Obra de professor da USP é o Livro Acadêmico Clássico de 2025

Lançado em 1975 e atualmente na 24ª edição, Metodologia do Trabalho Científico, de Antônio Joaquim Severino, é destacado pelo Prêmio Jabuti Acadêmico deste ano, promovido pela Câmara Brasileira do Livro

 30/07/2025 - Publicado há 8 meses     Atualizado: 05/08/2025 às 14:23

Texto: Ricardo Thomé*

Arte: Daniela Gonçalves**

Desenho abstrato.

“A premissa básica que me inspira — e estou totalmente convencido disso — é que só aprendemos bem pesquisando.” Foi a partir desse pensamento, do contato com professores estrangeiros e da constatação de que a pesquisa no Brasil precisava de método que o professor da Faculdade de Educação da USP Antônio Joaquim Severino, hoje com 84 anos, escreveu e publicou em 1975 o livro Metodologia do Trabalho Científico, pela Editora Cortez. No ano em que completa 50 anos de publicação e atualmente na 24ª edição, a obra de Severino foi escolhida como Livro Acadêmico Clássico de 2025 do Prêmio Jabuti Acadêmico, pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). “Isso representa uma conquista não só pessoal minha, mas de uma proposta pedagógica que acho relevante no nosso contexto”, disse Severino ao Jornal da USP.

Além dessa honraria, a USP tem mais chances de ser contemplada pelo Prêmio Jabuti Acadêmico. Foram classificados para a final desse prêmio, que está na sua segunda edição, sete livros da Editora da USP (Edusp), duas obras publicadas pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) – vinculada à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP – e um lançamento da Editora-Laboratório Com-Arte, ligada ao curso de Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (leia o texto abaixo). Os vencedores do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2025 – que escolheu como Personalidade Acadêmica do Ano o sociólogo e professor da USP José de Souza Martins (leia neste link) – serão conhecidos no dia 5 de agosto.

Homem careca e de óculos.
O professor Antônio Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da USP - Foto: Reprodução/X

Obra surgiu na forma de apostilas

Segundo Antônio Joaquim Severino, houve dois fatores que o motivaram a escrever Metodologia do Trabalho Científico. O primeiro aconteceu quando ele foi estudar Filosofia na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, graças a uma bolsa de estudos. Lá, ele conta que teve aulas com o professor Georges Van Riet (1916-1998), que ensinava técnicas práticas do estudo antes de adentrar o conteúdo da disciplina. “Ele nos mostrou como consultar as revistas, como utilizar as enciclopédias, como iniciar o trabalho científico mesmo. Isso foi uma aprendizagem, e eu reconheço a influência desse professor na tomada dessa decisão.”

O segundo fator destacado por Severino ocorreu depois que ele voltou ao Brasil e começou a dar aulas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Tive que dar aulas de filosofia contemporânea para o quarto ano de Filosofia. E eu logo senti que os alunos não tinham o hábito de ler os filósofos, as obras originais”, lembra. Para ele, o ensino no Brasil era muito expositivo. “O aluno tomava notas, fazia um caderno, o professor revisava, tinha trabalhos escritos que cada um fazia de um jeito. Comecei a traduzir alguns textos de filósofos europeus para lermos, já que a literatura de filosofia no nosso contexto ainda não era tão significativa.” A proposta do professor era combinar as “regras do jogo” com seus alunos, ensinando a eles o que era e como deveria ser feito cada tipo de trabalho acadêmico.

Logo o combinado resultou numa pequena apostila, depois, numa apostila maior e de melhor qualidade e, por fim, num livro. “Um dia, apareceu na minha sala José Cortez, que tinha uma banca de livros no prédio velho da PUC. Ele disse que os alunos estavam procurando uma apostila chamada Metodologia do Trabalho Científico. Eu dei a ele as cópias restantes e ele as vendeu. Depois, em novembro de 1974, apareceu na minha sala e propôs que melhorássemos a apostila para publicá-la. E a Editora Cortez nasceu com esse primeiro livro, que foi lançado em agosto de 1975″, relembra.

