Imperial College, em Londres, que receberá quatro pesquisadores da USP para atividades ligadas à inteligência artificial – Foto: Divulgação Imperial College London
Quatro pesquisadores da USP foram selecionados para atuar em projetos de pesquisa no Imperial College de Londres, no âmbito do Programa Global de Bolsas de Inteligência Artificial (IA) na Ciência, iniciativa de mobilidade internacional lançada em 2024. A ação, desenvolvida no contexto da parceria estratégica entre as duas instituições, previa inicialmente a seleção de três nomes, mas teve sua abrangência ampliada diante da qualidade das propostas apresentadas. Os contemplados devem embarcar já no início do segundo semestre para Londres, onde ficarão por um ano desenvolvendo os estudos. Após o retorno, passarão mais um ano trabalhando em suas unidades de origem exclusivamente no andamento dos projetos.
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Esta atividade faz parte de um conjunto de ações articuladas com o Imperial College que vem ganhando impulso. Em abril deste ano, foi realizado o Workshop de Pesquisa Colaborativa em Transição Energética e Bioeconomia, organizado conjuntamente pelo Centro de Pesquisa em Inovação para Gases de Efeito Estufa (RCGI, na sigla em inglês para Research Centre for Greenhouse Gas Innovation) e pela Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani), em São Paulo. O evento contou com a presença de dez pesquisadores do Imperial College e teve como objetivo promover o contato entre grupos de pesquisa das duas universidades, estimulando a criação de propostas interdisciplinares nas áreas temáticas, incluindo ciências sociais e políticas públicas. O formato do encontro foi concebido para favorecer a integração e a identificação de linhas de interesse comum. Ao final, foram formados oito grupos interdisciplinares, que apresentaram propostas preliminares a serem submetidas em uma chamada conjunta apoiada pelas duas instituições.
Outro avanço recente foi a assinatura de um acordo de parceria estratégica, que permitirá, em breve, o lançamento de uma chamada para projetos conjuntos com apoio na modalidade de seed funding, como é conhecida a etapa inicial de captação de recursos em que investidores aportam capital para que uma startup desenvolva seu produto, valide o modelo de negócio e inicie as operações.
Além disso, a USP passará a integrar o Global Fellows Programme, iniciativa do Imperial College voltada a estudantes de doutorado com foco no desenvolvimento de competências em ambiente internacional. O programa prevê uma semana de pesquisa colaborativa em Londres, com temática alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. A estreia da participação da USP está prevista para 2026.
“O Imperial College é uma das mais prestigiosas instituições de ensino superior do mundo e tem a USP como sua parceira estratégica preferencial na América Latina. Isso certamente é mais um dos resultados da política de internacionalização adotada pela Reitoria. Desde longa data tem havido colaborações individuais entre nossos pesquisadores; porém, os movimentos recentes, por seu lastro em acordos acadêmicos institucionais, têm sido planejados e realizados com vistas a ampliar significativamente as possibilidades de colaboração em todas as áreas do conhecimento. Naturalmente, espera-se que as atividades de interação futura tenham reflexos na formação de nossos estudantes de graduação e pós-graduação”, afirma o presidente da Aucani, Sergio Proença.
Confira quem são os pesquisadores selecionados e os projetos contemplados:
Rodrigo Malavazi Corder, do Instituto de Ciências Biomédicas, com o projeto Uncovering the Genomic Basis of Malaria Parasite Adaptation to Neotropical Vectors and Hosts
“Com cerca de 120 milhões de pessoas em risco e 500 mil casos anuais, a malária segue sendo um desafio de saúde pública nas Américas. A doença foi introduzida aqui por europeus e milhões de africanos escravizados, deslocados de seu continente entre os séculos 16 e 19. Aqui, o parasita encontrou novos vetores e precisou se adaptar para se tornar endêmico. Em minha pesquisa, pretendo usar a IA para identificar elementos-chave na coevolução vetor-parasita, com potencial de orientar novas estratégias de bloqueio da transmissão, como vacinas ou o desenvolvimento de mosquitos geneticamente modificados. Este programa representa uma oportunidade única de intercâmbio científico e desenvolvimento de competências avançadas em IA. Minha expectativa é fortalecer colaborações internacionais e aplicar o conhecimento adquirido no enfrentamento dos desafios de saúde pública da nossa região.”
