Junho costumava ser um mês deveras agitado e repleto de convites para participar dos mais variados eventos voltados para a diversidade sexual e de gênero: de mesas de discussão a palestras, passando por rodas de conversas e letramentos. Simplesmente não dava conta de aceitar todos. Era exaustivo, porém extremamente recompensador. Contudo, desde o ano passado, os convites minguaram. De algo em torno de 30, em 2021 e 2022, para somente os três que recebi este ano: uma ordem de grandeza a menos. Achei, ingenuamente, que era só comigo. Infelizmente, não. Diversas outras pessoas envolvidas com o ativismo LGBTQIAP+ relataram algo similar em suas redes pessoais.
O relatório anual Accelerating Acceptance da organização governamental sem fins lucrativos GLAAD não deixa dúvidas: estamos significativamente menos presentes na mídia. De 2023 para 2024, houve uma diminuição de pelo menos 4% da exposição de pessoas LGBTQIAP+ em anúncios e propagandas, bem como na televisão e no cinema. Pode parecer uma redução incipiente, mas, quando uma parcela ainda considerável da população não conhece pessoalmente nenhuma pessoa LGBTQIAP+, a mídia se torna o único meio de contato com a nossa comunidade. De fato, de acordo com o levantamento LGBT+ Pride 2024 da Ipsos, cerca de um em cada quatro brasileiros não convive diretamente com pessoas LGBTQIAP+, situação que é ainda mais grave para as parcelas mais marginalizadas de nossa comunidade, como as pessoas trans que não fazem parte do círculo de interações pessoais de dois em cada três brasileiros.
Paradoxalmente, ao longo da última década observamos um aumento significativo do número de pessoas que se identificam como LGBTQIAP+. De acordo com o levantamento da Gallup, o número de estadunidenses LGBTQIAP+ aumentou em 165% entre 2012 e 2024. No Brasil, estima-se que cerca de 14% da população seja LGBTQIAP+. Trata-se de uma tendência que é mais pronunciada nas gerações mais jovens: com 17% das pessoas da geração Z, 11% da geração Y (também conhecida como millennials), 6% da geração X e 5% dos baby boomers se reconhecendo como LGBTQIAP+. Por outro lado, vemos que o apoio a marcas e companhias que promovem a igualdade de direitos para pessoas LGBTQIAP+ diminuiu entre os homens da geração Z, retornando aos patamares preocupantes dos baby boomers. Notadamente, cerca de um em cada quatro brasileiros é contra a exposição midiática de pessoas LGBTQIAP+.
Assim, a despeito do aumento da parcela da população que se identifica como LGBTQIAP+, os últimos anos têm sido marcados por uma série de retrocessos em nossa visibilidade e de duros ataques aos nossos ainda parcos direitos, resultado da polarização do discurso promovida pelos setores mais conservadores e religiosos da sociedade. Curiosamente, essa retórica reacionária encontra eco também em parcelas dos movimentos feminista e LGB, ambos profundamente marcados pela transfobia e pelo desejo de excluir de suas bases as pessoas trans. É nesse insólito caldeirão que o fundamentalismo religioso se mistura com os essencialismos de gênero e o neoliberalismo para promover uma agenda trans eliminatória com moldes neofascistas.
Um dos principais frontes dessa investida reacionária recai exatamente na definição de quem pode ser considerada mulher. Ao decidirem legalmente que o gênero é uma característica binária e imutável, determinada biunivocamente ao nascimento de acordo com a presença de alguma característica biológica escolhida sem nenhum respaldo científico, o famigerado “sexo biológico”, mulheres trans e travestis passam a ser forçadamente reconhecidas como homens biológicos e homens trans, como mulheres biológicas. Com isso, medidas como a Ordem Executiva 14168 intitulada Defendendo as Mulheres do Extremismo da Ideologia de Gênero e Restaurando a Verdade Biológica ao Governo Federal, instituída pelo governo Trump em seu segundo dia de mandato, e, mais recentemente, a decisão da Suprema Corte do Reino Unido no caso For Women Scotland Ltd v The Scottish Ministers sobre a definição de sexo biológico no Equality Act britânico de 2010 se apropriam falaciosamente da defesa das mulheres (cis) e de seus direitos para efetivamente excluir pessoas trans da esfera pública.
Além de negarem a existência de pessoas intersexo e não binárias, tais medidas instauram e dão respaldo legal a um clima de policiamento de gênero que perpassa todas as esferas da vida, mas que se manifesta com toda a sua potência na regulação do acesso aos espaços segregados por gênero, como banheiros e vestiários. Leis que efetivamente proíbem o uso de banheiros por pessoas trans não se restringem apenas ao Norte global: em pleno junho de 2025, o Projeto de Lei 3363/2024, que determina o acesso a banheiros públicos com base no “sexo biológico”, foi aprovado em Petrópolis/RJ. Tal proposta inconstitucional não está apenas alinhada com essa tendência trans exclusionária global, mas também reflete o fato de que pelo menos um em cada três brasileiros acha que pessoas trans não deveriam acessar os espaços segregados por gênero conforme a sua identidade.
Longe de ser uma medida que afeta apenas as pessoas trans, como o recente caso da fisiculturista Kely Moraes ilustra, essa ofensiva antitrans corresponde, em última instância, a uma tentativa desesperada de manter a todo custo um projeto de sociedade cujos alicerces são questionados pela mera existência de pessoas LGBTQIAP+. Afinal, a cis-heteronormatividade latente regula os corpos e subjetividades possíveis, podando a diversidade das expressões de gênero e sexualidade. Aquelas que destoam são vistas como anomalias patológicas que precisam ser eliminadas antes que se espalhem como erva daninha. Portanto, precisamos urgentemente e coletivamente repensar os nossos critérios de humanidade, alargando-os, para que este cenário distópico de erradicação silenciosa da diversidade não roube as cores de nossas vidas e amarguemos um futuro cinza, colorido apenas pelo vermelho do sangue das pessoas dissidentes.
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