Gerando e disseminando conhecimento inovador: o caso do Jornalismo Literário

Por Edvaldo Pereira Lima, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 24/06/2025 - Publicado há 11 meses
Edvaldo Pereira Lima – Foto: Arquivo pessoal

 

Episódio 1

Este artigo tem uma certa pegada de storytelling, na versão tradicional do Jornalismo Literário (propositalmente identificado com iniciais maiúsculas). É a micronarrativa de uma história – real – com enredo, um protagonista, personalidades das comunidades acadêmica e jornalística, um tema central, um arco de transformação. O campo de força – a fonte, a usina criadora – na dimensão sutil da realidade que lhe dá condições de existir é o entrelaçamento de fatores contribuintes que alimentam o processo sistêmico criador no macrossistema USP e seus subsistemas Escola de Comunicações e Artes e Departamento de Jornalismo e Editoração. Os catalisadores que nutrem o disparo do processo são as pessoas-chave, na jornada do protagonista, que representam os arquétipos mentores – seus professores – e aliados – colegas e alunos/orientandos.

O contexto temático é a função da universidade pública em gerar e disseminar conhecimento – inovador, de preferência – para a sociedade, exercendo a função honrável de contribuir para o avanço – e transformação, às vezes – da civilização. Assim como para a evolução das pessoas, quando possível.

O texto decola na trilha criativa da metalinguagem do Jornalismo Literário, tendo um autor também protagonista, ambos apresentados pela ótica narrativa desenhada por Norman Mailer – igualmente jornalista literário –, e à qual deu o nome de ponto de vista autobiográfico em terceira pessoa, em seu livro-reportagem Os Exércitos da Noite.

Edvaldo – simplesmente Ed daqui em diante – é um garoto do interior do Brasil que, no conturbado – mas culturalmente efervescente – anos 1960, descobre o fascínio do Jornalismo Literário quando a inesquecível revista Realidade cruza seu caminho. A narrativa imersiva – típica dessa escola jornalística que moldou a publicação –, centrada nas pessoas, o repórter mergulhado de mente, coração e intuição no mundo dos seus personagens reais, tendo como propósito uma leitura compreensiva e contextualizada da realidade, tudo produzido com uma maestria de linguagem equivalente à melhor arte da literatura de ficção, acende com fulgor um cativante sonho de carreira profissional: viajar pelo planeta contando histórias de pessoas e culturas, arqueólogo de vidas, híbrido de cientista e poeta em prosa nas asas do Jornalismo Literário.

Sonho fortemente expandido no finalzinho da década, banhado pela atmosfera inspiradora do Jornalismo Literário americano então pulsante nas revistas e jornais das bancas frente à entrada da Universidade de Harvard, a cinco minutos de ônibus de onde está morando, Watertown, cidade vizinha a Cambridge. Mestres da arte desfilam pelas páginas, Tom Wolfe, Gay Talese, Joan Didion, conteúdo embalado por visões rejuvenescedoras do olhar sobre a sociedade, saltando do caldeirão chacoalhante da contracultura que balança as normas e crenças engessadas de um mundo excessivamente conservador.

Flash forward no tempo e Ed tem na sua primeira graduação – em Turismo, porque queria correr o mundo, de fato –, de volta ao Brasil, residindo em São Paulo, uma fala direcionadora de uma mentora de um único e decisivo regalo no entrecruzamento de vidas. Sarah Strachman Bacal, também professora da USP: “Seu rumo é mesmo a comunicação, mas só o trabalho de redação na imprensa vai ser frustrante. Porque você tem um talento a desenvolver como professor e pesquisador. Vá fazer pós-graduação com foco em jornalismo na ECA”.
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Continua no próximo episódio.

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