Cientistas aprofundam estudos sobre a “arte-imitação” dos romanos no Erechtheion

Arqueólogos da USP e da Universidade de Palermo trabalham na virtualização 3D para desvendar os estilos de decoração arquitetônica sobrepostos no icônico templo grego

 27/07/2025 - Publicado há 8 meses     Atualizado: 06/08/2025 às 15:13

Texto: Tabita Said
Arte: Jornal da USP

Equipe ítalo-brasileira trabalhando no Erechtheion. Edifício apresenta planta singular e trajetória histórica marcada por transformações e controvérsias, desde sua conversão em igreja cristã até os espólios levados por missões estrangeiras – Foto: cedida pela equipe de pesquisadores USP/ Unipa

Leia este conteúdo em InglêsUma equipe de arqueólogos brasileiros e italianos está empenhada em “descascar” as camadas de decorações feitas ao longo de séculos de reformas do Erechtheion, o sagrado templo da Acrópole de Atenas, na Grécia. Com ajuda de tecnologia de ponta, a equipe ítalo-brasileira da USP e da Universidade de Palermo (Unipa) mapeou e agora analisa milhares de imagens em alta resolução, além de fragmentos do edifício conhecido mundialmente por seu emblemático Pórtico das Cariátides.

Junto do Partenon e do Propileu, o Erechtheion é um dos edifícios mais antigos e importantes da Grécia Antiga, localizado na acrópole – o local mais alto das antigas cidades gregas. A Acrópole de Atenas é o mais popular sítio arqueológico da Grécia, chegando a receber 20 mil turistas por dia.

De acordo com Leonardo Fuduli, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e coordenador da pesquisa, o objetivo é desvendar as tendências arquitetônicas e decorativas do Erechtheion. Mas, para isto, é preciso diferenciar: o que há de tradição específica da Grécia, o que pode ser chamado de hibridismo greco-romano e até mesmo uma possível tentativa de imitação do estilo grego nas reformas que ocorreram entre o final do século 2 e os primeiros 30 anos do século 3 da era comum (EC) ou depois de Cristo (dC). 

“Nosso foco é a restauração romana, da época de Augusto [primeiro imperador de Roma], e as restaurações secundárias, menores, da Dinastia Severa. O desafio é analisar a estrutura antiga do Erechtheion também entre as restaurações modernas”, afirma Fuduli. 

Leonardo Fuduli é responsável pelo projeto PRArch (Provincial Roman Architecture) - Foto: MAE/USP

Leonardo Fuduli é responsável pelo projeto PRArch (Provincial Roman Architecture) - Foto: MAE/USP

Para Massimo Limoncelli, professor do Laboratório de Arqueologia Virtual da Unipa e parceiro do projeto, a aplicação de novas tecnologias digitais na documentação da arquitetura antiga pode viabilizar inúmeras descobertas. Dentre elas, o estudo da policromia antiga, a reconstrução do monumento durante os períodos Péricles e dos imperadores Augusto e Severo, até as fases individuais de restauração ao longo de dois séculos. Tudo isso utilizando técnicas de análise diagnóstica não destrutivas, preservando tanto réplicas quanto itens originais.

Junto das vantagens na pesquisa, a utilização dos modelos 3D permite ainda a criação de soluções multimídia voltadas ao público. “Eles transmitem a imagem de edifícios antigos antes que o tempo os transformasse em ruínas. Juntamente com o valor simbólico que incorporam, que também deve ser protegido como manifestação da cultura ocidental”, diz Limoncelli.

Erechtheion: templo de deuses e humanos

O Erechtheion nasceu como a síntese dos cultos ancestrais de inúmeras divindades da cidade de Atenas, que teria se originado após uma disputa entre Atena e Poseidon pela posse da Ática. Construído em duas fases, o templo abrigava o culto a Poseidon, Atena, à serpente (filha de Atena), Cécrope (um dos primeiros reis de Atenas) e ao mítico rei Erecteu. 

