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Walter Neves, “pai” do fóssil Luzia, lança livro de memórias sobre seu primeiro grande amor
De 1986 a 1991, no pior período da epidemia de HIV no Brasil, o paleoantropólogo viveu na Amazônia com seu marido, o publicitário e ativista Wagner Fernandes
Texto: Diego Facundini*
Walter Neves (à esquerda) e Wagner Fernandes (à direita) na época em que começaram a namorar - Foto: Extraída do livro Enquanto Houver Arco-Íris/Fino Traço
Entre os grandes cientistas, cujas biografias comumente seguem o roteiro de suas trajetórias acadêmicas, é incomum que alguém olhe para sua vida passada e escolha registrar, entre tantas coisas, uma grande história de amor. Nesse caso, Walter Neves se encontra confortavelmente na exceção. Aos 67 anos, o paleoantropólogo e professor aposentado do Instituto de Biociências (IB) da USP lança o livro de memórias Enquanto Houver Arco-Íris, sua primeira aventura literária, na qual relembra o relacionamento que viveu com seu “primeiro grande amor”, Wagner Fernandes.
Formado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o publicitário Wagner Fernandes foi um dos membros fundadores e primeiro presidente do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa), uma das primeiras organizações criadas no Brasil com o objetivo de pressionar o poder público por medidas efetivas contra a epidemia de HIV. Fernandes foi diagnosticado com HIV em 1988, enquanto morava com Neves na região da Amazônia urbana, em Belém do Pará, e viveu por quatro anos com a doença, até sua morte em 1992.
Em conversa com o Jornal da USP, Neves define a obra: “É uma linda história de amor que foi tragicamente interrompida pela aids”. Além disso, diz que “só foi uma linda história de amor por causa das duas pessoas envolvidas, principalmente por causa do meu companheiro, que era uma pessoa muito especial. Então eu acho que eu devia esse livro a ele”.
O livro, lançado pela editora Fino Traço, narra a história do casal que, longe dos maiores centros urbanos, entre pesquisas de campo e tratamentos experimentais, conviveu com uma infecção cujas complicações podiam levar à morte os pacientes em um intervalo de apenas quatro ou seis meses após o diagnóstico. Para isso, o autor conta não apenas com sua memória, mas também com uma série de documentos, cartas, recortes de jornais e fotografias guardados daquele que é lembrado como o pior período da epidemia de HIV no Brasil.
“Fuçando aqui em casa, eu descobri quatro pastas que eu já não sabia mais o que tinha. Eu fui mexer nessas quatro pastas e descobri que eu tinha guardado tudo, absolutamente tudo sobre o processo de doença e morte do Wagner. Todos os exames físicos, toda correspondência com a comunidade científica internacional, com os grupos de ativistas gays do exterior e tal. E eu fiquei impressionado: até recibo de consulta eu tinha guardado. Então, quando eu vi esse material, eu falei, poxa, eu posso fazer um livro não só baseado na minha memória, mas eu posso fazer um livro extremamente documentado”, conta o cientista.
“Homo homo sapiens”
Integrantes do Gapa no segundo semestre de 1985 - Foto: Extraída do livro Enquanto Houver Arco-Íris/Fino Traço
Walter Neves é gay assumido desde os anos 1980, mas conta que nunca foi ativista nem sofreu homofobia. “O pouco intervalo de tempo que eu fui ativista foi no Gapa, mais por influência do Wagner do que qualquer outra coisa. Mas eu nunca fui ativista. Eu sempre fui minha própria bandeira. E nunca deixei espaço para ser discriminado. Então eu tenho uma história muito diferente da maioria dos homossexuais, porque eu nunca sofri qualquer tipo de constrangimento, como ser preterido por ser homossexual”, afirma o professor.
Quanto a isso, em texto na orelha do livro, o pesquisador Victor Nery rebate a fala: “Talvez esta obra seja, em suas próprias palavras, a prova de que ele e seu falecido ex-marido foram, sim, vítimas desse preconceito. O estigma que marcou a comunidade LGBTQIAPN+ com a proliferação da aids não foi apenas consequência da falta de preparo técnico dos médicos na virada do século 20 para o 21, mas também do descaso e preconceito com que muitos desses profissionais trataram os aidéticos e membros dessa comunidade”.
