Um país precisa de heróis?
Em sua célebre peça teatral sobre Galileu, Brecht faz o famoso físico lamentar que heróis sejam necessários. Por outro lado, é verdade que na história, e inclusive na ciência e na tecnologia, dificilmente surgem heróis isolados, sendo que as personalidades que se destacam são parte de uma coletividade e de um determinado contexto histórico, e elas certamente têm muitos méritos individuais, que devem ser reconhecidos.
Na galeria dos que defenderam sem cessar um projeto de nação para o Brasil, pode-se citar nomes como os de Rondon e Casimiro Montenegro, e é este também o caso de Álvaro Alberto da Motta e Silva, nascido no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1889. O jovem entrou na Escola Naval em 1906, tendo se formado em 1909. Já oficial da Marinha, em 1915 graduou-se também em Engenharia pela Escola Politécnica da capital federal, e se tornou professor de Química na Escola Naval em 1916. Em paralelo, Álvaro Alberto se dedicou com êxito à industrialização e comercialização da rupturita, um explosivo de sua invenção. Em 1921 foi eleito para a Academia Brasileira de Ciências e em 1922 liderou a fundação da Sociedade Brasileira de Química.
Além de sua atividade como químico e professor, Álvaro Alberto se destacou pela produção intelectual e por uma vasta cultura humanística, com especial atenção para a História e Filosofia da Ciência. A partir de 1939 passou a advogar as potencialidades da energia nuclear, chamando a atenção do governo para a necessidade de prospecção de minérios radioativos no Brasil, em especial das areias monazíticas, existentes em vários pontos da costa brasileira e ricas em tório. Em 1942 se aposentou da Marinha no posto de capitão de mar e guerra, e desde então se aproximou cada vez mais da política científica da nação.
Em função de sua posição de destaque no cenário científico brasileiro em 1946, após o término da Segunda Guerra Mundial, foi designado representante do Brasil na recém-criada Comissão de Energia Atômica da ONU, que chegou a presidir temporariamente. Entretanto, essa comissão havia sido desenhada para reforçar o monopólio do armamento e da energia nuclear, como ficou evidente no Plano Baruch, que os Estados Unidos tentaram impor para as demais nações. Álvaro Alberto se insurgiu contra esse controle, propondo a tese de “compensações específicas”. De acordo com ela, os países detentores de matérias-primas nucleares não iriam simplesmente vendê-las, mas trocá-las por acesso à tecnologia nuclear. Essa posição levou à pressão dos EUA contra o representante brasileiro, que resultou no afastamento de Álvaro Alberto da Comissão de Energia Atômica. Infelizmente a venda a preços vis de areia monazítica continuou, em virtude de acordos secretos dos EUA com o governo brasileiro.
Em 1949 Álvaro Alberto recebeu excepcionalmente (pois já estava na reserva) o título de almirante e passou a batalhar pela criação do que seria o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), do qual seria o primeiro presidente, de 1951 a 1955. Em sua gestão foram criados órgãos importantes, como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada e o Instituto de Pesquisas da Amazônia.
No contexto dessa época, deve-se lembrar que desde o início do século 20 cientistas falavam do potencial da energia atômica para geração de energia. Logo após o término da Segunda Guerra, os países vencedores do conflito começaram a investir pesadamente num reator em que a fissão nuclear (quebra do núcleo atômico) pudesse gerar calor de forma controlada, para obter vapor e acionar geradores elétricos. Os programas de uso pacífico da energia nuclear da Inglaterra, dos Estados Unidos, da França e da União Soviética se concretizaram na década de 1950. No início da Guerra Fria, o presidente Eisenhower lançou em 1954 o programa Átomos para a Paz, para transferir urânio enriquecido para reatores de pesquisa em universidades de diversos países. O uso pioneiro de energia atômica para propulsão nuclear de submarino foi obra de outro oficial de Marinha, o almirante Rickover, dos EUA, que conseguiu lançar ao mar em 1954 o Nautilus, nome que homenageia a criação premonitória de Júlio Verne em Vinte mil léguas submarinas.
Devido à sua convicção de que o Brasil necessitava de autonomia no campo de pesquisa nuclear, em 1953 Álvaro Alberto fez entendimentos secretos com cientistas e empresas da Alemanha Ocidental para a compra de três ultracentrífugas, equipamento capaz de enriquecer o urânio para reatores de pesquisa nuclear. O segredo foi mantido porque os equipamentos seriam importados desmontados de vários fornecedores, mas quando a carga já estava embarcada para seguir para o Brasil, houve uma denúncia do Itamarati alertando as autoridades norte-americanas, que embargaram o carregamento em Hamburgo.
Cresceu muito a pressão política contra Álvaro Alberto, encabeçada pelo general Juarez Távora, representante dos mesmos setores antinacionalistas que tramavam contra a criação da Petrobras, e que foram reforçados após a morte de Getúlio Vargas. Álvaro Alberto acabou por pedir demissão do CNPq em 1955, por não concordar com medidas que significariam abrir mão da defesa de interesses nacionais na ciência e tecnologia. Em represália, sofreu a realização de uma CPI, em que foi falsamente acusado de mau uso de verbas públicas, numa armação criada por seus inimigos políticos, mas ao final foi amplamente absolvido. Continuou seus trabalhos científicos e empresariais, até a venda da fábrica de rupturita em 1972, vindo a falecer em 1976 no Rio de Janeiro.
