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Agora dona Ermelinda é lembrada por várias vozes
Grupo musical feminino homenageia uma das principais responsáveis pela fundação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), faculdade da USP que desde 1901 contribui para o desenvolvimento agropecuário do Brasil
No final do século 19, o fazendeiro paulista Luiz Vicente de Souza Queiroz doou para o governo do Estado a Fazenda São João da Montanha, em Piracicaba (SP), com a condição de que ali fosse fundada uma escola de agronomia. Em 1898, aos 49 anos, Queiroz morreu sem ver o projeto concretizado. Foi sua esposa, dona Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz, que deu continuidade à ideia do marido e fez com que o governo finalmente inaugurasse, em 1901, a instituição tão sonhada pelo fazendeiro. Mais de 120 anos depois, a hoje chamada Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) — incorporada à USP em 1934 — ainda é vista pela maioria das pessoas como uma obra de Luiz Vicente de Souza Queiroz, esquecendo-se da importância de Ermelinda na criação de um dos maiores centros de ensino e pesquisa na área da agronomia do Brasil na atualidade.
Esse esquecimento está sendo combatido através da música. Desde 2023, um grupo de ex-alunas da Esalq compõe a banda Ermelindas, batizada com esse nome para homenagear e fazer lembrar aquela que é, de fato, uma fundadora da Esalq. Hoje com 27 integrantes, a banda tem três músicas gravadas nas plataformas digitais — Don’t Worry, Be Happy, de Bobby McFerrin, Agora Só Falta Você e Ovelha Negra, ambas de Rita Lee —, deve lançar mais duas canções neste ano e planeja produzir um álbum com todos os singles reunidos.
Os arranjos e mixagens são feitos pelo professor da Esalq Antonio Augusto Garcia, que é músico amador. Docente da área de Genética do curso de Engenharia Agronômica da Esalq, Garcia atua também como produtor das Ermelindas. “Temos planos de lançar músicas inéditas, mas, para isso, a banda precisa amadurecer um pouco mais, até porque ela começou como uma brincadeira e se tornou algo sério”, diz o professor e músico.
Maridos também participam
A ideia de criar uma banda foi da engenheira agrônoma, formada pela Esalq, Luciana Carlini Garcia, esposa do professor Antonio Garcia. “Em 2023, minha turma completou 30 anos de formatura. Então eu pensei que seria muito legal se conseguisse reunir as meninas para cantar. Comecei a soltar timidamente a ideia, porque não sabia se muita gente iria topar”, conta Luciana, que é diretora da banda. Segundo ela, no primeiro ano a banda já tinha 25 integrantes, além de participações especiais.
Luciana lembra que o nome do conjunto, Ermelindas, foi escolhido por meio de votação entre as participantes, assim como o logo da banda, que foi desenhado por uma das cantoras. “É legal porque as famílias se envolvem. Temos o staff muitas vezes composto pelos maridos das cantoras, que vão fazer gravações externas conosco, além de participações especiais.” Ela conta que, desde a formação do grupo, duas meninas saíram, mas quatro novas entraram, além das filhas de algumas das formadas e do neto de uma delas. No ano passado, foram em torno de dez participações especiais. “Fazemos tudo aos finais de semana, porque todas trabalhamos em diversas áreas.”
Pesquisadora da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Luciana cita que o grupo é composto de ex-alunas da Esalq formadas em Engenharia Agronômica e Engenharia Florestal, que hoje seguem diferentes carreiras. O mais importante, para ela, é que todas tenham participação equitativa nos clipes e que sejam igualmente valorizadas, independentemente de cumprirem funções executivas ou não. Para que isso seja possível, as cantoras podem enviar seus áudios e vídeos pela internet para que, depois, seja feita uma montagem com todas juntas.
Banda, estátua e revista
Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz nasceu no Rio de Janeiro, em 1856, em família abastada, e casou-se em 1880 com Luiz Vicente de Souza Queiroz. O casal foi morar em Piracicaba, onde Queiroz passou a alimentar o sonho de construir uma escola de agronomia. “Ele percebeu que tanto os negócios dele como o desenvolvimento do País dependiam da produção de produtos que fossem feitos com ciência e tecnologia, porque ele queria comprar matéria-prima e não encontrava”, explica o professor Antonio Garcia. O casal doou a fazenda de propriedade da família, em Piracicaba, para o governo de São Paulo construir ali uma escola de agronomia. Mas quem se atém à data de fundação da Esalq, 1901, percebe que ela ocorreu após a morte de Luiz de Queiroz, três anos antes. “Era um sonho dele, mas, se Ermelinda não tivesse levado esse projeto à frente, ele não teria se realizado, já que Luiz de Queiroz morreu jovem, aos 49 anos, e eles não tiveram filhos.”
Garcia lembra que a importância de Ermelinda para a fundação da Esalq vem sendo reconhecida ultimamente. Além da fundação da banda com o nome dela, a fundadora da Esalq é tema da edição número 6 da revista Esalq Sempre, publicada em março passado. Ermelinda também ganhou uma estátua no jardim da Esalq, inaugurada em 2021, como mostrou o Jornal da USP na época.
Para Luciana Garcia, a representatividade é o principal. “Isso tem a ver com a valorização do papel feminino. Se não fosse Ermelinda, talvez a Esalq não existisse hoje”, ressalta a diretora da Ermelindas. “O reconhecimento do papel feminino é um problema atualmente. Quando homenageamos Ermelinda de Souza Queiroz, trata-se da valorização da mulher na nossa sociedade.”
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