Dimensões da casa nas narrativas de atmosfera

Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 26/06/2025 - Publicado há 11 meses

No livro A Arte do Conto, publicado em 1913, Carl Henry Grabo propunha que havia cinco tipos de conto: de ação; de personagem; de cenário (ou de atmosfera); de ideia e de efeitos emocionais. Em certa medida, poderíamos sugerir que essa classificação se estende a narrativas mais longas, como as novelas e os romances, pelo menos desde o século 18.

Recorrendo à terminologia sugerida pelo crítico, vale destacar a importância da casa para a economia narrativa, em particular quando esse cenário é assiduamente frequentado por anfitrião e convivas, tanto nos romances epistolares, quanto nas obras de suspense ou narrativas policiais. Instalados em casa própria ou alheia, interlocutores leem e escrevem cartas – como mostram As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos (1782). Reconstruir uma casa permitiria “atar as duas pontas da vida” – como pretende Bento Santiago em Dom Casmurro, de Machado de Assis (1900). É no interior de uma casa que crimes torpes podem acontecer – como descobrimos ao ler A Casa Torta, de Agatha Christie (1949). É numa casa mal-assombrada que a nova proprietária vivencia o sobrenatural – como se observa em A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson (1959).

Em numerosas tramas, o cenário doméstico não se reduz a apêndice ficcional de cunho meramente descritivo. Componente essencial para a estrutura e condução da narrativa, a casa pode:

(1) revelar aspectos simbólicos;
(2) relacionar-se a dados sociológicos;
(3) ilustrar o período histórico em que a ação transcorre.

Ademais – como sugeriram Carl Gustav Jung, em O Homem e seus Símbolos (1964), e Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço (1970) – o ambiente e os objetos que o compõem podem realçar características físicas, emocionais e psicológicas de uma personagem.

Jung observava que, pelo menos desde o século 18, alguns dicionários traziam associações entre o ser humano e a casa. Bachelard recorreu a versos de Rainer Maria Rilke que sugeriam semelhanças entre a casa e a face humana… Para Gaston Bachelard, esse tipo de abordagem do espaço ficcional caracteriza a topo-análise, ou seja, um modo interpretativo pautado pelo exame detido do lugar, que estabelecia conexão entre a casa e as personagens que a ocupam. A seu ver, “A casa é um conjunto de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade”. Ele recorreu mais de uma vez a Jung, ao sugerir que as partes da casa corresponderiam a estratos da psique: “Pode-se contrapor a racionalidade do teto à irracionalidade do porão”.

Dessa perspectiva, enquanto o sótão permitiria detectar a “estrutura” do telhado – em possível analogia com a dimensão da consciência humana –, o porão seria o componente “obscuro da casa, o ser que integra as potências subterrâneas”. Atento a esses movimentos, um escritor pode alimentar a expectativa do leitor, levando-o a percorrer a sala, os aposentos e os desvãos da casa ficcionalizada. Itens como portas chaveadas, escadas estreitas ou passagens secretas reforçam o simbolismo do acesso difícil, tortuoso ou restrito – dado que também remeteria aos estágios que separam a consciência da inconsciência; distanciam o ego em relação ao id.

Como dizia, é recorrente a aproximação entre características da personagem e aspectos do ambiente que ela frequenta. A austeridade irradiada pela biblioteca pode refletir o modo contido e grave, a sisudez de uma personalidade; a falta de ornamentos de um quarto talvez sugira o pragmatismo de quem o habita. A atuação de um tipo introspectivo pode ser reforçada por sua preferência em circular pelos ambientes mais quietos e isolados; já uma personagem expansiva tenderia a transitar mais pela varanda ou pelo jardim – ambientes externos à esfera doméstica.

Bachelard assinalava que, diferentemente dos apartamentos, descritos como moradias horizontais, as casas conjugam dois ingredientes que as distinguem espacialmente: verticalidade e centralidade. Os pavimentos corresponderiam aos diferentes graus da consciência; o formato e a disposição da casa estariam relacionados à proteção. De modo geral, a esfera íntima aumenta a sensação de acolhimento e de segurança. Jung defendia que “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato”.

Levar em conta a análise desses elementos pode ser muito produtivo. Afinal, é inerente ao ofício do professor estimular a leitura mais detida das obras literárias. Estar atento ao cenário permite detectar correspondências entre o ambiente e as particularidades que distinguem os seres ficcionais, especialmente quando enunciados por habilidosos narradores.

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