
O que o IEA representa para o senhor e como ele se insere em sua jornada enquanto pesquisador?
Eu tive toda a minha formação universitária ligada à USP – graduação, mestrado e doutorado. Desde a minha graduação em Filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, tive contato com o IEA, reconhecendo sua importância e frequentando alguns dos eventos promovidos. O IEA, para mim, sempre foi referência como centro de estudos interdisciplinares, de trocas de saberes.
Quais eram as suas expectativas quando o senhor se inscreveu no Programa Ano Sabático?
Uma motivação é a possibilidade de você ter um tempo de pesquisa. Pode parecer um contrassenso, porque, afinal de contas, estamos numa universidade de pesquisa, o nosso contrato de trabalho prevê esta dedicação. Mas as atividades didáticas, de gestão e burocráticas acabam tomando uma grande parte do nosso tempo. Sem contar que, muitas vezes, as pesquisas acontecem nos nossos próprios laboratórios. Então, você acaba ficando muito isolado desse contato interdisciplinar. Dessa forma, uma outra expectativa era a de ter um espaço de diálogo com pesquisadores de outras áreas.
Como o tema escolhido para sua pesquisa, Ambientes e Aglomerados Urbanos Criativos: Os Parques Tecnológicos e as Agências de Inovação Universitárias no Interior do Estado de São Paulo, se insere na sua trajetória acadêmica?
Eu venho trabalhando o tema ligado à tecnologia, informação, conhecimento e espacialidades desde o mestrado, mas com uma ênfase maior a partir da pesquisa de doutorado no início dos anos 2000. Quando ingressei no curso de Arquitetura e Urbanismo como professor, continuei mantendo relação com pesquisadores da área de economia política, cultura, comunicação e informação, participando de fóruns internacionais e sendo presidente de associações científicas. Quando elaborei a proposta para o IEA de pensar sobre os espaços aglomerados de inovação, isso surge de um estudo anterior que eu comecei a fazer na arquitetura, naquilo que eu chamava de espaços e aglomerados de cultura e inovação. Anteriormente, eu estava muito ligado à questão da economia criativa, pensando em como a cultura é acionada a partir desses outros espaços e também como, por exemplo, uma série de espaços, como fábricas abandonadas e subutilizadas, patrimônios industriais e históricos, viram espaços de cultura e de inovação. Estudando um pouco a taxonomia desses espaços, identificava pelo menos duas cadeias produtivas. Uma ligada à cultura e às artes e a outra ligada à inovação e tecnologia. A partir dessas duas cadeias produtivas, faço o projeto do IEA pegando especificamente essa questão da inovação e da tecnologia. Esta escolha está relacionada a uma característica do campus USP São Carlos, que é um campus formado por unidades de ciência e tecnologia, em uma uma cidade onde se fala bastante sobre os ecossistemas de inovação.
Como podemos definir esses ambientes e aglomerados urbanos criativos?
Uma característica importante de muitos desses espaços é uma espécie de hibridização entre campos disciplinares. Ou seja, você tem um espaço que é de trabalho e, ao mesmo tempo, de formação, que conjuga entretenimento ou uma atividade cultural. Isso pode ser chamado também de campo fusional, o que carrega a ideia da transdisciplinaridade que esses espaços acolhem. Eu penso que o que caracteriza esses espaços é uma nova concepção do mundo do trabalho que pensa esses locais como espaços de diálogos e de atração de interesses diversos. A partir dessa aproximação, pode proporcionar novas ideias, contatos e inter-relações.
O parque tecnológico seria um recorte disso?