Livro teve modificações ao longo das 24 edições

A aceitação da obra ao longo das décadas foi grande, o que faz de Metodologia do Trabalho Científico um clássico até hoje. Severino conta que o número de exemplares vendidos sempre foi e continua alto ainda hoje, o que lhe rendeu, inclusive, convites para palestras e participações em ambientes menos esperados. “Uma vez, fui convidado por bancos para fazer palestras sobre essas questões, porque o pessoal do Banespa, por exemplo, me dizia que fazia os relatórios de acordo com o meu livro. O Banco Itaú me chamou para dar um curso também.” 

O livro passou por alterações significativas ao longo de suas 24 edições. “A primeira edição tinha 80 páginas. Hoje, já está em mais de 300. Na época das primeiras edições, ainda não se falava em pós-graduação, porque os programas de pós-graduação no Brasil não estavam desenvolvidos”, lembra o professor. “Nas edições mais antigas, fiz um levantamento das revistas científicas de todas as áreas e coloquei uma emenda com os endereços, já que, à época, não havia internet. Mas eliminei isso nas edições mais recentes, porque, evidentemente, hoje não faz mais sentido. Você tem essa informação facilmente acessível pela internet.”

Capa de livro com desenho abstrato.
Lançado há 50 anos, o livro do professor Antônio Joaquim Severino está na 24ª edição - Foto: Divulgação

Severino espera que a sua obra seja compreendida como um auxílio acadêmico elementar. “Não é um livro de iniciação à pesquisa científica propriamente dita. Eu recomendo que o estudante, além desse tipo de manual que é sobre o trabalho acadêmico, tenha o seu manual de pesquisa aplicada. Afinal, cada área do conhecimento tem os seus métodos e as suas técnicas específicas de pesquisa. Aqui, estamos tratando dos hábitos gerais”, explica. Como exemplo da utilidade prática de suas recomendações no dia a dia, ele cita uma pessoa que lhe disse ter usado o livro para ensinar a mãe a acessar o computador. “Eu só trato de coisas muito elementares, porque um princípio que eu sigo é que só ponho no livro de metodologia aquilo que realmente sei fazer. Sei que a informática e o computador têm muito mais potencialidades, mas, como não as domino, não coloco isso no livro. O que está no livro é aquilo que qualquer estudante autodidaticamente pode apreender e começar a praticar.”

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Para o professor, o elemento mais difícil da pós-graduação é exatamente a realização da pesquisa para a dissertação de mestrado e para a tese de doutorado, e as lacunas da pedagogia universitária nesse âmbito ainda o preocupam. “O ensino superior deveria se caracterizar, sobretudo, por isto: no ensino médio, nós nos apropriamos desses conteúdos, dessas informações. Agora, a diferença do ensino superior, da pedagogia universitária, é que começamos a nos transformar em produtores de novos conhecimentos. Isso significa ter uma vivência na dinâmica científica”, diz. Severino define a pesquisa como “o melhor princípio pedagógico”. E conclui: “O professor também só ensina bem, só ensina significativamente, quando faz isso por meio de uma prática investigativa”.

Sete livros da Editora da USP estão na final do Prêmio Jabuti Acadêmico

Sete livros da Editora da USP (Edusp) estão na final do Prêmio Jabuti Acadêmico, que será entregue no dia 5 de agosto, em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, quando serão conhecidos os vencedores em cada uma das 26 categorias em que o prêmio é concedido. Os livros são: Robótica Educacional, organizado por Roseli Aparecida Francelin Romero, Epidemiologia Nutricional Aplicada à Obesidade, de Maria Laura da Costa Louzada, Multifuncionalidade da Agricultura Familiar: a Sustentabilidade de Sistemas Agroalimentares, organizado por Fábio Frattini Marchetti e Paulo Eduardo Moruzzi Marques, Rastros do Mundo: Experiência e Repetição em Samuel Beckett, de Luciano Gatti, A Teoria dos Conjuntos e os Fundamentos da Matemática, de Rogério Augusto dos Santos Fajardo, Lições de Homologia, de Marcio Colombo Fenille, e Da Alma do Mundo: Uma Hipótese da Física Superior para Esclarecimento do Organismo Universal, traduzido por Márcia Cristina Ferreira Gonçalves.

