Desafios da COP30 são tema da nova edição da revista Estudos Avançados

Dossiê traz artigos de especialistas na área ambiental - entre eles, José Goldemberg e Paulo Artaxo - com reflexões e propostas para a conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que será realizada em novembro, em Belém do Pará

 28/07/2025 - Publicado há 8 meses     Atualizado: 05/08/2025 às 14:24

Texto: Luiz Prado
Arte: Gustavo Radaelli*

Artigos publicados na nova edição da revista Estudos Avançados tratam dos principais temas que devem pautar a COP30 – Foto: Dean Calma/IAEA/Wikimedia

A edição 114 da revista Estudos Avançados, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, que acaba de ser lançada, traz análises sobre os principais desafios que deverão ser encarados na COP30, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas que ocorrerá em novembro, em Belém, no Pará. Entre esses desafios, os nove artigos sobre o tema publicados no dossiê Desafios da COP30 abordam a crise climática, a devastação da Amazônia, o papel da agropecuária na solução dos problemas ambientais e as perspectivas de proteção socioambiental. A revista está disponível gratuitamente, na íntegra, neste link.

O texto de abertura do dossiê, As Expectativas para a COP30 em Belém, oferece um panorama do que a conferência pode representar para o futuro do planeta. Seu autor, José Goldemberg, físico, professor emérito e ex-reitor da USP, aponta que o desafio da COP30 será lidar com os temas não resolvidos da COP29, que aconteceu em 2024 em Baku, no Azerbaijão.

Segundo Goldemberg, o principal objetivo da COP29 era atualizar os compromissos financeiros dos países industrializados diante das necessidades dos países em desenvolvimento. “Essas necessidades foram avaliadas pelo Comitê de Finanças da Convenção em US$ 5 trilhões a US$ 7 trilhões de 2022 a 2030, isto é, cerca de US$ 455-485 bilhões por ano”, escreve o professor. Durante a COP29, foi adotado um compromisso entre os países na casa dos US$ 300 bilhões por ano, até 2035.

Homem careca, com gravata e paletó.

O professor José Goldemberg - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mas isso não representa a solução para todos os problemas, aponta Goldemberg. “A aplicação desses recursos não impedirá que a temperatura da Terra ultrapasse 2,6°C até o fim do século. Ações adicionais serão imprescindíveis para evitar que a temperatura da Terra aumente apenas 1,5°C, como um novo Plano Marshall para combater o aquecimento global ou novas políticas públicas.” Por isso, caberá à COP30 fazer uma atualização realista desse financiamento climático, entendendo também como será sua destinação. Que parte irá para mitigar, para se adaptar e para compensar as perdas oriundas do aquecimento global.

Além disso, o professor salienta que a Amazônia deverá ser uma pauta central do evento. “É evidente que, sendo realizada em Belém, haverá grande ênfase na preservação da Floresta Amazônica”, escreve. Contudo, Goldemberg indica que é importante entender como a discussão deverá ser conduzida. “É preciso não perder de vista que a contribuição do Brasil às emissões globais de gases de efeito estufa é modesta (4,43% em 2022) e que será preciso adotar resoluções que levem os grandes emissores (principalmente Estados Unidos e China) a assumir suas responsabilidades reais”, pondera o professor.

Já o professor do Instituto de Física da USP e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP Paulo Artaxo acredita que a COP30 será uma oportunidade para o Brasil reassumir a liderança global nas questões de mudanças climáticas. É o que ele assinala no texto COP30 e o agravamento da crise climática – Caminhos para a construção de uma sociedade sustentável. Artaxo frisa, porém, que a conferência acontecerá em um panorama internacional desfavorável aos avanços na governança global.

“Precisamos aproximar a ciência das políticas públicas relativas às questões ambientais e climáticas, em todas as áreas. Somente com um trabalho multidisciplinar integrado, particularmente com os países em desenvolvimento, poderemos construir um caminho de sustentabilidade”, escreve o professor. Ele defende que é preciso buscar uma alternativa aos combustíveis fósseis, a principal causa dos problemas climáticos.

Homem de barba e camisa de manga longa.