Lucas Medeiros Cornetta, do Instituto de Física, com o projeto Bridging Quantum Chemistry and AI for Enhanced Modeling of Highly Excited States
“A inteligência artificial tem se mostrado uma aliada poderosa para explorar fenômenos complexos em física molecular e química quântica. No meu projeto, utilizarei métodos de aprendizado de máquina para prever propriedades espectroscópicas de moléculas pequenas, combinando dados da literatura com cálculos quânticos de alta precisão. O objetivo é acelerar a análise de estados eletrônicos altamente excitados, como aqueles observados em experimentos com luz síncrotron e lasers de elétrons livres. Participar do programa AI in Science representa uma oportunidade ímpar de aprofundar minha formação em IA aplicada à ciência fundamental e de me integrar a um ambiente de excelência como o do ICL. Estou especialmente entusiasmado com a possibilidade de estabelecer colaborações internacionais e contribuir com a construção de novos caminhos para a física teórica e química computacional no Brasil. Essa experiência certamente marcará um ponto de inflexão na minha trajetória como pesquisador.”
Daniela Andrade Damasceno, da Escola Politécnica, com o projeto Artificial Intelligence Applied to Multiscale Simulations
“O objetivo central do projeto é desenvolver um framework assistido por inteligência artificial para a realização de simulações multiescala, visando à integração de diferentes técnicas de modelagem em escalas atômica, mesoscópica e macroscópica, com aplicação inicial em tecnologias como células a combustível. Pretendo combinar Physics-Informed Machine Learning para a criação de modelos capazes de substituir simulações de alto custo computacional, com o uso de Large Language Models (LLMs) para automatizar a configuração, execução e análise de workflows. Essa abordagem permitirá aprimorar a transferência de parâmetros entre escalas e otimizar a seleção de modelos. Embora o caso de estudo inicial esteja voltado para células a combustível, o framework será desenvolvido com caráter genérico, com potencial de aplicação futura em outras áreas da engenharia, bem como em física, biologia, medicina, entre outras. Minha expectativa é que essa experiência contribua para o avanço das pesquisas desenvolvidas na USP e no Brasil, ampliando o uso de inteligência artificial em simulações computacionais e fortalecendo colaborações internacionais de longo prazo.”
Mariana Severo Ramundo, da Faculdade de Medicina, com o projeto Leveraging artificial intelligence approaches to unravel the pathophysiology of arboviruses
“Como docente em início de carreira considero uma grande honra ter sido selecionada para o programa Eric and Wendy Schmidt AI in Science. Oportunidades como essa, para jovens pesquisadores como eu, são essenciais para o crescimento acadêmico e para a internacionalização da ciência produzida no Brasil. Minha pesquisa é voltada para o estudo de arboviroses como dengue, chikungunya e febre amarela, que representam um importante desafio de saúde pública no País. Utilizando inteligência artificial, busco integrar dados clínicos e moleculares de pacientes a fim de compreender os mecanismos envolvidos na progressão para formas graves dessas doenças. Essa abordagem pode contribuir para prever riscos, melhorar o diagnóstico e auxiliar na tomada de decisão clínica. Além de produzir resultados interessantes utilizando essas ferramentas computacionais tão avançadas, acredito que essa experiência irá me permitir trocar conhecimento com pesquisadores de referência no Imperial College London, uma das maiores referências em pesquisa e ensino do mundo, e abrir caminho para mais colaborações entre as duas instituições. Fico muito feliz em poder representar a USP e o Brasil nesse programa.”























