Em uma foto em preto e branco, Frantz Fanon, um homem negro de cabelos curtos, vestindo terno e gravata, sobe a passarela de um navio em meio a várias outras pessoas, todas brancas. Atrás dele, há Rheda Malek, um homem branco de óculos.

O que restou de Frantz Fanon

Pesquisadora percorre Europa e África em busca de rastros documentais do revolucionário martinicano que foi um dos maiores pensadores da luta anticolonial. Seu estudo recebeu menção honrosa no Prêmio Tese Destaque USP

 23/07/2025 - Publicado há 8 meses

Texto: Diego Facundini*

Frantz Fanon sobe a passarela de um navio. Atrás dele, o jornalista Rheda Malek, que escrevia para o jornal da Frente de Libertação Nacional (FLN) da Argélia, El Moudjahid - Foto: Frantz Fanon Archives/Imec via Tricontinental

Para entender Frantz Fanon, um dos pensadores mais revolucionários da questão colonial e do racismo, a psicanalista e pesquisadora Priscilla Santos de Souza teve que se debruçar sobre a história de um século. Isso, pois, há cem anos, a Martinica, uma ilha caribenha cuja história e demografia foi profundamente moldada pela invasão europeia e pelo tráfico transatlântico de escravos, era mais um território sob o regime colonial da França. Foi lá que, em 20 de julho de 1925, nasceu o psiquiatra e militante Frantz Fanon.

O trabalho de Priscilla resultou na tese de doutorado intitulada Traços, restos e laços de Frantz Fanon: contribuições clínicas emancipatórias e anticolonialistas à psicanálise, que recebeu a menção honrosa na 14ª edição do Prêmio Tese Destaque USP deste 2025.

E para entender outro importante aspecto da trajetória de Fanon, Priscilla retraçou os passos do psiquiatra: a clínica psiquiátrica, prática que nunca abandonou nem mesmo durante o exílio. “Inicialmente, minha ideia era pensar as contribuições do pensamento fanoniano, da clínica fanoniana para a psicanálise, entendendo que ele conseguiu fazer inflexões para o campo da saúde mental ou pensar o sofrimento psíquico como uma categoria e compreender essa articulação desse, digamos, conceitual de sofrimento psíquico e racismo.”

Expoente de um humanismo radical, cuja filosofia era profundamente implicada em sua práxis política e sua clínica psiquiátrica, Fanon foi responsável por uma teorização que, debruçando-se sobre os efeitos do colonialismo no psicológico dos indivíduos, acabou por influenciar profundamente os escritos de toda uma geração de intelectuais críticos, tais como Lélia Gonzalez e Paulo Freire. “Ele compreende como, de alguma forma, o racismo atravessa e, portanto, constitui a subjetividade das pessoas em territórios colonizados – e talvez essa seja a grande chave do trabalho do Fanon”, explica Priscilla.

Um retrato em preto e branco de Frantz Fanon, um homem negro de cabelos curtos usando terno.

Frantz Fanon - Foto: Imec

Fanon revolucionário

Durante a Segunda Guerra Mundial, Frantz Fanon lutou contra o nazismo como parte das Forces Françaises Libres, e, pouco depois do fim do conflito, foi para a França estudar medicina, com especialização em psiquiatria. Em 1953, mudou-se para a Argélia, outra colônia francesa, para assumir o posto de médico-chefe do Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville (hoje, Hospital Frantz Fanon), sem porém averter os olhos da luta política; logo se juntou à Frente de Libertação Nacional (FLN), na qual contribuiu como psiquiatra, jornalista, diplomata e professor. Após sua renúncia do posto de médico-chefe, em 1956, ele se exilou na Tunísia, onde também descobriu uma leucemia que viria a vitimá-lo aos 36 anos, em 1961.

Foi durante esse curto período de vida que Fanon escreveu algumas das obras mais essenciais do anticolonialismo. Pele negra, máscaras brancas foi a primeira tentativa para seu trabalho de conclusão de curso na França; por último, Os condenados da terra, redigido quando já era acometido pela doença e que foi publicado postumamente.