O professor Paulo Artaxo - Foto: Ricardo Albuquerque

O professor também considera importante a criação de políticas de adaptação ao novo clima, sobretudo nos países mais vulneráveis. “Nessa tarefa é fundamental a implementação de mecanismos de financiamento para que países menos desenvolvidos possam implementar sua transição energética e se adaptar ao novo clima”, afirma Artaxo, fazendo coro a Goldemberg.

Ele pontua ainda que, se o crescimento da emissão de gases de efeito estufa (GEE) seguir no ritmo atual, a tendência é que a temperatura média global aumente em torno de 4,3°C ao longo do século. E, mesmo com o cumprimento das metas atuais de redução por parte da maioria dos países, o aumento esperado ainda será de 3,1°C, o que, para o Brasil, significaria um aumento de 4ºC a 4,5°C.

“Esse aquecimento exacerbado terá efeitos profundos sobre o clima, o meio ambiente, as economias e a população. O aumento das temperaturas médias está associado a uma maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas, tempestades e inundações”, comenta Artaxo. “Esses eventos são esperados para se tornarem mais frequentes e severos, com impactos significativos sobre a agricultura, a infraestrutura, na saúde das populações e na vida cotidiana no Brasil e em todo o planeta.”

Também procurando soluções, o artigo Amazônia em risco e a COP30 como uma oportunidade crítica para evitar o ponto de não retorno trata das maiores ameaças enfrentadas hoje pela Amazônia, apresentando estratégias baseadas na governança e na natureza que devem estar no radar da COP30. O texto é assinado por Carlos Afonso Nobre, pesquisador do IEA e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, ao lado de Julia Arieira, doutora em Agricultura Tropical, e Diego Oliveira Brandão, doutor em Ciência do Sistema Terrestre, ambos membros da Secretaria Técnico-Científica do Painel Científico para a Amazônia.

O trio escreve que a conferência representa uma oportunidade para se debater e se encaminhar soluções que possam proteger todos os ecossistemas da Terra. Sobretudo no que toca à preservação dos limites ecológicos que mantêm a integridade da Floresta Amazônica e o bem-estar de suas populações. “Para que isso se concretize, é fundamental que o diálogo entre governos, sociedade civil, comunidades locais, setor privado e academia esteja ancorado tanto na ciência quanto nos saberes locais”, afirmam os autores.

Diante de um quadro de desmatamento, degradação florestal e queimadas, acompanhado pelas mudanças climáticas e aumento das secas, a Floresta Amazônica está rumando para um ponto de não retorno, alertam. Para evitar esse cenário, os autores sugerem que se pensem soluções baseadas na natureza.

“A Floresta Amazônica só existe porque sustenta, ela mesma, as condições necessárias à sua sobrevivência”, escrevem. “Fruto de uma longa evolução, abriga altíssima biodiversidade, recicla água e nutrientes de forma extremamente eficiente e mantém um clima úmido que dificulta a propagação de incêndios. Esses mecanismos asseguram sua manutenção e garantem serviços ecossistêmicos essenciais para o planeta, como o armazenamento de carbono e a exportação de umidade para outras regiões da América do Sul por meio dos chamados ‘rios voadores’.”

Tendo isso em vista, os autores afirmam que a restauração florestal na Amazônia deve estar atrelada a medidas de segurança alimentar e geração de empregos, ao uso de técnicas de pecuária e agricultura regenerativas e ao emprego de infraestrutura sustentável, com energia baseada na biomassa florestal e no aproveitamento da radiação solar. Isso tudo sem desconsiderar os saberes ancestrais.

“A COP30 será decisiva para a construção de caminhos que conciliem desenvolvimento sustentável e justiça climática – uma justiça que reconhece que os impactos das mudanças climáticas afetam diferentes grupos sociais de forma desigual, tanto em intensidade quanto em vulnerabilidade”, apontam os autores.

O papel da agropecuária no combate às mudanças climáticas é o tema central do artigo assinado pelo professor Carlos Eduardo Pellegrino, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em parceria com outros dez autores. Pellegrino recorda que a agropecuária é uma das principais responsáveis pela emissão dos gases de efeito estufa, mas, ao mesmo tempo, é uma das atividades mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, sobretudo em países de clima tropical, como o Brasil. “Nesse sentido, é irrevogável a relevância e a efetividade das políticas públicas e compromissos brasileiros para a mitigação das emissões de GEE nos últimos anos, especialmente por atividades associadas à agropecuária.”

