Interseccionalidade: a palavra que une jovens e idosos nos debates da comunidade LGBTQ+

Coletivos LGBTQIA+ da USP defendem que ações de inclusão devem considerar as diferenças para um acolhimento respeitoso

 27/06/2025 - Publicado há 9 meses     Atualizado: 03/07/2025 às 13:02

Texto: Isabela Nahas*
(com a colaboração de Diego Facundini* e Maria Trombini*)

Pessoas jovens se colocam lado a lado em frente a uma parede de tijolos e sorriem para a câmera. A luz do sol passando por entre os galhos das árvores cria padrões de sombra variados.

Alguns dos membros do DiversifIQ, coletivo do Instituto de Química (IQ) da USP - Foto: Isabela Nahas

A interseccionalidade, interação entre diferentes tipos de discriminação na experiência de um grupo de pessoas, é uma preocupação que tem levantado discussões no movimento LGBTQ+. O tema da Parada do Orgulho LGBTQ+ de São Paulo neste ano, por exemplo, foi Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro. Dentro do meio universitário, os estudantes que se organizam em coletivos comentaram que a interação entre diversidades nem sempre é levada em consideração, mas deveria. Além disso, defendem que, para garantir a permanência dos discentes da comunidade, é preciso acolhê-los de forma coletiva, respeitando as diferenças.

O principal foco de atuação dos coletivos é o acolhimento, para que as pessoas da comunidade não desistam da graduação e se sintam pertencentes aos lugares que ocupam. Os estudantes que fazem parte desses grupos comentaram que, nos locais onde atuam, percebem que raça, gênero, sexualidade e classe social são características que se relacionam e modificam a forma como o preconceito atinge cada pessoa.

Samuel Perfe é estudante de Química, transmasculino e bissexual. Segundo o discente, um homem gay, branco e cisgênero, por exemplo, talvez não se sinta tão impactado pelas opressões de gênero e sexualidade quanto ele, que foi designado mulher ao nascimento e é uma pessoa negra e neurodivergente. “São experiências diferentes”, fala Samuel.

Dentro da comunidade LGBTQ+, as pessoas idosas são um exemplo de vivência da interseccionalidade. A equipe que organizou a Parada SP este ano escolheu dar destaque a essa população pois, além de vivenciar todas as questões que o resto da comunidade sofre, ela também enfrenta os desafios de envelhecer. “As pessoas que estão envelhecendo hoje são as mesmas que enfrentaram preconceito durante toda a vida, e que agora lidam com o abandono e a falta de políticas de cuidado”, alerta Angelina Colicchio, assessora de imprensa do evento.

Angelina fala que existem pautas que atravessam toda a comunidade, como a violência, a falta de políticas públicas efetivas, o acesso à saúde, ao trabalho e à educação. Jasper Medina Meneghim, calouro de Química, panssexual e não binário, diz que o papel dos coletivos está em unificar o grupo, mesmo que com diferenças. “Quando há essa união, esse senso de pertencimento entre as pessoas e o reconhecimento de que a luta não se faz sozinha, mas sim coletivamente, é muito mais fácil a gente conquistar nossos espaços e direitos, tanto dentro da universidade quanto no mundo”, opina o estudante.

Uma pessoa negra com cabelo cacheado volumoso pintado de verde e sombras esfumaçadas fortes nos olhos olha para a câmera e sorri com os lábios fechados.

Samuel, estudante de Química, transmasculino e bissexual - Foto: Arquivo pessoal

Uma pessoa de cabelos escuros longos e olhos pintados elaboradamente, com glitter e delineado, olha para a câmera com o rosto inclinado

Jasper, calouro de Química, panssexual e não binário - Foto: Arquivo pessoal

Na Parada LGBT+, dois homens de cabelo e barba grisalhos, com roupas e óculos de arco íris, vestindo um chapéu de marinheiro, estão ao lado de uma mulher idosa com cablos loiros muito longos, que veste uma faixa com os dizeres visíveis "embaixadora trans"

A Parada do Orgulho LGBT+ deste ano celebrou os membros mais velhos da comunidade - Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil

Como os coletivos LGBTQ+ da USP atuam?

Os coletivos LGBTQ+ organizados por estudantes da USP atuam justamente nessa chave coletiva. Cora é estudante de Jornalismo e transsexual, e faz parte do coletivo Camaleoa, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Ela comenta que os principais propósitos do grupo são tornar o ambiente acadêmico acolhedor aos LGBTQ+, debater temas que dizem respeito aos seus direitos e, também, tentar unir a comunidade.