Pelo menos desde a época de uma economia industrial forte, as pessoas acabaram percebendo os benefícios de uma aglomeração espacial. Porque você pode compartilhar da mesma infraestrutura e de uma série de serviços. Quando vem a crise da industrialização, a economia se reconfigura e a dimensão das tecnologias ganha força, surgindo uma discussão neste sentido. O mundo estava começando a se “globalizar”, a comunicação à distância começava a se tornar uma realidade. Então, muitos diziam ser o fim das aglomerações. Só que as pessoas perceberam que, apesar dessas facilidades de comunicação à distância, a proximidade continuava sendo um elemento importante. Ou seja, atrair empresas para o mesmo espaço continuava tendo vantagens adicionais. Só que agora, em vez das pessoas pensarem naquela lógica das grandes indústrias, dos parques industriais, elas começam a testar modelos de empresas de tecnologia. Essa é a ideia da formação de parques tecnológicos: lugares onde empresas de tecnologia possam usufruir dos recursos trazidos por uma certa proximidade. O que os meus estudos mostram é que esse é um discurso que precisa ser incorporado com certa ressalva. Embora sejam importantes esses espaços e trocas, quando a gente pensa na lógica do mundo empresarial, vê que não são espaços tão amigáveis assim, ou não são todas as informações que podem ser trocadas. Então, ao mesmo tempo em que esses parques são um espaço de geração de novas tecnologias, também devem ser vistos como um espaço onde os agentes estão em disputa.
O senhor comenta que estamos passando por um reposicionamento das lógicas culturais e de inovação dentro da atual fase capitalista. E que a denominação do que se caracteriza como criativo se insere nesse reposicionamento. O que é considerado criativo hoje e o que o distingue de inovação?
Eu entendo os conceitos como campos em disputa. São, portanto, campos políticos onde um conjunto de interesses estão colocados. Criativo e criatividade são termos que, usualmente, são utilizados para o campo das artes e das humanidades. Quando a gente vê essa tradição do campo das artes e da cultura, a gente utiliza uma espécie de pensamento crítico em relação, por exemplo, às determinações do mundo empresarial. É curioso observar como é que um termo que vem de um outro universo disciplinar e político é incorporado pelo mundo da gestão. Existem dois autores, Luc Boltanski e Ève Chiapello, que na década de 1990 escreveram um livro importante chamado O Novo Espírito do Capitalismo. Eles fizeram um estudo da literatura de administração de empresas e começaram a observar como a ideia de criatividade, flexibilidade e liberdade era incorporada para benefício do mundo empresarial. Eles vão dizer que o capitalismo incorporou as críticas que vinham do mundo das artes e transformou essas críticas em algo que servia para impulsionar o próprio sistema. Este é o trânsito que eu estava apontando, o quanto uma área que criticava o discurso é incorporada agora em benefício do próprio discurso. Isso significa que começa a haver uma espécie de borramento entre campos que eram muito distintos.
Em relação aos ecossistemas de inovação, quais seriam seus principais atores? E quais são aqueles que ainda não são considerados, mas que, se fossem, poderiam contribuir para a formação de um ecossistema mais criativo e equitativo?
Eu havia comentado um pouco antes uma certa dificuldade com o termo ecossistema. No estudo da economia e das tecnologias predomina uma corrente que a gente chama de economia evolucionária. Isso significa que o conhecimento acumulado vai gerando determinados produtos que vão acumulando saberes e, então, evoluindo. Quando eu falo de um ecossistema, estou pensando em uma estrutura em que seus elementos chegariam a um certo equilíbrio. Essa visão, para mim, não é muito adequada. Talvez fosse mais produtivo se falar em sistemas complexos ou utilizar o conceito de campo trazido pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Quando ele fala de campo, sugere uma certa especificidade. Dessa forma, o campo das artes é distinto do campo da ciência por características específicas. Eu poderia, no entanto, identificar o campo como um campo de disputas. Disputa pelo quê? Por poder, por hegemonia, por prestígio… Basta pensarmos na alta tecnologia como campo essencial para a economia contemporânea. Um exemplo recente foi o fato de os Estados Unidos colocarem como condição para o apoio à paz ucraniana a exploração de terras raras no país. Um tempo atrás o grande interesse das nações era o petróleo. Depois de uma guerra, obrigava-se aquele território a assinar um acordo em que a exploração do petróleo seria feita por grandes empresas. Hoje em dia, o petróleo do mundo são as terras raras, minerais que existem em alguns lugares e que são fundamentais para todo o desenvolvimento tecnológico, para a internet 5G, esses chips de alta performance, semicondutores. A pergunta que a gente pode fazer é: quem são os partidários, os beneficiários de todo esse desenvolvimento tecnológico, de toda essa riqueza gerada? Ela, de alguma maneira, está sendo concentrada na mão dos donos do poder e do dinheiro ou está havendo uma certa repartição? Como, de alguma maneira, a gente pode ter uma certa equalização ou distribuição um pouco melhor desses dividendos?