Priscilla Santos de Souza é formada em psicologia pelo Centro Universitário Ingá (Uningá) e, agora, doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia (IP) da USP. A relação da pesquisadora com a militância teve início no movimento estudantil secundarista até a sua atuação como coordenadora sindical. Esse engajamento se refletiu tanto em sua clínica quanto em sua pesquisa. Em seu mestrado, também pela USP, ela fez a escuta de crianças e adolescentes que faziam uso de álcool e outras drogas, pensando o acolhimento desses indivíduos.

A graduação de Priscilla em História, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), talvez explique os lugares onde escolheu procurar Fanon: em seus textos psiquiátricos e nos documentos remanescentes dos locais onde ele passou. “A psicanálise e outras áreas ‘psis’ não têm o hábito de estudar prontuários, que é algo super importante. Eu já havia estudado prontuários no meu mestrado, porque eram um dos elementos que eu estudava, destes pacientes, crianças e adolescentes, nesse centro de referência que eu pesquisei. E eu compreendo que talvez ali tenha algo inédito”, pontua.

Mulher negra, com cabelos longos e encaracolados

Priscilla Santos de Souza - Foto: Arquivo pessoal

Traços, na metrópole

No prefácio de Pele negra, máscaras brancas — Editora da Universidade Federal da Bahia —, o filósofo americano Lewis R. Gordon escreveu: “Houve uma época [durante as décadas de 1960 e 1970] em que um professor universitário norte-americano que tentasse abordar a obra de Frantz Fanon em um ambiente acadêmico estaria sujeito a perder o emprego”. Foi também no final dos anos 1960 que esse mesmo livro foi traduzido em Portugal e circulou por um curto período de tempo antes de ser sumariamente censurado pela ditadura fascista portuguesa da época. Enfim, a França e outros grandes centros de poder nunca foram receptivos ao pensamento de Fanon.

No final de 2019, Priscilla visitou, primeiro, Paris, para onde retornaria quatro anos depois, em busca de rastros do psiquiatra  prontuários de hospitais onde trabalhou na Argélia ou na Tunísia. Procurando por acervos como o do Institut Mémoires de L’Édition Contemporaine (Imec), ela encontrou, na verdade, muito pouco.

“Na França, Fanon é apagado e negligenciado. Primeiro, porque ele foi tomado durante muito tempo como filósofo ou autor da violência. E aí a gente tem que qualificar o que é violência, e ele faz isso no trabalho dele. Fanon aponta a importância da violência revolucionária e os limites dessa violência, ele faz uma compreensão do germe, da origem dessa violência dentro de um território colonial”, pontua a estudiosa.

Fanon escreveu extensamente sobre como, por exemplo, a linguagem era importante para a constituição do sujeito, tanto na posição de colonizador, como de colonizado. Quando se aprende uma linguagem, como ele aponta, também se aprende uma cultura.

“O que é importante entender nessa relação é: se a linguagem que nos humaniza nos torna humano — vai dizer símbolos daquilo que a gente, pensando mais cotidianamente, vai amar, vai odiar —, como se faz essas marcas da linguagem na humanidade, ou em cada humano, quando se é profundamente atravessado por posições e relações sociais?”, explica a pesquisadora.

“O Fanon vai dizer que, se o negro existe, foi porque o branco criou, e no momento que ele cria o negro, ele cria o branco, ou seja, ele cria essas duas posições alienantes também. Para poder pensar o quanto isso faz com que você, no caso da criação do racismo, tenha que desumanizar o outro para se afirmar humano”, diz.

“O Fanon vai dizer, se o negro tem essa síndrome de inferioridade, então o branco tem uma neurose de superioridade”, completa.

Restos, na colônia

Foto antiga, em preto e branco, de um grupo de médicos e médicas, todos vestindo branco

A equipe médica do Hospital Blida-Joinville na Argélia, onde Frantz Fanon exerceu o cargo de médico-chefe de 1953 a 1956 - Foto: Frantz Fanon Archives/Imec via Tricontinental

Com a falta de registros na França, restava à pesquisadora procurar diretamente na fonte. A situação política na Argélia hoje, porém, é conturbada. O país é muito fechado e, além disso, não há uma tradição de relações acadêmicas das universidades com os países africanos. Superadas as dificuldades, Priscilla desembarcou na capital, Argel, no final de 2024.