O diretor-presidente da Edusp, professor Sergio Miceli, destaca que os livros classificados para a final do prêmio pertencem a áreas do conhecimento nas quais a USP produz muito conhecimento e é bastante competitiva, citando como exemplo a categoria de Matemática, Probabilidade e Estatística, a que estão ligadas duas obras finalistas –A Teoria dos Conjuntos e os Fundamentos da Matemática e Lições de Homologia“Matemática é uma área que vende muito bem, porque são livros escritos com uma linguagem acessível, são baratos e competem com o domínio de traduções estrangeiras”, diz Miceli. “Além disso, trata-se de uma área de exatas que equaciona bem o tipo de comunicação que deve ser levado a estudantes do ensino superior.” O professor ressalta que a maioria dos livros é de professores da USP e que eles não se tornaram finalistas por acaso. “As pessoas não sabem que a Edusp e a USP têm tanto protagonismo em termos editoriais. Mas têm, são áreas de competência forte da Universidade e, como consequência, da Edusp. E são importantes para a nossa receita.”

Editora da Fealq e Com-Arte também concorrem à premiação

Já Humberto Marques, editor da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), celebra os resultados dos títulos da editora, ambos na categoria Ciências Agrárias e Ciências Ambientais: “Neste ano, foram 2.004 trabalhos inscritos no total de categorias do Jabuti Acadêmico. Então, chegar às finais simboliza o reconhecimento de um trabalho editorial desenvolvido pela fundação há quase meio século, e que se intensificou nos últimos anos”. Sobre as duas obras finalistas editadas pela Fealq, ele considera Agricultura Familiar: Marketing ético – Onde o Amor e o Alimento se Unem para Sempre, assinado por dez autores, “muito importante” para o agro, no sentido de trazer “conceitos aplicados atualmente no marketing para dentro do universo da agricultura familiar”, tendo em vista o papel da agricultura familiar como principal força motriz da produção de alimentos no País e a importância do marketing para agregar valor a esses produtos. Já Hidrologia: Conceitos e Exercícios com Aplicações Práticas, de Hans Raj Gheyi, José Carlos de Araújo, Raimundo Nonato Távora Costa e Sergio Nascimento Duarte, é visto por Marques como um “conteúdo que foi pensado para apoiar os estudantes no aprendizado de conceitos básicos e práticos de hidrologia em diferentes áreas da engenharia, que propõe exercícios, traz dados e discute soluções para problemas hidrológicos na atualidade”.

A professora Marisa Midori, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, uma das responsáveis pela Editora-Laboratório Com-Arte, enaltece a primeira participação da editora no prêmio, com a obra Páginas Coloridas, de Alex Francisco, na categoria Comunicação e Informação. “Para nós, é um grande feito. É um trabalho coletivo e em cima de um texto que é essencial.” Ela conta que o livro é parte da Coleção Universo e Sociedade, que tem como característica que todos os seus livros sejam originados de trabalhos acadêmicos. “São mestrados ou doutorados que conversam com a sociedade e cujos objetos de pesquisa dialogam com questões muito atuais.” É o caso da obra de Alex Francisco, que tematiza editoras que têm como foco o público LGBTQIAPN+, fazendo um levantamento sobre o número de editoras que também têm esse foco e dando um breve resumo sobre as suas ferramentas de atuação ao longo dos anos.

Confira a lista completa dos finalistas da segunda edição do Prêmio Jabuti Acadêmico neste link.

* Estagiário sob supervisão de Roberto C. G. Castro

**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado


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