Para isso, contudo, Pellegrino frisa que é preciso coordenar intervenções técnicas e políticas de alto impacto, capazes de atender a todos os atores do setor agropecuário. Nessa direção, ele lembra o papel do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (Ccarbon) da USP, exemplo de iniciativa acadêmica que oferece auxílio na implementação de estratégias de adaptação e mitigação às mudanças climáticas.

Indo além da economia, o dossiê trata ainda da importância da proteção socioambiental diante das mudanças climáticas. O texto do professor Marcel Bursztyn, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), escrito com outros quatro pesquisadores, discute abordagens integrativas para regulação, adaptação e mitigação das mudanças ambientais que têm seu foco simultaneamente na proteção das pessoas, do ambiente e da economia. Meio ambiente, clima, transição energética, pobreza, alimentação, saúde e migrações são alguns dos temas no horizonte dos autores.

“Em maior ou menor grau, os grandes desafios da atualidade vêm sendo tratados por políticas específicas. Mas há pouca coordenação entre tais ações, de forma que a busca de solução para um problema pode acarretar o agravamento de outros”, escrevem os autores. “Os grandes problemas mundiais – paz, clima, saúde, alimentação, desigualdades sociais, migrações, degradação ambiental, entre outros – estão entrelaçados, seja por suas causas, seja por suas consequências. Alguns deles podem ser minimizados, se agirmos de forma responsável e coordenada.”

Homem com cabelos e barba brancos, com óculos escuros.

O professor Marcel Bursztyn, da Universidade de Brasília (UnB) - Foto: Plataforma Lattes

Sociedade e ambiente

A nova edição da revista Estudos Avançados traz ainda o dossiê intitulado Sociedade e ambiente, que segue com preocupações similares às do dossiê sobre a COP30. Um dos nove artigos presentes nesse dossiê é Zoneamento Ecológico-Econômico: panorama e interface com o planejamento e as políticas públicas, que aborda o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) no Brasil, tendo em vista seu papel de instrumento para o planejamento e o subsídio de políticas públicas. Mecanismo da Política Nacional de Meio Ambiente instituída em 1981, o zoneamento ambiental procura lidar com os conflitos ambientais, sociais e econômicos ligados ao desenvolvimento.

O artigo – escrito pela secretária de Estado de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, Marcia Renata Itani, pela professora do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da USP Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo e pela doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP Maria de Lourdes Zuquim – é fruto de uma revisão bibliográfica e documental do tema, acompanhada de entrevistas com representantes dos órgãos responsáveis pelo ZEE. A partir desses dados, as autoras indicam que somente 28 das 79 iniciativas de ZEE foram aprovadas por lei no País, o que demonstra o pouco interesse dos gestores públicos no subsídio do planejamento e implementação dessas políticas públicas.

Já o texto Gestão privada das florestas públicas do Brasil: análise de contratos de concessão investiga o Sistema de Gestão Florestal Brasileiro (SGF), tendo em vista o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC). O professor da Universidade Santo Amaro (Unisa), em São Paulo, Victor Pegoraro, em parceria com outros quatro autores, parte do estudo de caso das concessões das Unidades de Manejo Florestal de Jamari, em Rondônia, e Altamira, no Pará. Eles identificam que a preocupação com a concorrência na elaboração dos contratos de concessão pública de zonas florestais está abaixo do necessário. O que acende um alerta, tendo em vista a tendência de aumento no uso desse mecanismo como forma de manejo florestal sustentável pelo governo federal.

“Com o crescimento da concessão florestal deverá crescer também o olhar atento das autoridades concorrenciais com as estruturas de mercado e as condutas anticompetitivas”, indicam os autores. “Isso porque, com a expansão das concessões públicas de zonas florestais, será necessário também expandir os mecanismos de fiscalização do reflorestamento e das zonas de extração dos produtos madeireiros e não madeireiros, de acompanhamento da cadeia de custódia e de cumprimento das cláusulas contratuais, em especial aquelas atinentes ao respeito às comunidades locais.”