Com a destruição do templo de Atena Polias, alguns estudiosos defendem que o Erechtheion substituiu o primitivo, tornando-se o principal templo da cidade e incorporando seus tesouros. “É um templo único, que tem uma forma que nenhum templo tem na Grécia Antiga ou no mundo antigo. É um templo absolutamente irrepetível”, destaca Fuduli. Ele lembra que a estátua de Atena Polias, de acordo com a tradição, era uma estátua de madeira que não teria sido feita por mãos humanas, mas teria caído do céu. 

O pesquisador conta que, a princípio, não estava interessado nas esculturas de representação humana do Erechtheion, o que inclui as Cariátides – estátuas femininas que ficam no pórtico sul do edifício e servem como colunas que sustentam o entablamento. “Na verdade, ele tem muitas outras coisas importantes conectadas com a cidade de Atenas, a origem da cidade e depois com a época romana, inclusive a época de Augusto e do Septímio Severo.” 

Septímio Severo foi o primeiro cidadão sem ascendência romana a alcançar o trono. Com ele, o império romano inaugurou uma era de governança africana e uma nova representação do estilo romano na Arte. A Dinastia Severa, uma das últimas de Roma, governou o império por cerca de 40 anos. De acordo com o coordenador da pesquisa, a Era Severa foi marcada pela política de construção de novos edifícios, restauração de edifícios antigos e urbanização em algumas regiões do império, das quais permanecem imponentes ruínas até os dias de hoje. 

Entre essas marcas, o imperador de origem berbere deixou uma inovação justamente entre as Cariátides. “Dentro da Acrópole de Atenas, foram dedicadas duas estátuas à imperadora, a mulher do Septímio Severo, a Júlia Domna [uma mulher árabe da Síria], ao lado de Atena, que era a deusa da cidade. Isso é muito raro”, aponta o pesquisador.   

Fuduli acredita que, ao serem colocadas as duas estátuas humanas de Júlia Domna ao lado da deusa Atena, o Erechtheion passou por uma nova reforma pelas mãos romanas, cerca de dois séculos após uma última grande reforma feita pelo imperador Augusto, após um incêndio no templo.

“Quando os romanos reformaram esses edifícios, tentaram imitar do modo mais preciso possível a decoração arquitetônica grega original. Mas eles não conseguiram esconder totalmente suas intervenções. A nossa análise pode estar revelando que tem uma diferença entre a decoração romana que imita a grega no Erechtheion” – Leonardo Fuduli

Após o trabalho de campo e inúmeras análises de itens originalmente retirados do templo que estão sob a guarda do Museu da Acrópole, os pesquisadores seguem analisando fragmentos de parte do teto e de um item que teria sido caracterizado como parte de um altar. “Este é um mistério que estamos tentando entender. Eu não acredito que tenha sido um altar, mas poderia ser uma parte da decoração conectada, provavelmente, com o culto da deusa Atena na época romana”, afirma Fuduli. 

Com o auxílio de cientistas do Departamento “Cultura e Sociedade”, da Unipa, o fragmento foi modelado em 3D para reconstrução virtual e análise dos pigmentos identificados. “Hoje, a capacidade de gerar computacionalmente a reconstrução de volumes, a reprodução de cores e a simulação de luz de monumentos antigos permite-nos estudar a arquitetura antiga com novos métodos, alcançando resultados nem sempre alcançáveis pela pesquisa arqueológica tradicional”, ressalta Limoncelli. 

Outros elementos do Erechtheion, preservados no acervo do Museu da Acrópole, foram analisados pelo grupo usando a técnica de imagem multiespectral 2D. Ela fornece informações sobre traços desbotados ou invisíveis de policromias antigas originalmente presentes no edifício. 

Massimo Limoncelli é professor da Universidade de Palermo, na Itália - Foto: Leonardo Fuduli

Massimo Limoncelli é professor da Universidade de Palermo, na Itália - Foto: Leonardo Fuduli

A técnica também permite a análise da condição real do artefato, criação de mapas de degradação e a identificação de traços de restaurações anteriores. De acordo com Limoncelli, especificamente, as análises foram realizadas usando reflectografia infravermelha , reflectografia ultravioleta e fluorescência ultravioleta. 