A universidade está mais para um ecossistema ou para um campo de disputa?
Se você pensar a universidade como um todo, ela é esse campo de disputa das diversas áreas, dos diversos agentes. Enquanto campo de disputa, há sim toda uma discussão sobre as políticas universitárias e mesmo as políticas de inovação. Algumas universidades começam, a partir de determinado momento, a investir mais nessa questão da inovação, a definir políticas de inovação ainda, do meu ponto de vista, muito centradas na questão da inovação tecnológica. Não se trata de não reconhecer a importância disso. O que me parece é que, dentro desse ecossistema universitário, a universidade é um espaço apropriado onde essas questões de busca por uma igualdade dos rumos dessa economia e da proposição de políticas de inovação podem ser discutidas. Ela é o espaço ideal no qual se pode discutir quais são, dentro de uma política de desenvolvimento nacional, as áreas prioritárias e que tipo de empresas devem, ou não, serem impulsionadas com o uso de recurso público. O que é diferente de um parque tecnológico privado, que está preocupado única e exclusivamente com os objetivos e benefícios daquela instituição.
Qual a importância do Programa Eixos Temáticos e da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento da USP no que diz respeito à inovação?
Eu tomei esses projetos como exemplo de inovação, porque desenvolvo o argumento de um conceito de inovação que engloba a ideia de inovação social. Isso significa pensar no desenvolvimento de questões e de tecnologias que atendam a demandas sociais e que, portanto, estejam alinhadas à missão da Universidade, que é a de formar cidadãos e de contribuir para o bem-estar da sociedade. Peguei o Programa Eixos Temáticos como exemplo de uma contribuição de determinados membros da Universidade para a sociedade, contrariando o discurso de que a Universidade não dialoga com seu entorno. A USP criou o programa USP Pensa Brasil, em que reuniu um conjunto de pensadores pertencentes ao quadro da Universidade para discutir determinados temas que pudessem influenciar na formulação de novas políticas públicas. Para isso, foram encontrados 11 eixos temáticos. Como resultado se gerou uma publicação com diretrizes e recomendações, que está disponível no Portal de Livros Abertos da USP. O objetivo dessa publicação era que ela fosse entregue aos municípios, governos de Estado e governos nacionais. Isso foi uma inovação no sentido daquilo que estamos chamando de uma pesquisa orientada por missões. Outro exemplo que eu coloquei foi da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento. Esta é uma questão de longo prazo, entretanto, cada vez mais, a sociedade vem se articulando para reivindicar políticas neste sentido, exigindo participação de segmentos da sociedade que estavam afastados das políticas públicas e do ambiente universitário. Portanto, dar institucionalidade para essas questões que sempre atravessaram a Universidade de São Paulo está fazendo com que se repense a estrutura de ensino, as relações cotidianas em sala de aula e assim por diante. Não é simplesmente uma abertura de mais espaço, não é simplesmente aumentar a quantidade de cotistas ou o escopo das vagas destinadas a determinados segmentos. É a estrutura de ensino que não pode ser mais a mesma. É um momento muito importante da sociedade, porque nos faz repensar relações antes invisibilizadas. Uma inovação organizacional pode gerar impactos, por exemplo, nos objetos de pesquisa, nas temáticas, nas metodologias. Pode, portanto, gerar novos produtos, novos conhecimentos. É uma inovação que faz com que o conhecimento produzido no Brasil e desde o Brasil possa trazer uma contribuição importante para aquilo que está sendo discutido no resto do mundo.
Para ler a entrevista completa acesse: https://sc.iea.usp.br/entrevista-ruysardinhalopes/
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