Como fica o jornalismo com o avanço da IA?

Para Glauco Arbix, é preciso reinventar o jornalismo em um momento em que a inteligência artificial o altera em todos os níveis

 24/06/2025 - Publicado há 11 meses     Atualizado: 25/06/2025 às 10:24

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O professor Glauco Arbix aborda hoje (24) um tema crucial nos dias que correm: os desafios para o jornalismo na era da inteligência artificial. De início, ele afirma que “a IA está mudando profundamente jornalistas e o jornalismo”. Arbix cita pesquisas que mostram que mais de 80% das redações nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina usam alguma ferramenta de inteligência artificial, seja para gerar títulos, resumos, conteúdos, recomendações e várias outras atividades. Ele lembra que a IA não é a primeira e certamente não será a última tecnologia a colocar o jornalismo em uma zona de turbulência. “Telégrafo, rádio já fizeram isso, várias outras, porém, ao contrário das tecnologias anteriores, a IA altera o jornalismo em todos os seus níveis, da redação à comercialização, da distribuição à diagramação, da tradução à pesquisa de fontes. Até o próprio significado da palavra notícia está sendo mudada pela inteligência artificial. Basta olhar as TVs on-line, que não são apresentadas por jornalistas, mas por clones fabricados que se apresentam como se fossem os repórteres. Lembre-se, a IA é imperfeita, mas ela consegue ler, escrever, ouvir, falar, produzir, sintetizar – muitas vezes, de um modo superior a muitos jornalistas.”

Evidentemente, ele admite, existem riscos de substituir integralmente o trabalho dos jornalistas pela IA. “Quando os humanos saem fora da produção da notícia, eles comprometem a interpretação, deixam de lado a crítica ou o debate e desaparece o contraditório, que são componentes-chave para você construir a notícia. Sem os humanos, riscos éticos se tornam elevados. A IA não possui empatia, senso crítico, capacidade investigativa. São qualidades essenciais do bom jornalismo. Há ainda um problema de fundo. As grandes corporações controlam a infraestrutura de inteligência artificial, dados, a sua distribuição […] Isso coloca um superdesafio ético que ameaça a notícia como um bem público. A IA permite a criação de notícias hiperpersonalizadas, ajustada ao gosto individual, pode ser que muitos prefiram, mas elas podem distorcer ou destruir os fatos que sustentam a vida democrática, formando bolhas de leitores em torno de algumas ideias, de algumas notícias que podem ser parciais ou que não tenham passado pelo crivo do debate. O nosso mundo seria ainda mais polarizado do que já está.”

Arbix aposta num contramovimento. “Pode ser estimulado de fora, mas os jornalistas e todos os veículos têm a obrigação de refletir e participar. É preciso reinventar o jornalismo, não é fácil. Enquanto isso, aumenta a nossa incerteza e insegurança sobre os fatos, sobre as notícias que são capazes de revelar a realidade. Esse é o lugar do jornalismo como bem público que precisa ser reimaginado.”


Observatório da Inovação
A coluna Observatório da Inovação, com o professor Glauco Arbix, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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