Foto do Erechtheion mostra o pórtico norte, correspondente à entrada do templo, com seis colunas jônicas bem altas e finas, na parte esquerda da imagem; à direita, está a varanda das Cariátides, cujo teto é sustentado por seis estátuas femininas esculpidas. Em frente ao templo, ligeiramente à direita, há uma oliveira frondosa, plantada em um pequeno canteiro circular com pedras em volta. Há turistas caminhando em torno de todo o edifício
Diferentemente do Erechtheion, o Partenon não foi considerado um templo, mas uma oferenda da estátua criselefantina da deusa Atena para a cidade, bem como a oliveira, em frente ao Erechtheion, que foi escolhida pelo povo como melhor presente do que o cavalo e a fonte de água salgada, oferecidos por Poseidon - Foto: Kirk F / Public Domain Pictures

Tradição grega, inovação romana

O grupo de pesquisa já deixou o campo, onde utilizou um drone para mapeamento detalhado das estruturas e fotogrametria 3D– técnica de levantamento que permite a renderização tridimensional das imagens. Também lançaram mão da tecnologia de laser Lidar (acrônimo de Light Imaging Detection and Ranging) para documentar os elementos arquitetônicos do Erechtheion, preservados no Museu da Acrópole, bem como levantamento topográfico, para localização do edifício dentro de uma rede de satélites. Até agora, já foram geradas mais de sete mil imagens.

“Trabalhar neste local é absolutamente mítico, e mais do que tudo: com ele vazio”, destaca Claudia Gradim, doutoranda do MAE que integrou a comitiva brasileira no Erechtheion. O grupo só foi autorizado a trabalhar no local antes das 8 horas da manhã e após as 20 horas, períodos em que, segundo a pesquisadora, “o lugar perde aquele caráter de atração turística e a gente viaja no tempo, às origens”.

Claudia também busca os vestígios do binômio “tradição grega-inovação romana”, mas nos banhos e termas de províncias romanas. “Para mim foi muito útil observar as técnicas que eles empregam, como aquilo tudo vai se somando para criar as projeções. E, a partir dali, trazer uma reconstituição. Nunca participei de nada igual”, diz.  

Uma reconstituição que só é possível, segundo Massimo Limoncelli, graças à interação entre o monumento real – ainda que com espaços “mutilados” – e a realidade virtual. “A arqueologia virtual representa, hoje, uma resposta estratégica à tendência, por vezes preocupante, de restauração de monumentos, visando ao aumento do turismo de massa. Reconstruções de edifícios antigos são frequentemente solicitadas por instituições locais e percebidas como a única maneira possível de ‘valorizar’ sítios históricos’”, aponta.

DESCRIÇÃO: mulher de cabelos escuros e lisos, olhos castanhos e sorrindo; está usando brincos grandes e um óculos de sol na cabeça

Claudia Gradim é pesquisadora do MAE e integrou a comitiva brasileira ao Erechtheion - Foto: Researchgate

A pesquisadora do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial (Larp) da USP acredita que a Antiguidade Clássica, não só a grega, é parte de um passado comum. “É isso o que a arqueologia traz: elementos do passado, encontrados, escavados, que ajudam a explicar o presente. Às vezes nos esquecemos que aqueles prédios, aqueles objetos, que para nós são ‘estruturas’ e ‘artefatos’, eram apenas parte da vivência cotidiana das pessoas que os produziam e utilizavam.”

Sobre o projeto

O projeto PRArch (Provincial Roman Architecture) é coordenado por Leonardo Fuduli, Jovem Pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sediado no Larp.

A iniciativa é realizada em colaboração com o professor Massimo Limoncelli, do Dipartimento Culture e Società, da Università degli Studi di Palermo, e conta com a autorização e o apoio do Ephoreia Archaioteton Polis Athenon (representado por Elena Kountouri e por Nikolaos Tsoniotis), e do Serviço de Restauração da Acrópole (YSMA), especialmente de Giasemi Frantzi, responsável pela conservação da superfície do Erechtheion.

Mais informações: leonardo.fuduli@usp.br, com Leonardo Fuduli


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