Refletir para transformar: uma metáfora sobre o porquê

Por André Almeida Morais, doutorando pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP

 14/08/2025 - Publicado há 9 meses
André Almeida Morais – Foto: Arquivo pessoal

 

Em meio à preparação para o Natal, Helena, uma criança curiosa, assistia em casa a um programa de culinária, com o renomado chef Alex Atala, que apresentava uma receita de peixe assado – prato típico da ceia natalina de sua família. O episódio termina, mas o prato natalino apresentado pelo chef permanece na sua memória.

Ao ir até a cozinha, vê a mãe, Alice, preparando também um peixe para a ceia da família. Helena observa tudo com atenção, mas estranha algo: a mãe corta a cabeça e o rabo do peixe antes de colocá-lo para assar. Ela relembra os outros Natais e percebe que essa receita tradicional da família “sempre foi assim”. Nesse instante, a lembrança do peixe inteiro, preparado de forma diferente pelo chef Alex Atala, ressurge em sua mente, reforçando ainda mais sua curiosidade sobre o motivo daquele costume da mãe.

– Mamãe, por que você corta a cabeça e o rabo do peixe? – pergunta Helena, curiosa.

– Porque assim fica mais gostoso, filha! – responde a mãe, sem hesitar.

– Mas por que desse jeito fica mais gostoso? – insiste Helena.

– Sempre fiz assim. Sempre foi assim. Aprendi com a vovó! – conclui a mãe, encerrando a conversa.

Helena franze a testa. Reflete sobre a forma de fazer – afinal, o que viu no programa era diferente e parecia funcionar tão bem. Decide então perguntar à avó que estava no quintal:

– Vovó, por que a senhora corta a cabeça e o rabo do peixe na nossa receita tradicional de família?

– Ah, minha netinha… quando eu fazia essa receita, a família já era grande e a forma não era do tamanho suficiente. Então, para caber, sempre precisava cortar.

Helena compreende, enfim: aquele costume não tinha relação com o sabor ou com alguma efetividade culinária, mas era, sim, uma limitação concreta de outra época, uma forma pequena. A prática seguiu sendo repetida, mesmo depois que a limitação deixou de existir. Naquela situação, ela entendeu que, ao descobrir por que fazemos e para que fazemos, nos tornamos capazes de reinventar o como fazer.

Quantos dos nossos hábitos institucionais, costumes burocráticos e procedimentos normatizados – muitas vezes sem efetivo interesse público – seguem sendo repetidos simplesmente porque “sempre foi assim”? Um “como fazer” que está incompatibilizado com a conjuntura, desafios e oportunidades do momento presente.

Assim, sem compreender as premissas fundamentais do “por que” e do “para que”, tornamo-nos incapazes de transformar o “como fazer” na gestão pública. Essa história simples nos convida a questionar o automatismo institucional e as heranças comportamentais e culturais que deixaram de fazer sentido na burocracia nacional, mas persistem no Estado brasileiro.

O Brasil precisa pensar o Brasil. Portanto, inspirado pela história e ciente de que o País precisa repensar o seu papel e as suas políticas públicas nos investimentos em infraestrutura e nos demais temas públicos de relevância nacional.

Assim, devemos conduzir essas pesquisas em gestão pública buscando compreender os motivos (por que) e os objetivos (para que) dessa necessária mudança e, quem sabe, também contribuir com propostas de como transformar esses importantes temas para a agenda nacional e a sociedade brasileira. Afinal, como disse Sêneca, o filósofo romano, “que as palavras se tornem boas obras”.

Por conseguinte, em algum ponto, devemos deixar a teoria acadêmica de lado e agir sobre aquilo que estudamos e pesquisamos, conectando verdadeiramente a ciência aos anseios da sociedade.

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