Laura Amarílis é presidente do Polipride e aluna do curso de Engenharia Civil. Ela explica que a atuação do Polipride vai desde a luta por direitos no dia a dia até atividades de acolhimento, que promovem contato entre calouros, veteranos e egressos. Essas atividades podem ser acadêmicas ou culturais, como palestras com pesquisadores ou oficinas de voguing, dança com origem na cena LGBTQ+ dos anos 1980.

O DiversifIQ tem duas principais frentes de atuação, semelhantes à forma como o Polipride se organiza. Uma tem foco na integração, com leituras de livros, jogos e passeios ligados à comunidade. A outra atua diretamente nas necessidades diárias, como na exigência de liberdade para o uso dos banheiros de acordo com o gênero que cada um se identifica, nas arrecadações e na disseminação de informações sobre direitos. “São duas coisas que não são tão separadas quanto parecem no primeiro momento. Na verdade, a cultura de integração favorece a política também”, explica Dio Alvarenga, não binário e mestrando no IQ com ênfase em química ambiental.

Os grupos atuam também fora da USP. O DiversifIQ se juntou ao Madame Satã, coletivo dos cursos de História e Geografia, para arrecadar alimentos e produtos de higiene. As doações irão para a Casa 1, um centro que acolhe jovens LGBTQ+ expulsos de casa, promove ações culturais e possui uma clínica social para atender a comunidade no centro da cidade de São Paulo. Já o Polipride visitou a ONG EternamenteSOU neste ano. Os universitários doaram 40 cestas básicas à entidade, que promove acolhimento jurídico, social e psicológico a idosos LGBTQ+.

Uma mulher branca de cabelo longo e cacheado, preto e pintado de vermelho na ponta, sorri para a câmera.

Cora, estudante de Jornalismo e transsexual - Foto: LinkedIn

Uma mulher de cabelos longos bem escuros sorri para a câmera. Ela usa um óculos de grau, veste um tirande de arco-íris e abana o rosto com um leque árco-íris

Laura, estudante de Engenharia Civil e presidente do Polipride - Foto: Arquivo pessoal

Uma pessoa branca de cabelos curtos bem cacheados olha para a câmera com expressão séria. Na orelha, usa alguns piercings.

Dio Alvarenga, não binário e mestrando no IQ com ênfase em química ambiental - Foto: Arquivo pessoal

Ser LGBTQ+ na Universidade

Os coletivos definem o espaço acadêmico como heteronormativo: ser heterossexual e cisgênero é considerado o normal, enquanto tudo que difere disso é visto como alheio. “A gente está num meio acadêmico, e aqui a maioria é homem branco hétero… É muito difícil ter qualquer pessoa da comunidade nas aulas”, relata Isabela Vicente, mulher bissexual e graduanda no IQ. Laura afirma que esse tipo de ambiente dificulta a permanência estudantil LGBTQ+, e Isabela complementa que esse é um fator comum nos cursos de exatas.

“Nós, como coletivo, estamos aqui para provar que é possível se formar e é possível chegar aos últimos anos da faculdade. E que ser LGBT não é para ser um impedimento, é para ser algo bom, é para se ter orgulho disso”, diz Laura.

Isabela Vicente, mulher bissexual e graduanda no IQ - Foto: arquivo pessoal

Isabela, mulher bissexual e graduanda no IQ - Foto: Arquivo pessoal

Glossário

Pessoa não binária: de acordo com o Center of Excellence on LGBTQ+ Behavioral Health Equity — centro de excelência, financiado por uma bolsa do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos —, o “termo é utilizado para descrever identidades de gênero fora dos gêneros binários, ou seja, que não se identificam exclusivamente como menino/menina ou homem/mulher. Pessoas não binárias podem ter mais de um gênero, podem não se identificar com nenhum gênero ou com ambos”.

Transmasculinidade: segundo o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, “pessoas transmasculinas são aquelas que não se identificam com o gênero feminino atribuído ao nascimento e reivindicam a identidade masculina para si”. Por outro lado, pessoas transmasculinas podem não se identificar estritamente dentro do espectro binário de gênero (homem/mulher), mas sim com características ou aspectos do gênero masculino, sem necessariamente se limitarem à identidade masculina ou à “performance” masculina.

*Estagiários sob supervisão de Silvana Salles

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