Homoerotismo do argentino Tulio Carella ganha destaque em biografia

Livro conta a vida do escritor e dramaturgo que viveu em Recife e registrou sem pudor suas memórias sexuais

 18/06/2025 - Publicado há 9 meses     Atualizado: 23/06/2025 às 18:24

Texto: Luiz Prado

Arte: Simone Gomes

Capa do livro Orgia e Compadrio: Tulio Carella, Drama e Revolução na América Latina – Foto: Divulgação/Editora Cosac

“Deus esconde com a carne o fedor das almas.” A máxima, perdida entre as linhas de uma carta endereçada a um amigo, é a provocativa síntese das reflexões que orientaram o argentino Tulio Carella (1912-1979) em sua curta passagem pelo Brasil. Dramaturgo consagrado no Teatro Nacional de Comédia (Teatro Cervantes) de Buenos Aires e personagem da cena cultural local, Carella chegou ao Recife (PE) para dar aulas de teatro. Acabou tomado por uma vertigem carnal que o levou sem restrições aos braços de homens e mulheres. Entre prisões e ostracismo, suas aventuras tropicais deram origem a uma obra que aborda sem pudor o homoerotismo no Brasil dos anos 1960.

Dramaturgo, poeta, contista, ensaísta, teatrólogo, roteirista de cinema, diretor teatral, tradutor, professor universitário, crítico literário, cinematográfico e teatral, Carella escreveu sobre personagens marginalizados como moradores de cortiço, cafetinas e ladrões, produziu literatura homoerótica, caiu em desgraça em seu país e morreu esquecido, aos 66 anos. Sua vida digna dos palcos é agora contada no livro Orgia e Compadrio: Tulio Carella, Drama e Revolução na América Latina, do jornalista Alvaro Machado, fruto de sua tese de doutorado, defendida em 2023 na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

O interesse de Machado por Carella surgiu a partir da leitura de seis páginas de Orgia, Diário Primeiro, o livro em que o argentino relata suas experiências no Brasil, traduzido e editado em 1968 pelo amigo brasileiro Hermilo Borba Filho. “Nesse trecho magistral da chamada literatura homoerótica – reproduzido nos anos 1980 em antologias e revistas em português, espanhol e inglês —, o argentino relata um de seus encontros com o boxeador negro chamado por seus colegas de King-Kong”, escreve Machado, que em 2011 publicou uma edição crítica do livro de Carella, sob o título Orgia, os Diários do Recife, 1960-61. “Anos depois, com acesso à obra completa do escritor, somou-se a essa primeira impressão o seu perturbador crescendo de percepções sobre perversidades e deformações sociais do Nordeste brasileiro, por quatro séculos sob os tacões de minoria governante de mentalidade escravocrata”, escreve Machado no livro.

Dentre outros documentos, Machado compõe o volume a partir das palavras do próprio Carella. Boa parte delas está contida em sua trilogia memorialística – Cuaderno del Delirio (1959), Las Puertas de la Vida (1967) e Orgia. Machado teve acesso também às cartas que o argentino enviou para Borba Filho. São mais de 200, escritas ao longo de 15 anos, de 1961 a 1976, conservadas pela viúva de Borba Filho, Leda Alves.

Um “perfil humanista no sentido renascentista do termo”, segundo Machado, Ítalo Tulio Carella nasceu em Buenos Aires, no dia 14 de maio de 1912, neto de imigrantes italianos. Aos 3 anos, mudou-se com a família para Mercedes, a 100 quilômetros da capital, o que lhe garantiu uma infância e adolescência tranquilas e provincianas, com espaço para leituras e brincadeiras de rua. Permaneceu lá até os 21 anos, quando instalou-se em Buenos Aires. Na capital argentina, publicou livros de poesia, foi aclamado por suas peças Don Basilio Mal Casado (1940) e Doña Clorinda, la Descontenta (1941) e assinou críticas de cinema, música, teatro e literatura para os diários Crítica e La Prensa e as revistas Davar, Ficción e Sur, entre outros periódicos.

A mudança para o Recife aconteceu em 1960, convidado por Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho para dar aulas de interpretação e cenografia na Escola de Belas Artes da então Universidade do Recife, futura Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Carella viu na viagem para o Brasil a oportunidade de escapar de um ambiente cultural que começava a se tornar sufocante. No final dos anos 1950, casos de censura à literatura e à arte passaram a ser frequentes na Argentina, com apreensões de livros e processos contra seus autores, editores e artistas. Filmes nacionais e estrangeiros também começavam a sofrer proibições. Não teve dúvidas: deixou a esposa, a pianista e poetisa Margarita “Tita” Durán, em casa e partiu.

Homem de bigode, sentado a uma mesa, tendo ao fundo uma estante cheia de livros.
Retrato de Túlio Carella, publicado na revista Qué - Fotografia de autoria desconhecida

Carella não quis se instalar nos bairros de classe média dos seus colegas professores e decidiu morar na zona conhecida como Recife Antigo. Era uma área próxima ao porto, repleta de casarões coloniais em ruínas, pequenos hotéis e pensões. Área da classe baixa, habitada por uma população majoritariamente negra e mestiça, mas também povoada por vendedores ambulantes, desempregados e homens à procura de sexo casual nas esquinas, praças e bares.

Permaneceria lá por cerca de um ano e meio. A passagem breve, mas intensa, foi eternizada com o livro de 1968, Orgia. Fruto dos diários que manteve durante sua estada em Recife, o volume registra os encontros amorosos que Carella estabeleceu com homens e mulheres na capital pernambucana. Os nomes das pessoas reais foram trocados, mas para os conhecidos não foi preciso muito trabalho para identificar quem era quem.