Neves conheceu Fernandes pouco depois de sua demissão da USP em 1985, quando foi à sua primeira reunião com o Gapa (algo que, admite no livro, fez em grande parte na esperança de achar um namorado). “Logo que eu vi pela primeira vez, eu percebi que estava ali um grande homem na minha vida”, conta ao Jornal da USP. Na reunião, combinou com o publicitário de que fosse à sua casa para, juntos, traduzirem alguns panfletos internacionais de prevenção à aids. No livro, o autor anexa um desses panfletos que, como escreve na legenda, “começamos a traduzir antes de jogarmos tudo para cima”. “E aí acabou dando certo, e tivemos uma história de amor como poucas que já foram contadas na literatura”, diz.
O casal se mudou para Belém em 1986. Neves, para liderar seu próprio núcleo de pesquisa em biologia e ecologia humana no Museu Paraense Emílio Goeldi. Fernandes, para lecionar comunicação televisiva na Universidade Federal do Pará (UFPA). “Você veja, lá em 85, 86, tanto no Museu Goeldi quanto na universidade, eles sabiam que nós éramos casados, e quando vinham convites de alguma festa do Museu Goeldi lá para casa, vinha em nome de Walter e Wagner. Quando vinha algum convite para uma solenidade da Universidade Federal do Pará, vinha em nome de Wagner e Walter.”
Após quatro anos, submetendo-se a tratamentos experimentais para o HIV, Fernandes morreu em 1992, na Clínica Tobias, em São Paulo. O livro conta toda essa trajetória, mas sem nunca perder o carisma e o senso de humor afiado cultivados pelo próprio autor. “Apesar do, vamos dizer assim, conteúdo trágico, na verdade, o fato de ter vivido isso com ele transformou tudo numa grande aventura. Então, eu digo sempre que é ao mesmo tempo o maior ensaio científico que eu fiz, mas também é a maior aventura da minha vida”, completa Neves.
Carta de Wagner Fernandes para Walter Neves de 11 de Novembro de 1985 - Foto: Extraída do livro Enquanto Houver Arco-Íris/Fino Traço
O cientista
Walter Neves mede a circunferência de criança ribeirinha - Foto: Extraída do livro Enquanto Houver Arco-Íris/Fino Traço
O paleoantropólogo também admite as dificuldades de se desvencilhar de suas raízes acadêmicas: “Na verdade esse livro está 32 anos atrasado, porque eu sempre me perguntava se eu seria capaz de escrever numa linguagem que não fosse científica, então eu fui adiando, adiando, e aí chegou uma hora que eu disse, não, eu preciso escrever esse livro, porque eu já estou com 67 anos de idade, e essa é uma história que não pode deixar de ser registrada”.
Não é à toa. Transitando entre áreas do conhecimento, o cientista é renomado nacional e internacionalmente, principalmente por conta de seus trabalhos arqueológicos com os fósseis dos povos da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, datados em mais de 10 mil anos. Foi com base nessas investigações que ele e o argentino Héctor Pucciarelli propuseram um modelo de ocupação humana da América segundo o qual o continente teria recebido duas levas migratórias distintas, de populações com características diferentes.
Isso foi antes mesmo de entrar em contato com o crânio que veio a marcar toda a sua carreira: Luzia, um fóssil fragmentado descoberto em Lagoa Santa pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, mas que foi reconstituído, medido e nomeado por Neves em 1995. Luzia ficava guardada no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, até desaparecer junto aos escombros de seu incêndio em 2018 e ser encontrada em fragmentos que até hoje aguardam uma nova reconstituição.
Walter Neves - Foto: Leonor Calasans/IEA-USP
Suas teorias causaram e continuam causando rebuliço entre a comunidade acadêmica. Neves é notório por reiteradamente descrever a arqueologia brasileira como “medíocre” e arrumou muita briga com seus colegas de campo – mais destacadamente, travou uma disputa de décadas sobre a ocupação da América com a arqueóloga Niède Guidon, falecida nesse último dia 4. Em 1985, a heterodoxia levou à sua demissão sumária do extinto Instituto de Pré-História da USP, episódio que narra no livro.
O cientista foi recontratado pela USP em 1992, pouco depois da morte de seu marido, dessa vez no IB, onde deu aula até sua aposentadoria, em 2017. Desde 2018, lidera o Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade. “Estou casado e estou feliz, não posso reclamar da vida”, relata.
Livro Enquanto Houver Arco-Íris - Foto: Fino Traço
*Estagiário sob supervisão de Silvana Salles e Antônio Carlos Quinto
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