
Nos dias 13, 14 e 15 de agosto, coletivos de tradução, acadêmicas e mulheres do mundo editorial discutirão temas como tradução feminista, literatura árabe e inteligência artificial em evento realizado no Centro MariAntonia da USP. A quinta edição do Encontro de Mulheres, Tradução e Mundo Editorial (Trema) é intitulada Entre a máquina e a luta: tradução e Palestina em toda parte, e contará com conferências, debates aprofundados, mesas-redondas e oficinas de tradução.
As inscrições vão até a véspera do evento, no dia 13, e cada uma custa R$ 80. Há gratuidade, porém, para estudantes da graduação, mediante pedido. Inscreva-se no link.
Segundo Luciana Carvalho Fonseca, uma das organizadoras do Trema, “ele surgiu da necessidade das pessoas que traduzem aqui na USP e estão engajadas no mercado de trabalho de oferecer um lugar com maior diálogo entre a academia e o mundo editorial”. Luciana é professora de língua inglesa e tradução no Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e conta que um dos principais motivos para a criação do evento foi a invisibilização das mulheres no mercado editorial.
O 5º Trema contará com a presença de acadêmicas de dentro e fora da USP, além de representantes de coletivos de tradução, como o Flores de Baobá (Esmeralda Ribeiro), o Quem Traduziu (Rita Kohl) e o Sycorax (Cecília Rosas). Este último coletivo também conduzirá uma oficina de tradução.
Comparecerão nomes como Marília Scalzo, do Instituto Moreira Salles, Aycha Sleiman, e Laura di Pietro, da editora Tabla, que realiza trabalhos com literatura árabe; Natalia Calfat, do Instituto de Cultura Árabe e da revista Malala; e Luana Chnaiderman, que fará a primeira leitura de obras selecionadas do evento.
Outros nomes do universo da editoração participarão, como Mariana Santos (Editora Nós) e Mariana Delfini (Editora Ercolano). Figuras da USP como a professora Francirosy Campos Barbosa Ferreira farão parte do evento, que também terá a participação especial da professora argentina Maria Laura Spoturno, da Universidad Nacional de La Plata (UNLP).
Literatura árabe, Palestina e IA
Neste ano, entre os temas abordados, será dada grande ênfase àqueles relacionados ao mundo árabe. “A tradução é um veículo, não só de circulação de conhecimento, mas também de união e aliança entre as pessoas. Se a gente for pegar o que é traduzido no Brasil, qual língua é traduzida, tem um recorte muito anglófono. Isso aqui [as línguas de origem árabe] são justamente línguas que não são tão traduzidas e às vezes são invisibilizadas de propósito, por conta de como o Norte Global vê o mundo árabe, de uma forma desumanizadora. Então, eu vejo a tradução como um meio, um canal para a humanização de todos os povos”, aponta Luciana.

Além disso, em vista do genocídio que ocorre atualmente na região de Gaza, o Trema escolheu também enfatizar a questão palestina. A ideia é apresentar a tradução como algo que pode ampliar a vida das obras e dos povos. “Como você mantém viva a memória de um genocídio? Traduzindo coisas sobre genocídio, por exemplo, ou sobre a cultura palestina, de forma a não deixar isso cair no esquecimento”, afirma a organizadora.
Um terceiro eixo de debate será a inteligência artificial e seus impactos no mundo editorial. Luciana faz questão de apontar o quanto a tradução é também um ato político, que pode ter seus vieses internos. No caso das IAs, pesquisadores já observaram vieses de gênero em certas escolhas de palavras. Doctor, em inglês, por exemplo, quase sempre é traduzido pelas ferramentas como “médico”, e raramente como “médica”. Além disso, como ela aponta, “os tradutores automáticos só melhoraram depois que os softwares e os programas tiveram acesso a textos humanos traduzidos”. É “o capitalismo se apropriando de trabalho não remunerado”, diz.
Uma tradução feminista
O Trema, desde sua primeira edição, se funda sobre a ideia de uma tradução que seja ao mesmo tempo politicamente engajada e feminista.
A tradução feminista, como conceito, é uma área de pesquisa dentro dos estudos da tradução que surgiu nos anos 1980, no Canadá, com autoras que trabalhavam a tradução entre inglês e francês, as duas línguas oficiais do país. “Elas começaram a se manifestar esteticamente através de obras literárias, intervindo em traduções, em textos que elas consideravam machistas, e dando outras interpretações”, conta a professora. “É uma tradução que interrompe e que incomoda.”O feminismo, segundo ela, também se articula com uma prática anticapitalista. Ela relata, por exemplo, como a distribuição gratuita e a livre-circulação de obras são uma prática frequente de coletivos feministas como o Sycorax, formado por alunas e ex-alunas da USP. O Sycorax foi responsável pela tradução brasileira do livro Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici, e disponibilizou o PDF do livro on-line. Oito anos depois da publicação pela editora Elefante, o arquivo permanece disponível no site do coletivo, ao lado de outras obras traduzidas.
“O feminismo está em tudo. Não só na técnica, não só na estratégia. Ele está nos projetos editoriais também”, afirma. No Grupo de Estudos, Pesquisa e Ação em Feminismos, Gênero e Tradução (Gretas), do qual Luciana participa e que terá parte no 5º Trema, as traduções são feitas em grupo. “É coletivo, então tem muita troca de conhecimento e formação de novos tradutores e tradutoras”, completa.
O evento conta com o apoio dos programas de pós-graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês (PPGELLI) e Letras Estrangeiras e Tradução (PPG-LETRA).
Serviço
5º Encontro de Mulheres, Tradução e Mundo Editorial (Trema) – Entre a Máquina e a Luta: Tradução e Palestina em Toda Parte
Quando: 13, 14 e 15 de agosto
Onde: R. Maria Antônia, 294 e 258 – Vila Buarque, São Paulo – SP
Valor: R$ 80,00, com gratuidade para estudantes da graduação, mediante pedido
Inscrições disponíveis no link a seguir: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdTcMwa1EkyO0dawHpe3V5VGR_l2XvNfdxsyPDrv_woBh84ig/viewform
Confira a programação:

*Estagiário sob supervisão de Silvana Salles



