Homem de barba, sorrindo, com gravata e paletó.

O professor Victor Pegoraro, da Universidade Santo Amaro (Unisa), em São Paulo - Foto: Reprodução/LinkedIn

Os autores acreditam que a concessão pública de zonas florestais pode ser um bom instrumento de defesa do meio ambiente, desde que os indicadores previstos nas normas sejam realmente observados. Exemplos deles são o monitoramento do crescimento e recuperação das florestas e a redução de danos das florestas remanescentes durante processos de exploração. Com eles, indicam os autores, seria possível impedir o extrativismo predatório, criar políticas de incentivo ao reflorestamento e responsabilizar os concessionários por danos nas áreas concedidas.

Arte e cultura

Um terceiro dossiê publicado na edição 114 de Estudos AvançadosArtes e Cultura, traz um artigo do professor João Roberto Faria, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sobre a opereta Abel, Helena, de Artur Azevedo. Trata-se de um estudo crítico em que Faria compara a obra do brasileiro com a opereta La belle Hélène, de Offenbach, cujo libreto é assinado por Ludovic Halévy e Henri Meilhac. O professor escreve sobre a produção do cômico utilizada tanto por Azevedo quanto pelos franceses. Faria identifica os pontos de contato e os afastamentos entre as obras, enquanto discute também a intertextualidade construída por Azevedo.

Em outro artigo do dossiê, o professor Noel dos Santos Carvalho, do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apresenta uma entrevista realizada com o cineasta Cacá Diegues, que morreu em fevereiro passado. Realizada virtualmente nos dias 30 de junho e 5 de julho de 2021, a conversa integra as pesquisas de Carvalho sobre o imaginário e as práticas dos cineastas brasileiros.

“Cacá Diegues foi um dos principais cineastas brasileiros da segunda metade do século 20”, escreve o professor. “Seus filmes narram as histórias e a cultura de uma parte do povo brasileiro nem sempre retratada com profundidade pela mídia. Celebram nossa brasilidade mediante uma abordagem autoral da cultura popular sem deixar de expor criticamente nossas mais agudas contradições, preconceitos e convivência precária.”

Homem careca e com óculos.

O professor Noel dos Santos Carvalho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Foto: Reprodução/IAR-Unicamp

O dossiê conta ainda com o texto Nas cores da criação: religião vivida e cultura regional em Antônio Poteiro, do professor José Reinaldo Martins Filho, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás. O autor parte da obra de Antônio Batista de Sousa – o Antônio Poteiro –, nascido em Portugal e que viveu 43 anos em Goiânia (GO), para discutir a identidade nacional.

O professor considera a identidade nacional como uma composição, reunindo uma série de modelos regionais, reflexos de uma variedade rica de expressões, em que a religião ocupa posição de destaque. “O tema da cultura popular, espaço em que se embrenhara pela maior parte de sua vida, tornou-se central na obra de Poteiro”, registra Martins Filho. “Nessa atmosfera, talvez, a religiosidade do povo, suas práticas de devoção e principais festas viriam a se destacar como núcleo de sua produção.”

Ele explica que, mesmo sem acesso às fontes de investimento e visibilidade, as culturas regionais populares são aquelas que sustentam de maneira mais forte a identidade nacional. “Para que políticas públicas voltadas à sua preservação e continuidade sejam eficazes”, afirma Martins Filho, “é necessário aprofundar a compreensão dos processos de transformação aos quais estão naturalmente submetidas, sem confundir continuidade com estagnação ou ‘folclorização’ da cultura, que é a vida do povo e, por isso mesmo, dinâmica, plástica e constantemente em processo de reelaboração”, escreve o autor.

Homem com óculos, paletó e gravata borboleta.

O professor José Reinaldo Martins Filho, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás - Foto: Plataforma Lattes

Revista Estudos Avançados, número 114, Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, 432 páginas

A revista está disponível gratuitamente, na íntegra, neste link.

*Estagiário sob supervisão de Moisés Dorado


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