Uma particularidade da personalidade de Álvaro Alberto é que foi um arquivista meticuloso, guardando cópias de correspondências com cientistas e políticos, nacionais e internacionais, de suas anotações de aula, seus textos publicados ou inéditos, documentos pessoais, desenhos, poemas, projetos, fotos, filmes documentários, depoimentos, recortes de jornais etc. – inclusive de documentos à época secretos. São mais de 60 anos de testemunhos que refletem de alguma forma a vida política e científica da nação. Todo esse material, organizado em pastas e caixas, foi doado pela família de Álvaro Alberto à USP e depositado sob a guarda do seu Centro de História da Ciência, graças aos esforços de seu então diretor, o professor Shozo Motoyama.
O centro, localizado desde a década de 1980 no prédio de História e Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, disponibilizou o material do arquivo para consultas a mais de uma centena de pesquisadores nacionais e estrangeiros, interessados em conhecer detalhes da história interligados com a vida do almirante. São cerca de dez mil itens, sendo que muitos deles nunca foram objeto de consulta. Desde sua doação, algumas instituições se mostraram interessadas na posse do material, como o Mast (Museu de Astronomia e Ciências Afins), que tem a guarda dos arquivos de todos os demais ex-presidentes do CNPq, além da própria Marinha. No entanto, a doação à USP, registrada no seu Conselho Universitário, não possibilita a transferência da posse do Arquivo Almirante Álvaro Alberto, sem que o assunto seja deliberado pelo colegiado universitário.
Ao final da década de 2010, tornou-se evidente para a gestão do Centro de História da Ciência que seria necessário um trabalho de limpeza do material, pois alguns documentos já estavam danificados pelo tempo e o acondicionamento não seguia as modernas práticas da arquivologia. Verificou-se então que o ideal seria também a digitalização de cada documento recuperado, para evitar novas perdas no futuro. O centro não conseguiu recursos necessários para esse trabalho, mas felizmente o arquivo e sua recuperação se tornaram o tema de doutoramento de uma aluna da História, que juntamente com alunos de Iniciação Científica possibilitaram o início da atividade. Conseguiu-se além disso um scanner adequado para esse trabalho e a digitalização foi iniciada.
No entanto, logo a seguir o Centro de História da Ciência foi desalojado de suas instalações na FFLCH, sem encontrar outra guarida na Universidade, e o arquivo por pouco não foi deixado sem um local de armazenamento. A persistência dos alunos, inclusive com trabalho voluntário em defesa do arquivo, permitiu que neste primeiro semestre de 2025 a higienização, o recondicionamento e a digitalização do acervo fossem completados, estando o mesmo atualmente publicamente disponível na página do Centro de História da Ciência.
O arquivo contém muito material ainda a ser trabalhado por pesquisadores. Por meio dele é possível, por exemplo, perceber quando e como Álvaro Alberto tomou plena consciência do jogo das grandes potências nucleares, que queriam manter o padrão tradicional de um Brasil exportador de matérias-primas e importador de bens industrializados com grande valor agregado. Para isso o País precisava investir pesadamente em ciência e tecnologia, como bem compreendeu e defendeu Álvaro Alberto.
O Brasil começou tardiamente a construção de usinas nucleares para geração elétrica com os projetos de Angra dos Reis, infelizmente sem as precauções recomendadas por Álvaro Alberto de proteção contra “caixas pretas”, isto é, sem transferência do saber tecnológico para projetar e construir os equipamentos. Apesar disso, é justo que o complexo de usinas nucleares existentes no local leve o nome do Almirante Álvaro Alberto, pois foi o grande incentivador desse desenvolvimento, ainda mais quando hoje se vê o ressurgimento da energia nuclear para geração elétrica em vários países que a tinham banido. Por outro lado, quem se atreveu a seguir as recomendações de independência tecnológica de Álvaro Alberto foi exatamente a Marinha do Brasil, que vem desenvolvendo com sucesso o projeto de construção de submarino nacional movido a propulsão nuclear, que será também batizado com o nome de Álvaro Alberto.
Neste sentido, podemos retornar à pergunta inicial sobre a necessidade de heróis. O Brasil tem uma multidão de heróis anônimos, como os professores de escolas públicas, os trabalhadores que sobrevivem com um salário mínimo, ou menos do que isso, e muitos outros, incluindo cientistas e intelectuais que lutaram bravamente por um desenvolvimento autônomo. Às vezes é possível resgatar os nomes de alguns desses heróis por meio da memória do passado, que é discutida e preservada pela história, uma tarefa mais importante ainda quando se quer eliminar ou confundir essa memória.
Neste sentido, preservar um acervo documental como o Arquivo Almirante Álvaro Alberto é fundamental.
________________(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

























