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Interseccionalidade: a palavra que une jovens e idosos nos debates da comunidade LGBTQ+
Coletivos LGBTQIA+ da USP defendem que ações de inclusão devem considerar as diferenças para um acolhimento respeitoso
Alguns dos membros do DiversifIQ, coletivo do Instituto de Química (IQ) da USP - Foto: Isabela Nahas
A interseccionalidade, interação entre diferentes tipos de discriminação na experiência de um grupo de pessoas, é uma preocupação que tem levantado discussões no movimento LGBTQ+. O tema da Parada do Orgulho LGBTQ+ de São Paulo neste ano, por exemplo, foi Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro. Dentro do meio universitário, os estudantes que se organizam em coletivos comentaram que a interação entre diversidades nem sempre é levada em consideração, mas deveria. Além disso, defendem que, para garantir a permanência dos discentes da comunidade, é preciso acolhê-los de forma coletiva, respeitando as diferenças.
O principal foco de atuação dos coletivos é o acolhimento, para que as pessoas da comunidade não desistam da graduação e se sintam pertencentes aos lugares que ocupam. Os estudantes que fazem parte desses grupos comentaram que, nos locais onde atuam, percebem que raça, gênero, sexualidade e classe social são características que se relacionam e modificam a forma como o preconceito atinge cada pessoa.
Samuel Perfe é estudante de Química, transmasculino e bissexual. Segundo o discente, um homem gay, branco e cisgênero, por exemplo, talvez não se sinta tão impactado pelas opressões de gênero e sexualidade quanto ele, que foi designado mulher ao nascimento e é uma pessoa negra e neurodivergente. “São experiências diferentes”, fala Samuel.
Dentro da comunidade LGBTQ+, as pessoas idosas são um exemplo de vivência da interseccionalidade. A equipe que organizou a Parada SP este ano escolheu dar destaque a essa população pois, além de vivenciar todas as questões que o resto da comunidade sofre, ela também enfrenta os desafios de envelhecer. “As pessoas que estão envelhecendo hoje são as mesmas que enfrentaram preconceito durante toda a vida, e que agora lidam com o abandono e a falta de políticas de cuidado”, alerta Angelina Colicchio, assessora de imprensa do evento.
Angelina fala que existem pautas que atravessam toda a comunidade, como a violência, a falta de políticas públicas efetivas, o acesso à saúde, ao trabalho e à educação. Jasper Medina Meneghim, calouro de Química, panssexual e não binário, diz que o papel dos coletivos está em unificar o grupo, mesmo que com diferenças. “Quando há essa união, esse senso de pertencimento entre as pessoas e o reconhecimento de que a luta não se faz sozinha, mas sim coletivamente, é muito mais fácil a gente conquistar nossos espaços e direitos, tanto dentro da universidade quanto no mundo”, opina o estudante.
Samuel, estudante de Química, transmasculino e bissexual - Foto: Arquivo pessoal
Jasper, calouro de Química, panssexual e não binário - Foto: Arquivo pessoal



A Parada do Orgulho LGBT+ deste ano celebrou os membros mais velhos da comunidade - Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil
Como os coletivos LGBTQ+ da USP atuam?
Os coletivos LGBTQ+ organizados por estudantes da USP atuam justamente nessa chave coletiva. Cora é estudante de Jornalismo e transsexual, e faz parte do coletivo Camaleoa, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Ela comenta que os principais propósitos do grupo são tornar o ambiente acadêmico acolhedor aos LGBTQ+, debater temas que dizem respeito aos seus direitos e, também, tentar unir a comunidade.
Laura Amarílis é presidente do Polipride e aluna do curso de Engenharia Civil. Ela explica que a atuação do Polipride vai desde a luta por direitos no dia a dia até atividades de acolhimento, que promovem contato entre calouros, veteranos e egressos. Essas atividades podem ser acadêmicas ou culturais, como palestras com pesquisadores ou oficinas de voguing, dança com origem na cena LGBTQ+ dos anos 1980.
O DiversifIQ tem duas principais frentes de atuação, semelhantes à forma como o Polipride se organiza. Uma tem foco na integração, com leituras de livros, jogos e passeios ligados à comunidade. A outra atua diretamente nas necessidades diárias, como na exigência de liberdade para o uso dos banheiros de acordo com o gênero que cada um se identifica, nas arrecadações e na disseminação de informações sobre direitos. “São duas coisas que não são tão separadas quanto parecem no primeiro momento. Na verdade, a cultura de integração favorece a política também”, explica Dio Alvarenga, não binário e mestrando no IQ com ênfase em química ambiental.
Os grupos atuam também fora da USP. O DiversifIQ se juntou ao Madame Satã, coletivo dos cursos de História e Geografia, para arrecadar alimentos e produtos de higiene. As doações irão para a Casa 1, um centro que acolhe jovens LGBTQ+ expulsos de casa, promove ações culturais e possui uma clínica social para atender a comunidade no centro da cidade de São Paulo. Já o Polipride visitou a ONG EternamenteSOU neste ano. Os universitários doaram 40 cestas básicas à entidade, que promove acolhimento jurídico, social e psicológico a idosos LGBTQ+.
Cora, estudante de Jornalismo e transsexual - Foto: LinkedIn
Laura, estudante de Engenharia Civil e presidente do Polipride - Foto: Arquivo pessoal
Dio Alvarenga, não binário e mestrando no IQ com ênfase em química ambiental - Foto: Arquivo pessoal
Ser LGBTQ+ na Universidade
Os coletivos definem o espaço acadêmico como heteronormativo: ser heterossexual e cisgênero é considerado o normal, enquanto tudo que difere disso é visto como alheio. “A gente está num meio acadêmico, e aqui a maioria é homem branco hétero… É muito difícil ter qualquer pessoa da comunidade nas aulas”, relata Isabela Vicente, mulher bissexual e graduanda no IQ. Laura afirma que esse tipo de ambiente dificulta a permanência estudantil LGBTQ+, e Isabela complementa que esse é um fator comum nos cursos de exatas.
“Nós, como coletivo, estamos aqui para provar que é possível se formar e é possível chegar aos últimos anos da faculdade. E que ser LGBT não é para ser um impedimento, é para ser algo bom, é para se ter orgulho disso”, diz Laura.
Isabela, mulher bissexual e graduanda no IQ - Foto: Arquivo pessoal
Glossário
Pessoa não binária: de acordo com o Center of Excellence on LGBTQ+ Behavioral Health Equity — centro de excelência, financiado por uma bolsa do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos —, o “termo é utilizado para descrever identidades de gênero fora dos gêneros binários, ou seja, que não se identificam exclusivamente como menino/menina ou homem/mulher. Pessoas não binárias podem ter mais de um gênero, podem não se identificar com nenhum gênero ou com ambos”.
Transmasculinidade: segundo o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, “pessoas transmasculinas são aquelas que não se identificam com o gênero feminino atribuído ao nascimento e reivindicam a identidade masculina para si”. Por outro lado, pessoas transmasculinas podem não se identificar estritamente dentro do espectro binário de gênero (homem/mulher), mas sim com características ou aspectos do gênero masculino, sem necessariamente se limitarem à identidade masculina ou à “performance” masculina.
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