
Uma amostra do que é insuportável pode ser vista nos arquivos da Associated Press, da Reuters e da Al Jazeera. Mães — judias ou árabes — segurando nos braços os corpos sem vida de seus filhos, regiões destruídas, fome grassando, valas comuns e dor sem fim. É uma dor impossível de medir. Não há justificativa humana que explique tamanha perda.
Essa dor nasce da crueldade e da lógica de violência do grupo terrorista Hamas (designado como tal por muitos países) e das ações do governo de Benjamin Netanyahu, que vêm sendo denunciadas por organizações internacionais como violações do direito humanitário e crimes de guerra. Até quando o mundo tolerará tamanha iniquidade?
Uma imagem comovente, no entanto, aponta outro caminho. Duas crianças, uma palestina e outra judia, abraçadas. Vistas de costas, elas escapam das narrativas prontas. Não representam lados, mas a humanidade comum. Nessa cena habita uma ideia poderosa: ainda é possível construir a paz.
Foi essa mesma ideia que, há mais de 20 anos, pacifistas israelenses e palestinos apresentaram ao mundo durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. A Carta de Porto Alegre, lida em 27 de janeiro de 2003, dizia:
Nós, pacifistas israelenses e palestinos, estamos determinados a buscar Paz, Justiça e Soberania para nossos povos e um final à ocupação israelense nos territórios ocupados em 1967; a criação de um Estado Palestino independente, lado a lado com Israel, ao longo das linhas de 4 de junho de 1967; Jerusalém como uma cidade aberta e capital independente para cada um dos dois Estados; uma solução acordada e justa para a questão dos refugiados palestinos, de acordo com a Resolução 194 das Nações Unidas.
Clamamos à comunidade internacional e às Nações Unidas, em particular, para, urgentemente, intervir com o intuito de colocar um fim nesta situação trágica, acabar com a violência em ambos os lados, e encaminhar imediatamente negociações de paz, para trazer assim uma paz justa e duradoura.
A imagem das crianças e a voz dos pacifistas não são ingênuas. São resistência. São alternativas ao ódio. Relembrá-las hoje é um dever de consciência. Não podemos aceitar que a política continue ignorando os corpos, a dor das mães e os braços entrelaçados das crianças.
Shalom. Salam. Paz.
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