.

Entre 2005 e 2013, o professor morou na Coreia, trabalhando com pesquisa translacional em doença de Chagas. Em poucos anos, seu laboratório tornou-se referência mundial na área, com reportagens em grandes revistas científicas. Durante esse período, uma das exigências dos órgãos coreanos era que ele recebesse alunos e escolas. No início, era difícil, pois o professor precisava reservar um dia para preparar a aula e passar a tarde nas escolas, explicando às crianças o propósito da ciência. Para ele, o que inicialmente era um objetivo acadêmico acabou se tornando uma importante vertente de seu trabalho.

Para saber mais sobre o SocialLab, acesse o Instagram do projeto neste link.

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*Com informações de Gabriel Martino, da Assessoria de Comunicação do ICB


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