Por Maria Eduarda Oliveira* e Maycon Almeida*

O filme Malês tem sua estreia nacional nos cinemas marcada para a próxima quinta-feira, 2 de outubro. O longa-metragem, que tem como diretor Antônio Pitanga, traz no centro da narrativa a história da Revolta dos Malês. Na noite do último dia 26 de setembro, na Cidade Universitária, a reportagem do Jornal da USP acompanhou a pré-estreia do filme, que aconteceu no Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp) e foi assistida por um público de mais de 100 pessoas.

A exibição foi seguida de debate com Pitanga, reconhecido por seus papéis em novelas como O clone (2001), Celebridade (2003) e mais recentemente em Vale tudo (2025), e parte do elenco. Além de dirigir, Pitanga também deu vida ao personagem Pacífico Licutan, um dos líderes religiosos da comunidade islâmica e do levante liderado pelos escravizados.
A Revolta dos Malês, como ficou conhecido o maior levante urbano de negros escravizados do Brasil, foi liderada por africanos muçulmanos em Salvador, Bahia, em 1835. O termo “malê” deriva da palavra imalê, que significa muçulmano no idioma iorubá. Os revoltosos eram principalmente de origem nagô, mas pertenciam a outros vários povos e nações de África.
Os malês, alguns já em alforria, lutavam não só pela liberdade da escravidão e o fim das punições físicas, como os açoites, mas também para poderem manifestar sua religião e cultura livremente. Estima-se que 600 pessoas participaram do movimento e, de acordo com o historiador João José Reis, autor do livro Rebelião escrava no Brasil – A história do Levante dos Malês em 1835, cerca de 70 revoltosos morreram e 500 foram punidos com pena de morte, açoite e prisão.
Negros vencedores
Entre idas e vindas na pesquisa e nas diversas versões de roteiros, segundo Pitanga, Malês demorou quase 30 anos para ficar pronto. Para o diretor, um desafio frequente era a fuga das representações estereotipadas do negro escravizado. A história a ser contada é a de “negros vencedores, que tinham uma estratégia de tomar o poder contra a questão escravocrata, contra todo tipo de preconceito, de invisibilidade, feminicídio, estupro. É isso que a gente quer mostrar”, disse Pitanga.
Samira Carvalho, intérprete da protagonista Abayome, enfatizou que a preparação do elenco foi uma parte importante da construção do filme, “a gente fez durante a pandemia, então, tudo era on-line”, disse. Um desses preparos envolveu aprender árabe, um dos idiomas falados durante o longa. Os atores também tiveram mentoria para aprenderem como falar um português mais próximo ao dos escravizados.



Malês, o filme
O roteiro, que é de Manuela Dias, mostra de forma crua como o apagamento das origens africanas no tráfico transatlântico deixou cicatrizes permanentes. Mesmo os escravizados que já haviam conseguido a liberdade dos senhores se viam constantemente nas mãos de um sistema segregacionista.
No decorrer do filme, os espectadores são confrontados com imagens da violência, do sequestro e da reexistência daquele povo na cidade de Salvador do século 19. Apesar disso, Pitanga também traz ao centro da tela imagens de carinho, amor, troca de afetos e reencontros entre aquelas pessoas agora em “terra de branco”.
Essa foi uma escolha consciente, de acordo com Pitanga. Para ele, era importante mostrar que o carinho e amor fazem parte da cultura e dos corpos negros historicamente marginalizados. “São histórias que a gente tem que dar luz para que a gente possa deitar [nesse] conhecimento e, democraticamente, saber quem nós somos.”
Porém, ainda que tenha um roteiro bem construído, o filme traz muitos personagens para seu enredo e, em alguns momentos, é difícil acompanhar a presença e continuidade de todas essas histórias. Nos momentos em que se aprofunda nas questões pessoais de alguma dessas figuras, o longa ganha camadas mais profundas e discute temas importantes.
É o que acontece com a personagem fictícia Sabina, interpretada por Camila Pitanga, que carrega dramas que a colocam em uma zona cinza entre o certo e o errado. Suas atitudes, por vezes egoístas, são justificadas com o claro e constante medo que ela demonstra de perder a família em meio à ameaça de um novo levante.
Outro destaque feminino é Abayome, par romântico de Dassalu, feito por Rocco Pitanga. O casal é separado durante o casamento em África e levado para ser vendido como escravos. No Brasil, seguem em busca um do outro. Mas o enredo de Abayome não se restringe ao seu envolvimento romântico, mostrando uma personagem guerreira.
A presença negra feminina durante todo o longa é rica em complexidade, fugindo de estereótipos e abordagens preguiçosas – até as personagens que não possuem tanto tempo de tela deixam sua marca. Pitanga diz que isso seria uma consequência de como foi criado por sua mãe. “Essa força da mulher é porque o Pitanga trouxe as mulheres para serem protagonistas. E esse protagonismo veio dessa lembrança [da sua mãe]”, disse Moara Sacchi, atriz que dá vida a Talabi.
Esse é um filme que carrega o propósito de contar uma história silenciada e escondida do Brasil: “Não é história de negro, são histórias de negros brasileiros, são histórias do Brasil”, afirmou o diretor. Para Pitanga, as raízes do povo brasileiro estão no povo africano, “onde você vai ver o brasileiro hoje, a culinária vem da África, a dança é da mãe África. A maneira de lidar, de dançar, de sorrir, é uma coisa espontânea do negro e é uma coisa espontânea do brasileiro. A nossa formação, a formação da criatura do homem brasileiro mora nesta cultura”.
*Estagiários sob a supervisão de Silvana Salles e Antonio Carlos Quinto