Não muito longe de Argel fica Blida, lar do antigo Hospital Blida-Joinville. “Chego no hospital literalmente batendo na porta,” ela conta, “perguntando se eu poderia fazer minha pesquisa, e sou recebida com certo entusiasmo, de portas abertas”. Logo foi, porém, alertada: a tradição dos argelinos é majoritariamente oral, e os documentos provavelmente não estariam muito bem cuidados. Priscilla encontrou documentos rasgados, bagunçados. “Eles não cuidam desse patrimônio material. Então eu tento fazer uma articulação. A maneira com que eu pensei em fazer o estudo dos arquivos não se efetiva, mas eu vou tentando reconhecer naquele material tudo que está relacionado ao Fanon. E eu faço isso a partir dos anos dos arquivos, que é 1953 a 1956, que foram os anos em que ele esteve no hospital. Tento pegar todos esses arquivos e olhar um por um, documento por documento, tentando identificar algum traço do Fanon, como a assinatura, a letra. E eu encontro algumas coisas, mas, perto do que a gente supõe encontrar como pesquisador, foi menor”, narra.

Posteriormente, ela explorou o Fundo Frantz Fanon no Centre National de Recherches Préhistoriques, Anthropologiques et Historiques (CNRPAH). Finalmente, foi para a Tunísia, porém sem muitos frutos. Enquanto, na Argélia, todos conheciam Fanon como esse grande revolucionário que também foi psiquiatra, na Tunísia, não sobraram nem documentos, tampouco a memória de quem ele foi.

Em sua tese, Priscilla acabou por também estudar, além dos documentos que encontrou, textos já publicados e traduzidos de sua clínica.

Segundo ela, Fanon ainda empregava técnicas de tratamento mais tradicionais da psiquiatria, como o eletrochoque e o choque glicêmico, porém pensava de uma maneira muito diferente o sofrimento psíquico de seus pacientes. “Ele vai lendo essas armadilhas, digamos, do racismo, como fatores de adoecimento. Não necessariamente que todo mundo vai aderir essa mesma perspectiva. Isso é um fator. A violência é um outro fator que ele vai dizer como um fator de adoecimento. Aí ele vai pensar a violência racial especificamente, como essa violência cotidiana que a gente sofre e vai também posicionando o sujeito numa posição de sofrimento”, explica.

Laços, aqui e lá

O resgate atual aos pensamentos de Frantz Fanon não vem por acaso. É fruto de um questionamento constante feito dentro das academias por parte de movimentos negros que têm buscado ocupar cada vez mais espaço dentro das universidades.

“Eu vou pensando que eu sou filha, como muitos outros da minha geração, de uma disputa que está acontecendo agora”, comenta Priscilla.

É uma disputa que busca lançar nomes como Lélia Gonzalez, Neusa Santos Souza e Frantz Fanon como leituras obrigatórias das universidades. “As pessoas negras, quando entraram na universidade, recuperaram [os pensadores] também e foram questionando, fazendo luta para que isso não ficasse apenas como perfumaria ou como aspectos especializados”, completa.

Ao final de sua conversa com o Jornal da USP, Priscilla relembra a psiquiatra e escritora palestina Samah Jabr, que mais recentemente, escrevendo sobre a ocupação israelense da Palestina, falou sobre como, por muitas vezes, a psiquiatria ignora o sofrimento promovido pelo colonizador sobre o colonizado. “Ela faz questionamentos para ampliar, a partir dessa perspectiva fanoniana, a compreensão do sofrimento do colonizado. Então, eu vou repensando a noção de trauma em psicanálise, vou qualificando a relação da agressividade e da violência e os efeitos de um sujeito, vou repensando também a relação do que é nomeado como tortura, como terror. Isso é muito importante para eu entender o quanto o que Fanon escreveu, lá na década de 1950, permanece atual, mesmo nos exemplos mais viscerais como o que acontece hoje no território da Palestina.”

*Estagiário sob a supervisão de Antonio Carlos Quinto


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