Obra “maldita” do autor, Orgia só sobreviveu na versão em português, produzida por Borba Filho. Os cadernos manuscritos originais seriam queimados pela esposa logo após a morte de Carella, em 1979, porque “encerravam coisas tremendas”. Um livro “injustamente silenciado”, escreve Machado. Em carta de setembro de 1968 para Borba Filho, Carella resumia assim sua situação no Brasil: “O problema recifense, para mim, era a solidão que me atirava à luxúria, e a luxúria me deixava ainda mais só. Estava num círculo vicioso, na dupla acepção dessa expressão”.

A estadia no Brasil acabou de modo trágico e abrupto. Vivia-se uma paranoia entre a elite e os militares por conta da Revolução Cubana e o medo de sua chegada a praias tupiniquins, sobretudo porque o socialista Miguel Arraes era prefeito em Recife e as Ligas Camponesas marchavam de facão em punho pelas ruas da cidade. Não foi difícil ver naquele sujeito de fala castelhana que se misturava com negros e pobres um agente da desestabilização nacional.

Na manhã de 20 de abril de 1961, Carella foi sequestrado pelas forças de segurança, confundido como um “traficante de armas de Cuba”.

Passou oito dias detido e sofreu torturas físicas e psicológicas de oficiais do Exército. Seus diários, com as descrições das aventuras amorosas, foram encontrados em seu apartamento e fotocopiados.

Capa de livro com a foto de um homem.
Capa do livro Orgia, de Tulio Carella, publicado no Brasil em 1968 - Foto: Divulgação

 

Quando os militares perceberam o engano, Carella foi libertado, ameaçado de ter seus manuscritos revelados para autoridades argentinas. Deveria ficar quieto. Na entrevista que concedeu aos jornais após a soltura, não denunciou nenhum mau trato. De volta à universidade, o reitor o recebeu com um mês de salário adiantado, a notícia da demissão e uma passagem aérea de volta para a Argentina. Entendeu o recado e, sem condições de permanecer desempregado no Recife, partiu para Buenos Aires. Ficaria por lá até voltar, no fim da vida, para a Mercedes de sua infância.

Orgia, que saiu no Brasil em 1968, foi seu último livro publicado. As intimidades registradas no livro se tornaram motivo de distância para o público e afastamento para os amigos. O prestígio que tivera com trabalhos anteriores se transformou em fumaça. Seus textos escritos para teatro deixaram de ser levados aos palcos.

Foto de um prédio, à beira de um canal e perto de uma ponte.
Recife nos anos 1960, época em que Carella viveu na capital pernambucana - Portal da coleção Josebias Bandeira - Fundação Joaquim Nabuco - Foto: Reprodução do livro Orgia e compadrio

“Apesar de sua produção literária publicada ter alcançado o ano de 1968 e somado 20 volumes de ensaios, memórias e poesia, o portenho não logrou fisgar completamente o gosto do leitor, e tampouco do espectador teatral após 1941, ou foi mal absorvido em seu ecletismo, saltando entre diversos temas e gêneros, ou, ainda, não alcançou a originalidade ou densidade que projetaram Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Julio Cortázar e outros conterrâneos para reedições sucessivas e traduções além-fronteiras”, escreve Machado, fazendo uma análise da recepção e legado de Carella.

E o biógrafo continua. “De outro lado, por sua ousadia, os memorialísticos Cuaderno del Delirio e Orgia amargaram condição de ‘malditos’ – o primeiro, rejeitado pela crítica pela acidez no retrato do ambiente cultural portenho, constituindo um dos motivos para sua transferência ao Brasil, e o segundo, visto com horror por seus compatriotas e mantido como espécie de segredo pornográfico, ou ‘obra cult’, até os anos 2020.”

Na década de 1980, entretanto, após mais de dez anos de esquecimento, Orgia começou a interessar a estudiosos da literatura homoerótica e antropólogos. Em 1986, o relato envolvendo o boxeador negro King-Kong apareceria em Devassos no Paraíso: a Homossexualidade no Brasil, da Colônia à Atualidade, de João Silvério Trevisan. No ano seguinte, o argentino Néstor Perlongher citaria o livro no ensaio O Negócio do Michê: Prostituição Viril em São Paulo. Alguns anos mais tarde, a obra inspiraria o curta-metragem Paixão Nacional (1994), de Karim Aïnouz. Mais recentemente, influenciou o longa Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, e serviu de conceito para o álbum Orgia (2022), do cantor Johnny Hooker.

Uma retomada que é coroada com a publicação de Orgia e Compadrio, de Alvaro Machado. Agora, espera-se que a biografia avance o interesse pela obra ainda inédita do autor, como o segundo volume de Orgia, no qual Carella continua o relato de sua passagem pelo Brasil, descrevendo, entre outras passagens, sua prisão e tortura pelos militares.

“De que serve minha presença no mundo?”, pergunta-se Lúcio Ginarte, alter-ego de Carella, a certa altura de seu livro “maldito”. “Só para desencadear a orgia?” Machado mostra que não. Carella foi muito além. Mas, se fosse só para isso, já teria sido o suficiente.

Orgia e Compadrio: Tulio Carella, Drama e Revolução na América Latina, de Alvaro Machado, Editora Cosac, 368 páginas, R$ 132,00.


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